Este país não é para crianças
Publicado por João a 21 de Abril de 2008
Arquivado em Portugal
Foi difícil comprar bilhetes para um dos Concertos para a Família dos Dias da Música em Belém, no CCB. Na sexta-feira, a novíssima bilheteira online funcionava aos soluços, o número de telefone das informações não estava atribuído (vim depois a saber que em vez de 212… é 213…, embora ninguém tenha corrigido o erro durante os três dias que durou o programa). Acabei por ir a Belém: somos três, dois adultos e uma criança de 22 meses. O quê!?, uma criança de 22 meses paga bilhete? Sim, toda a gente paga, dizem-me. Adiante.
Domingo, 30 minutos antes da hora marcada para o concerto, ficamos a saber que afinal crianças até aos oito anos não pagam e devolvem-nos os três euros. Menos mal. O problema, agora, é transportar um carrinho de bebé para a sala Almada Negreiros. Há algumas rampas, mas por razões misteriosas nem todas as escadas as têm. O teletransporte ainda não é uma realidade e carregá-los é connosco (há competências que se adquirem excusivamente com a paternidade). Está quase.
Ops!, “não são permitidos carrinhos de bebé nesta sala, é favor voltar para trás (escadas-sem-rampa) e deixá-lo no bengaleiro”. No way, minha senhora; as famílias, sabe, fazem-se transportar com estes objectos, portanto, se não se importa, o carrinho fica aqui mesmo (ao meu lado, a um outro pai é dito que sim, que são permitidos carrinhos de bebé na sala - as arbitrariedades do costume).
Finalmente, estamos na sala. É-nos pedido para irmos para as últimas filas. Somos uma família, este é um dos vários Concertos para a Família que constam no programa, mas as filas da frente são para quem não tem crianças. Cinco minutos depois do trio nova-iorquino de jazz ter iniciado a performance, não há criança que resista ao fascínio pelo contrabaixo e a frente de palco é okupada. Ouvem atentamente, até que uma ou outra chama pela mãe ou pede uma bolacha. Shiu, shiu!, ouve-se vindo da secção dos pseudo-puristas. Sai a primeira da sala, sai a segunda, é um incómodo ser criança.
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é mesmo muito difícil. Aqui fica o mail (ainda sem resposta) que mandei para a Casa da Música há duas semanas:
“Incompreensívelmente não é possível comprar bilhetes para o serviço educativo online. Incompreensívelmente os bilhetes ora não estão ainda à venda ora estão esgotados. Incompreensivelmente não consigo saber qual a data em que são postos à venda. Incompreensivelmente, e depois de muitos esforços falhados, a minha filha mais velha fará cinco anos antes de ter conseguido assistir a qualquer concerto para bebés. Compreensivelmente vou desistir de tentar e tão cedo a miha filha mais nova também não assistirá a concertos na Casa da Música. Tenho pena.”