Obama liberal ou conservador?

Por João Jesus Caetano | Arquivado em Estados Unidos, Política 
16 Abril, 2008, 10:37 |

O Nuno Gouveia tem feito um acompanhamento notável das eleições norte-americanas. Foi através do seu blogue e dos comentários a alguns dos posts aí escritos que tive conhecimento da mais recente polémica da campanha.

Num discurso em San Francisco vedado à comunicação social e perante multi-milionários norte-americanos, Barack Obama terá afirmado, referindo-se à dificuldade da sua campanha em fazer chegar a mensagem política à classe operária da Pennsylvania:

«You go into these small towns in Pennsylvania and, like a lot of small towns in the Midwest, the jobs have been gone now for 25 years and nothing’s replaced them. […] And they fell through the Clinton administration and the Bush administration, and each successive administration has said that somehow these communities are gonna regenerate, and they have not. […] And it’s not surprising then they get bitter, they cling to guns or religion or antipathy to people who aren’t like them or anti-immigrant sentiment or anti-trade sentiment as a way to explain their frustrations».

Muitos interpretam estas palavras como um sinal claro que Barack Obama é um liberal. Afinal, a dificuldade que este diz sentir é aquela que o partido Democrata tem várias vezes enfrentado: embora o discurso político dos Democratas - e a sua prática (mais sobre isto aqui e aqui) - seja no sentido de promover o bem estar e a segurança económica da classe média, esta é mais solidária com a plataforma política do partido Republicano. Um exemplo pessoal, meramente ilustrativo: em 2004, os pais de um colega meu diziam-me que embora não se sentissem confortáveis com muitas das políticas da administração Bush não poderiam votar num partido que defende o aborto.

Voltando às palavras de Obama. Dois apontamentos. Primeiro, é de estranhar a ausência de referências a Ronald Reagan - ou melhor, ela está lá, mas disfarçada («for 25 years»). Afinal, a “revolução Republicana” foi iniciada por Reagan e o panorma político actual ainda é um seu reflexo. Mais: as políticas económicas dos anos 80 tiveram um impacto negativo na classe média que só foi mimimizado pela singularidade dos anos 90. Em segundo lugar, Barack Obama não é um liberal, longe disso (o discurso foi feito perante liberais multi-milionários de San Francisco, que são uma espécie de eleitores muito peculiares). Ao longo da sua carreira enquanto Senador em Washington, Obama teve um registo de voto dos mais conservadores entre os Democratas. Parece contra-intuitivo, de facto, tantas foram as vezes que ouvimos dizer “Obama é liberal”, mas leia-se este texto e atente-se na tabela aí apresentada.

Comentários

3 Comentários ao artigo “Obama liberal ou conservador?”

  1. Miguel Madeira a 17 de Abril de 2008 12:39

    “Obama teve um registo de voto dos mais conservadores entre os Democratas.”

    não sei se poderemos dizer isso - o “liberalismo” que está em causa nesta polémica é o liberalismo em questões sociais, não o “liberalismo” em questões económico (i.e. aquilo que no resto do mundo é considerado “não-liberalismo” em questões económicas).

    Ora, Obama tem rácios altos da ACLU e da NARAL (os grupos que me parecem melhor representar o liberalismo em questões sociais).

    Onde Obama tem piores resultados parece-me ser nos grupos mais virados para preocupações económicas.

  2. Miguel Madeira a 17 de Abril de 2008 12:46

    eu em tempos escrevi algo sobre o assunto (num dos parágrafos uso a expressão “liberal”, mas é no sentido europeu).

    http://ventosueste.blogspot.com/2008/02/hillary-e-obama.html

  3. João Jesus Caetano a 17 de Abril de 2008 14:20

    Miguel:

    Percebo os seus comentários e agora reparo que deveria ter sido mais cuidadoso com os termos utilizados. Acontece que nos EUA, quando se fala de “liberal” e “conservative”, raramente se faz distinção entre políticas económicas e/ou sociais.

    Em todo o caso, aquilo que eu queria contrariar é a ideia repetida à exustão que Barack Obama é um dos mais liberais - no sentido americano do termo - senadores norte-americanos. Não o é, longe disso.

    Sobre as diferenças entre Hillary e Obama que o Miguel refere no seu post, lembro-me de o ter lido na altura e de ter pensado que as poucas diferenças resultam do excesso de polarização que a política norte-americana sofreu nos últimos sete anos (alguns dias antes, tinha referido isso mesmo aqui).

    De certa forma, essa polarização condenou à morte a diversidade de ideias no seio do partido Democrata. Qualquer candidato que se apresentasse a sufrágio com uma plataforma muito diferente da de Obama, Clinton ou Edwards estaria condenado ao fracasso.

    Talvez por saber isso, Russ Feingold - o mais progressista dos senadores - decidiu não se candidatar embora tivesse uma base de apoio considerável, mas não suficiente. Feingold foi dos únicos senadores a votar contra a invasão do Iraque e contra o Patriot Act. É certo que Obama não era senador na altura, mas dificilmente teria feito o mesmo.

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