Expresso: Cientistas em Portugal

Por João Jesus Caetano | Arquivado em Ciência, Expresso, Universidade 
24 Abril, 2008, 10:57 |

A edição de amanhã do Expresso destaca a actividade científica em Portugal e compara-a com a de outros países. Constata o óbvio, que a ciência, por aqui, é na sua maioria feita nas universidades e organismos públicos e vai à procura das empresas portuguesas que mais apostam em ciência e tecnologia. Um tema interessante, que motiva um breve comentário sobre o enorme potencial que gerámos na última década, que aqui deixo.

Há muitos anos que a fórmula para o sucesso é a mesma: promover a inovação e o desenvolvimento científico e tecnológico de Portugal. Algumas coisas têm sido bem feitas, outras nem por isso.

O número de bolsas de doutoramento atribuídas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia cresceu quase 50% em 12 anos, sinal evidente que se apostou muito na formação qualificada de recursos humanos. Mas esse investimento não foi acompanhado por políticas necessárias para o aproveitamento do potencial que gerou.

As universidades resistem às transformações e o Estatuto da Carreira Docente Universitária continua sem ser revisto, alimentado o inbreeding — uma das características das universidades portuguesas que mais minam a actividade científica de qualidade. As tentativas de dinamizar a ciência através, por exemplo, da criação dos Laboratórios Associados, ou do Programa Ciência 2007, pecam pela falta de sustentação. No primeiro caso, depois de uma explosão na criação de laboratórios, as regras de financimanto deterioraram-se e o futuro deste modelo é incerto. No segundo, contratar centenas de novos cientistas é uma ideia excelente, mas não se percebe porque não fazê-lo de forma sustentada e intervalada. De repente, abriu-se uma janela de oportunidade que se fechou logo a seguir. Quem na altura (primeiro semestre de 2007) estivesse ainda numa fase importante da sua formação, tem agora que aguardar por outro programa semelhante que não se sabe se acontecerá este ano, para o ano, ou nunca mais.

Fora das universidades e laboratórios públicos, a actividade científica ainda é reduzida. Aqui, é a transformação do tecido económico português que alimenta a aposta das empresas na inovação e contratação de recursos humanos qualificados, que por sua vez promovem essa transformação: as indústrias farmacêutica, vinícola, biomédica e de aplicações informáticas estão na vanguarda da inovação em Portugal, mas a esmagadora maioria das empresas resiste à ideia que um doutorado é uma mais-valia.

Durante os últimos sete ou oito anos, a Portuguese American Postgraduate Society (PAPS) tem vindo a promover, nos EUA, fóruns de discussão sobre Ciência, Tecnologia e Inovação. Um dos diagnósticos começa a ganhar cada vez mais relevância: mais do que a falta de investimento, é a forma pouco sustentada como o investimento é promovido que dificulta o aproveitamento do enorme potencial de recursos humanos qualificados que Portugal gerou na última década.

[Escrito no contexto de uma colaboração com o Expresso, que me permite comentar antecipadamente alguns dos temas da edição em papel do jornal]

Comentários

Um comentário ao artigo “Expresso: Cientistas em Portugal”

  1. tca a 25 de Abril de 2008 8:31

    Caro João,

    não é só nas universidades que o inbreeding existe, é uma das características de algum jornalismo portugues, minando a actividade e a sociedade.

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