As palavras são importantes
Por João Jesus Caetano | Arquivado em Portugal, Sociedade
14 Abril, 2008, 12:16 |
Num artigo inicialmente publicado no Diário de Notícias e republicado no 5 dias, Fernada Câncio escreve um parágrafo que em muitos países já não faz sentido. Em Portugal, é urgente reescrevê-lo:
«Ter consciência disso e tentar expurgar a linguagem, a fala, deste tipo de referências discriminatórias [chamar “preto” a Tiago, um míudo de 10 anos] é a essência daquilo a que se deu, nos EUA, o nome de “politicamente correcto”. A expressão nasceu da noção de que a linguagem não é neutra – é, evidentemente, política. É um campo de batalha no qual o que se diz não só faz diferença para os outros como para o próprio: reprimir palavras, noções e referência discriminatórias cria uma outra forma de ver e pensar o mundo. Esta reeducação voluntária, este esforço de não agressão, foram ridicularizados e atacados pela direita americana e depois pelas várias direitas, comparados a uma ditadura e agregados à linguagem totalitária referida por Orwell na obra 1984 – a “novilíngua”. Numa espantosa inversão de papéis, quem usa linguagem discriminatória e ofensiva surge como necessitado de protecção e apresenta-se o politicamente correcto como um atentado à liberdade de expressão e pensamento».
Não foi preciso muito tempo para me (re)lembrar como a linguagem corrente, em Portugal, é profundamente discriminatória. Um almoço numa cervejaria, poucas semanas depois de regressar, foi suficiente: Um empregado pede a outro que limpe o chão junto a uma das mesas. Pouco agradado com o pedido, o segundo responde, em voz alta, que “não é preto” e que os “pretos estão lá dentro”, apontando para a cozinha, onde três cozinheiras negras preparam a comida. Os outros empregados riem, alguns dos clientes riem, as cozinheiras baixam a cabeça - em sítios destes, aliás, raramente as levantam - e a vida continua.
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