Ainda John Edwards

Por João Jesus Caetano | Arquivado em Estados Unidos, Política 
1 Fevereiro, 2008, 23:01 |

A história de John Edwards na política é relativamente curta. Em 1998, depois de uma carreira muito bem sucedida como advogado e sem antes ter ocupado qualquer cargo público, candidata-se ao senado e derrota a incubente republicana da Carolina do Norte. Dois anos depois, no rescaldo da vitória de Al Gore nas primárias democratas, o seu nome surge surpreendentemente na shortlist de candidatos a vice-presidente. O escolhido acaba por ser o senador Joe Lieberman e Edwards mantém-se mais quatro anos no senado.

Entre 1998 e 2004, enquanto senador, teve um registo de voto pouco recomendável em algumas matérias: apoiou o Patriot Act e autorizou o uso de força no Iraque. Mas alguns detalhes mostravam outro tipo de preocupações: os seus eram os únicos filhos de senadores a frequentar escolas públicas; promoveu algumas propostas legislativas que garantiam mais direitos para trabalhadores vítimas de acidentes de trabalho e para crianças vítimas de erros médicos; e apelava para um maior apoio federal e estadual a estudantes universitários carenciados. No entanto, a discussão política nos Estados Unidos estava refém de Karl Rove e Rush Limbaugh. A segurança, sempre a segurança, e os valores morais eram os temas dominantes.

Em 2004, candidata-se às primárias democratas, perde para John Kerry mas é escolhido como seu running mate: sulista, oriundo de famílias humildes e uma estrela em ascenção em Washington, John Edwards poderia ajudar a reconquistar aqueles estados perdidos desde JFK. A forma cordial e pouco energética como confrontou Dick Cheney no único debate vice-presidencial de 2004 mostrou algum receio em promover a fractura que a esquerda americana ambicionava. É neste patamar político que se retira para Chapel Hill, na Carolina do Norte, depois de perder as eleições de Novembro.

Aí, promove a criação do Center on Poverty, Work and Opportunity, do qual é o primeiro director. Os três anos seguintes são passados entre a serenidade de uma cidade universitária com 60 mil habitantes, e os estados do Iowa e do New Hampshire, numa indicação clara que seria novamanete candidato às primárias. É neste contexto que nasce a plataforma política sobre a qual viria a fazer a campanha que terminou há dois dias. O palco para o anúncio do início e do fim da candidatura foi o mesmo: a cidade esquecida de New Orleans. A sua plataforma política era a mais sólida que um candidato democrata apresentou em muitos anos. Neste artigo do New York Times, Paul Krugman escreve: “Mr. Edwards, far more than is usual in modern politics, ran a campaign based on ideas”. Cuidados de saúde, imigração, tratados económicos, aquecimento global, são alguns exemplos de temas para os quais a campanha de Edwards apresentou planos de acção muito antes dos outros.

Mas as coisas não correram como se desejava. Aqueles que mais poderiam beneficiar das suas políticas sociais - os 37 milhões de americanos que vivem abaixo do limiar de pobreza - não pareciam apoiá-lo. A maioria, aliás, não participa em actos eleitorais e os que foram atraídos aproximaram-se mais de Barack Obama. Cruel. Dos três candidatos, Obama era o que tinha as mais fracas políticas de apoio social. A demografia, mais do que a economia, pode ser a explicação politicamente incorrecta. Na Carolina do Sul, John Edwards conseguiu o maior número de votos dos eleitores republicanos (as primárias nesse estado são abertas) e também dos que defendem a permanência das tropas no Iraque. Pior: há três dias, as sondagens previam péssimos resultados nos estados mais liberais e melhores resultados nos estados mais conservadores. Para além de alguns intelectuais e professores universitários, a esquerda americana não estava com Edwards. Ou, pelo menos, estava menos do que seria de esperar. E a classe média sufocada pela administração Bush parecia escolher pouco em função da solidez das propostas. Os jovens, outro dos alvos da plataforma de Edwards, andavam fascinados com Barack Obama.

Por razões ainda pouco clarificadas, John Edwards desiste da campanha. Era nítido que dificilmente seria o escolhido, mas perante o cenário provável de nem Clinton nem Obama conseguirem a maioria dos delegados, Edwards poderia desempenhar um papel importante na conveção. Só que contra a expectativa de muitos, acabou por sair. E fê-lo, sem declarar o apoio a nenhum dos outros candidatos. De repente, 15% do eleitorado estava up for grabs.

Ontem, em Los Angeles, no mesmo palco da cerimónia dos óscares, Hillary e Obama, com sorrisos e pronúncias mais agradáveis para uma audiência tão distinta, falam da herança de John e Elizabeth Edwards. Quase à mesma hora, John e a filha Cate assistem a um jogo de basketball no Dean Smith Center, o pavilhão desportivo da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. O combate à pobreza tinha-se tornado uma causa política do partido democrata.

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