Spare change?
Publicado por João a 25 de Março de 2008
Arquivado em Economia, Estados Unidos, Política
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A História diz-nos que Martin Luther King lutou arduamente pelos direitos civis, luta essa que motivou a aprovação pelo Congresso norte-americano do “Civil Rights Act” de 1964. Quatro anos depois, foi assassinado. O que é raramente referido, e a memória colectiva não reteve, é o que MLK fez entre 1965 e 1968.
Pouco meses antes de assassinado em Memphis, King e a Southern Christian Leadership Conference organizaram a Poor People’s Campaign que teve o seu momento mais visível numa marcha em Washington, D.C.. Durante a campanha, foi exigida mais justiça económica para as comunidades pobres dos Estados Unidos. MLK sabia que as recentes leis anti-discriminação significavam muito pouco para aqueles que nada tinham. O objectivo primeiro da campanha era a aprovação pelo Congresso da “Poor People’s Bill of Rights”, o que nunca veio a acontecer.
No final dos anos 60, a pobreza nos Estados Unidos atingia muitos afro-americanos, mas também as comunidades rurais caucasianas dos Apalaches (Georgia, Carolinas, Virgínias), as comunidades emergentes de hispânicos ao longo dos estados-fronteira (Sul da Califórnia, Arizona, Novo México, Texas) e a maioria dos indío-americanos.
Há alguns dias, Barack Obama fez um discurso sobre a “racial divide”. Muitos viram neste discurso uma personificação de MLK, louvando a coragem do acto. De repente, estávamos em 1965 e era como se nada tivesse acontecido nos Estados Unidos nos últimos 40 anos. Obama é um orador estupendo: é cativante, apelativo, energético. E o tema da “racial divide” é apaixonante. Mas é o tema errado para o actual contexto. E por isso, não posso deixar de ver neste discurso uma justificação sofisticada para a sua associação ao Reverendo Wright.
Do que Obama podia ter falado de forma mais clara é da “economical divide”. Daquilo que motivou MLK nos últimos três anos de vida, Robert Kennedy nas primárias Democratas de 1968 e John Edwards nos últimos dois anos. A discriminação económica é uma realidade nos EUA. Atinge principalmente afro-americanos, hispânicos e indío-americanos, mas também asiáticos e caucasianos. Reduzir os conflitos sociais nos EUA às diferenças étnicas é ficar um passo aquém do necessário. Como em 1968.
Comentários
6 Comentários ao artigo “Spare change?”
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João,
Acho que o discurso - notável, sobretudo pela coragem em dizer o que disse - do Obama na semana passada se deveu às declarações do reverendo Wright que vieram a público, e o facto de este ter colocado a raça na agenda de uma forma que o Obama nunca quis fazer até aqui. Parece-me que se falou de ‘racial divide’ era porque não o podia evitar - ficar calado era impossível. E fê-lo com uma coragem incrível na política americana. Aquilo não foi apenas mais um discurso estimulante e encantador. Foi talvez o mais delicado momento da carreira política de Obama, e não vejo mais ninguem capaz de dizer o que ele dizer com a frontalidade e clareza com que o fez.
De qualquer forma, e apesar de concordar contigo que a candidatura de Obama não deve explorar a ‘racial divide’ - aliás, toda a sua campanha tem sido contruída contra esta questão -, não acho que possamos colocar ao mesmo nível, do ponto de vista político e social, as desigualdades económicas dos afro-americanos com as dos latinos ou dos asiáticos. Se hoje as diferenças entre estes grupos não são muito amplas, conta extraordinariamente a memória e o fardo da história. Todo o Estado social norte-americano foi construído assente nesta falha entre brancos e afro-americanos - e se ele é hoje menos generoso que os sistemas europeus é precisamente por causa disso.
Concordo contigo - e penso que a candidatura do Obama é o subscreve por completo esta visão - quando afirmas que «reduzir os conflitos sociais nos EUA às diferenças étnicas». Quanto mais não seja por estratégia política, seja para ganhar estas eleições, seja para construir alianças mais vastas que sejam duráveis a médio/longo prazo. E porém…a escravatura e todas as discriminações que começaram a ser combatidas a sério nos anos 60 afectaram os afro-americanos, não os outros ‘non-whites’. Isso não ‘faz’ uma estratégia política, claro, mas ‘faz’ uma justa análise histórica da injustiça (que legitima por vezes uma atitude de ódio e vingança) que latinos e asiáticos não têm a mesma razão para sentir quando comparamos a sua experiência com a dos afro-americanos ao longo da história.
