Expresso: Cientistas em Portugal

Posted on April 14, 2008 
Filed Under Universidade

A edicao de amanha do Expresso destaca a actividade cientifica em Portugal e compara-a com a de outros paises. Constata o obvio, que a ciencia, por aqui, e na sua maioria feita nas universidades e organismos publicos e vai a procura das empresas portuguesas que mais apostam em ciencia e tecnologia. Um tema interessante, que motiva um breve comentario sobre o enorme potencial que geramos na ultima decada, que aqui deixo.

Ha muitos anos que a formula para o sucesso e a mesma: promover a inovacao e o desenvolvimento cientifico e tecnologico de Portugal. Algumas coisas tem sido bem feitas, outras nem por isso.

O numero de bolsas de doutoramento atribuidas pela Fundacao para a Ciencia e a Tecnologia cresceu quase 50% em 12 anos, sinal evidente que se apostou muito na formacao qualificada de recursos humanos. Mas esse investimento nao foi acompanhado por politicas necessarias para o aproveitamento do potencial que gerou.

As universidades resistem as transformacoes e o Estatuto da Carreira Docente Universitaria continua sem ser revisto, alimentado o inbreeding — uma das caracteristicas das universidades portuguesas que mais minam a actividade cientifica de qualidade. As tentativas de dinamizar a ciencia atraves, por exemplo, da criacao dos Laboratorios Associados, ou do Programa Ciencia 2007, pecam pela falta de sustentacao. No primeiro caso, depois de uma explosao na criacao de laboratorios, as regras de financimanto deterioraram-se e o futuro deste modelo e incerto. No segundo, contratar centenas de novos cientistas e uma ideia excelente, mas nao se percebe porque nao faze-lo de forma sustentada e intervalada. De repente, abriu-se uma janela de oportunidade que se fechou logo a seguir. Quem na altura (primeiro semestre de 2007) estivesse ainda numa fase importante da sua formacao, tem agora que aguardar por outro programa semelhante que nao se sabe se acontecera este ano, para o ano, ou nunca mais.

Fora das universidades e laboratorios publicos, a actividade cientifica ainda e reduzida. Aqui, e a transformacao do tecido economico portugues que alimenta a aposta das empresas na inovacao e contratacao de recursos humanos qualificados, que por sua vez promovem essa transformacao: as industrias farmaceutica, vinicola, biomedica e de aplicacoes informaticas estao na vanguarda da inovacao em Portugal, mas a esmagadora maioria das empresas resiste a ideia que um doutorado e uma mais-valia.

Durante os ultimos sete ou oito anos, a Portuguese American Postgraduate Society (PAPS) tem vindo a promover, nos EUA, foruns de discussao sobre Ciencia, Tecnologia e Inovacao. Um dos diagnosticos comeca a ganhar cada vez mais relevancia: mais do que a falta de investimento, e a forma pouco sustentada como o investimento e promovido que dificulta o aproveitamento do enorme potencial de recursos humanos qualificados que Portugal gerou na ultima decada.

[Escrito no contexto de uma colaboracao com o Expresso, que me permiti comentar antecipadamente alguns dos temas da edicao em papel do jornal]

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