As palavras são importantes
Posted on April 14, 2008
Filed Under Sociedade
Num artigo inicialmente publicado no Diario de Noticias e republicado no 5 dias, Fernada Cancio escreve um paragrafo que em muitos paises ja nao faz sentido. Em Portugal, e urgente reescreve-lo:
«Ter consciencia disso e tentar expurgar a linguagem, a fala, deste tipo de referencias discriminatorias [chamar “preto” a Tiago, um miudo de 10 anos] e a essencia daquilo a que se deu, nos EUA, o nome de “politicamente correcto”. A expressao nasceu da nocao de que a linguagem nao e neutra – e, evidentemente, politica. E um campo de batalha no qual o que se diz nao so faz diferenca para os outros como para o proprio: reprimir palavras, nocoes e referencia discriminatorias cria uma outra forma de ver e pensar o mundo. Esta reeducacao voluntaria, este esforco de nao agressao, foram ridicularizados e atacados pela direita americana e depois pelas varias direitas, comparados a uma ditadura e agregados a linguagem totalitaria referida por Orwell na obra 1984 – a “novilingua”. Numa espantosa inversao de papeis, quem usa linguagem discriminatoria e ofensiva surge como necessitado de proteccao e apresenta-se o politicamente correcto como um atentado a liberdade de expressao e pensamento».
Nao foi preciso muito tempo para me (re)lembrar como a linguagem corrente, em Portugal, e profundamente discriminatoria. Um almoco numa cervejaria, poucas semanas depois de regressar, foi suficiente: Um empregado pede a outro que limpe o chao junto a uma das mesas. Pouco agradado com o pedido, o segundo responde, em voz alta, que “nao e preto” e que os “pretos estao la dentro”, apontando para a cozinha, onde tres cozinheiras negras preparam a comida. Os outros empregados riem, alguns dos clientes riem, as cozinheiras baixam a cabeca – em sitios destes, alias, raramente as levantam – e a vida continua.
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