Dito isto, acho que nada do que o Obama disse compromete o programa que ele (ou qualquer candidato Democrata) deve assumir como central, que é fornecer mais protecções às famílias e indivíduos das classes médias e trabalhadoras, independentemente da cor da pele.
Bom regresso e um abraço,
Hugo
Não me parece que o discurso do Obama dê uma explicação racial para a pobreza. Analisa essa questão, que é parte integrante da questão da pobreza. E fá-lo por causa do escândalo, é certo. Mas o que me parece mais importante no discurso é expor as causas das desconfianças mútuas. Falar abertamente é essencial para permitir aos pobres serem agentes das políticas de combate à pobreza. Nos últimos tempos tenho tido algum contacto com população de bairros socias complicados. Garanto-te que precisávamos de um discurso destes adaptado à nossa realidade. Temos, na pobreza e limiar da pobreza, trabalhadores com salários insultuosos e beneficiários de rendimento social de inserção que se olham mutuamente com desconfiança. E temos também tensões raciais, ainda que diferentes e com outras causas - e igualmente a precisarem de que se fale delas de forma séria. Pior ainda, temos técnicos no terreno que olham os pobres com desconfiança. E temos paternalismo a mais.
O discurso do Obama tem ainda um outro mérito muito importante: percebe-se. Não exige determinada escolaridade ou vida intelectual dos interlocutores. Sem ser simplista é simples. As elites portuguesas adoram ser crípticas para a maior parte da população. Mais importante do que discutir uma ideia é mostrar que se tem eventualmente uma grande ideia. De preferência escondida numa frase do tamanho de um parágrafo, cheio de referências a outros e ao próprio, com uma construção e um vocabulário dignos da melhor literatura do século XIX. Não há pachorra.
Hugo e Catarina,
Este é um assunto certamente muito delicado. Eu não quero reduzir a importância do conteúdo do discurso de Obama. Apenas lembrar que foi motivado por uma necessidade de evitar danos à campanha. O discurso tem referências à “economical divide”, mas aparecem dissolvidas. É pena.
Aquilo que quero sublinhar está bem ilustrado no gráfico. A pobreza é uma condicionante muito forte à mobilidade social. O assunto é complexo, mas o nível de pobreza entre os vários grupos é uma medida razoável de justiça social.
Nos anos 60, a discriminação racial contribuía fortemente para a pobreza entre os afro-americanos. O “Civil Rights Act”, conjugado com um ambiente económico favorável, contribuiu para que muitos afro-americanos saissem do estado de pobreza.
A partir dos anos 70, o nível de pobreza entre os afro-americanos evoluiu como os dos outros grupos: constante até o início dos anos 90, excepto durante alguns anos da administração Reagan onde o ambiente económico não foi favorável para ninguém.
Nos anos 90, com Clinton, o ambiente económico favorável fez reduzir consideravelmente o gap entre os afro-americanos e hispânicos, por um lado, e os caucasianos, por outro.
É verdade que ainda é duas vezes mais provável um hispânico ou afro-americano ser pobre do que um caucasiano. Por razões diferentes, claro. Os segundos, porque há um património histórico de discriminação e pobreza; os primeiros, porque são uma minoria essencialmente desqualificada.
Actualmente, o grande factor de injustiça é económica. Ainda há histórias soltas de discriminação racial, mas os últimos 40 anos transformaram, de uma forma sem paralelo na história, o panorama social e económico dos afro-americanos. Obama podia ter começado o seu discurso aqui, se não estivesse tão refém da doutrina do Reverendo Wright.
João,
Se olharmos para o gráfico, a pobreza atinge perto de 8% dos “white nonlatino” e 20 e qualquer coisa % dos “afro-american”. A relação está próxima, portanto, dos 3 para 1.
Não acho que possamos falar “apenas” de discriminação económica - e somá-las a algumas “histórias soltas” de discriminação racial. E podíamos olhar para os números dos encarcerados (actuais ou no passado) para ver a enorme percentagem de afro-americanos. Ou para as condições de vida nas “inner cities”, que determinam fortemente as condições de educação, e por conseguinte de mobilidade futura. Este gráfico só capta uma parte das diferenças entre grupos (por exemplo, os afro-americanos estão mais vulneráveis a situações de pobreza do que os latinos porque a percentagem de “single mothers” é muito mais alta).
E há outra questão ainda: a forma como a pobreza é medida nos EUA (em função de um nível absoluto) é diferente da forma como é medida na Europa (definida de forma relativa). A relação entre a percentagem de pobres calculada segundo um e outro método costuma ser da ordem dos 1.8 (ou um pouco mais). Se este número for válido para a pobreza dos afro-americanos, então teríamos de concluir que um pouco mais de 40% dos afro-americanos (e nao apenas 20 e pouco %) vive em condições de pobreza, quando os “white nonlatino” não passariam, estimo, dos 15%. Não só não me parece que histórias soltas sejam suficientes para explicar semelhante diferença, como o facto de não se medir a pobreza de forma relativa nos diz muito pouco (ou nada) sobre as desigualdades entre grupos, que podem ter mesmo aumentado ao mesmo tempo que muitos afro-americanos ultrapassavam o limiar absoluto que define a pobreza nos EUA [e que, aliás, é totalmente inadequado hoje, dado o aumento do custos familiares na educação, na saúde e na habitação quando comparados com os que existiam no início dos anos 60 (quando o limiar foi fixado, baseado sobretudo nas despesas com alimentação), quando ocupavam uma fatia menor no orçamento familiar, por um lado, e na determinação das oportunidades de vida, por outro].
Dito isto, repito: não acho que isto - o “racial divide” - deva ser um tema de campanha. Mas uma coisa é fazer uma campanha sabendo que ela continua a existir, outra coisa é fazê-la achando que isso é um assunto ultrapassado. Ou, para citar as suas palavras - retomo aqui a tradução que Catarina gentilmente fez no seu blog -, «para a comunidade afro-americana, este caminho significa reconhecer o fardo do nosso passado sem nos tornarmos vítimas do nosso passado». E saber fazer as alianças certas com todos os desprivilegiados: «Significa continuar a insistir numa justiça plena em todos os aspectos da vida americana. Mas também significa aliar as nossa exigências particulares – de melhores cuidados de saúde, melhores escolas e melhores empregos – às aspirações mais vastas de todos os americanos – as mulheres brancas que lutam para quebrar o tecto de vidro, os homens brancos que foram despedidos, os imigrantes que tentam alimentar a as suas famílias.» Isto nao é, parece-me, acentuar a “racial divide”.
P.S. - Não acho que possas dizer que Obama seja “refém” do discurso de Wright. Obama foi muito claro na rejeição do tipo de afirmações do reverendo. Wright - e as desigualdades baseadas na ‘racial divide’ - nunca seria evocado na campanha esta situação não tivesse ‘explodido’ nas mãos da campanha de Obama.
abraço,
Hugo
Hugo,
Percebeste mal. O que escrevi, foi:
“É verdade que ainda é duas [ou 2.5] vezes mais provável um hispânico ou afro-americano ser pobre do que um caucasiano. Por razões diferentes, claro. Os segundos, porque há um património histórico de discriminação e pobreza; os primeiros, porque são uma minoria essencialmente desqualificada.”
Acho que é evidente que reconheço que o património histórico da discriminação racial contribui para a diferença entre as taxas de incidência de pobreza. Mas também é verdade que houve uma evolução muito grande nos últimos 40 anos, poucas vezes reconhecida nos discursos de pessoas como o Reverendo Wright que Obama ouviu durante 20 anos sem nunca questionar. Até há uma semana.
Sobre metodologias, pouco podemos fazer aqui. É um assunto relevante mas não cabe aqui porque não me considero expert. Não sei se conheces, mas aqui está muito do que há a saber sobre pobreza nos EUA.
Depois falamos melhor.
Um abraço
João,
Não vale a pena insistir muito, mas, de novo, Obama não questionou apenas a postura de Wright apenas há uma semana, e é particularmente injusto, acho, prosseguir com esta intepretação, que acaba, deliberadamente ou não, por acusá-lo de oportunismo. Se há uma marca na sua campanha/discurso - e que aliás muito incomoda outros líderes afro-americanos - é a sua postura “pós-racial”, e isso é bem patente nos livros que escreveu, em particular o último, “A Audácia da Esperança”.
abraço