Expresso: o estado da Nação

Posted on July 4, 2008 
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A menos de uma semana do debate sobre o estado da Nação, a edição de amanhã do Expresso analisa as principais áreas da governação socialista nos últimos três anos. E sob a ameaça da crise económica internacional, lá se vai afirmando que 2009 será pior que 2008.

Mas há um exercício mais complexo, e obrigatório, neste tipo de análises: terá a governação de Sócrates permitido a redução do impacto da crise internacional na economia e no bem estar das famílias portuguesas, relativamente àquilo que seria hoje a realidade se o PSD de Santana Lopes estivesse no governo?

A resposta é importante, porque a escolha nas eleiçõs de 2005 não era entre um número infinito de universos possíveis.

[Escrito no contexto de uma colaboração com o Expresso, que me permite comentar antecipadamente alguns dos temas da edição em papel do jornal]

E os adultos?

Posted on July 2, 2008 
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Excerto da entrevista a James P. Evans, professor de genética na University of North Carolina em Chapel Hill, publicada no último suplemento de ciência do New York Times — aos fins de semana, o professor Evans ensina genética aos juízes norte-americanos, integrado no programa Advanced Science and Technology Adjudication:

«[Q.] Why do Judges need to know their genetics?

[A.] Because they are frequently trying cases that hinge on genetics. And many don’t know what DNA is. They may have a rough idea. But they don’t understand the fine points. (…) Many of the judges say that they fear their lack of scientific knowledge could cause them to make mistakes

Nos últimos dias, tem-se debatido muito, aqui e noutros sítios, sobre os índices de literacia científica dos estudantes de 15 anos.

Mas o que podemos nós dizer sobre as actuais gerações de líderes? Em Portugal, qual é o nível de literacia científica dos juízes, dos deputados, dos governantes ou dos jornalistas, por exemplo? Estas são pessoas que, nas suas actividades profissionais, têm que decidir ou comentar sobre assuntos, muitos deles envolvendo conceitos científicos recentemente desenvolvidos. Estarão elas preparadas para lidar com este tipo de informação? Assumem as suas limitações? Pedem ajuda a alguém? A quem?

Literacia científica em Portugal (5)

Posted on July 1, 2008 
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De facto, esta nota é sobre literacia matemática aferida em 2003. No seu post mais recente, o Hugo ilustra a problemática desta discussão de forma muito clara:

«Comparemos um aluno português com um aluno norueguês no 5.º percentil, com scores médios de 329 e 328, respectivamente. Com este score, o aluno português frequenta com toda a probabilidade o 7.ºano de escolaridade, enquanto o norueguês (…) está no 10.º ano. O aluno português, apesar de ter um score superior ao do seu colega norueguês, corre um risco sério de não chegar ao fim da escolaridade obrigatória, porque já foi retido 3 vezes. O aluno norueguês revela dificuldades de aprendizagem, sim, mas já terminou a escolaridade obrigatória, e está provavelmente inscrito numa via profissionalizante do ensino secundário, que o equipa com uma qualificação importante para o mercado de trabalho. Este é um horizonte muito mais difuso para o português – ainda faltam 5 anos de uma experiência escolar até aqui marcada pelo insucesso constante.

Apetece dizer que, para valores idênticos/semelhantes, o sistema português tem uma preferência para a retenção – enquanto os outros países têm uma preferência para deixar o aluno seguir. Qual é aqui, afinal de contas, o sistema ‘facilitista’?»

Leituras complementares: Literacia científica em Portugal (1); Literacia científica em Portugal (2); Literacia científica em Portugal (3); Literacia científica em Portugal (4)

Literacia científica em Portugal (4)

Posted on July 1, 2008 
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O Luís Pedro tem razão quando afirma que os indicadores usados nos posts desta série (ver leituras complementares) não servem para aferir a excelência dos estudantes portugueses, quando comparados com outros. A afirmação «o sistema português produz estudantes ao nível dos melhores do mundo» é, portanto, imprecisa. Mas a segunda parte da mesma, «o problema persistente — e ímpar — é a incapacidade do sistema em responder às necessidades dos menos capazes», mantem-se factual. Sobre isto, o Hugo Mendes escreveu dois posts (I e II) onde clarifica a sua interpretação, posts esses que são de leitura obrigatória para quem tem seguido este debate [na falta de tempo, escolha-se o último].

Para que fique também claro, e sobre literacia científica aferida em 2006, Portugal não consegue melhor do que 3% dos estudantes no nível 5 e uma percentagem resídual no nível 6. A Finlândia, a mais bem classificada, tem 17% de estudantes no nível 5 e 4% no nível 6. A média da OCDE é 8% e 1%, respectivamente. [só tive conhecimento destes dados agora, através deste relatório]

Não é demais referir que a problemática da desigualdade entre os estudantes portugueses — sustentada por elevadas taxas de retenção — é real. Além disso, a performance dos estudantes portugueses no “ano modal” é muito diferente da média global (é, aliás, o maior gap na OCDE), pelo que os índices globais de literacia em Portugal escondem realidades que convém serem debatidas.

Leituras complementares: Literacia científica em Portugal (1); Literacia científica em Portugal (2); Literacia científica em Portugal (3); Literacia científica em Portugal (5)

Blogosfera e biosfera

Posted on June 30, 2008 
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Hoje de manhã, o Expresso online pediu-me para escrever sobre a decisão recente de um tribunal em suspender o acesso a um blogue português. Podem ler o texto aqui.

Road Trip

Posted on June 27, 2008 
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«7 Day trip from Los Angeles to New York City compressed into 4 minutes», via VideosAver.

Expresso: política no feminino

Posted on June 27, 2008 
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Na edicao de amanha, e sobre a eleicao de Manuela Ferreira Leite como Presidente do PSD, o Expresso questiona: «as mulheres fazem politica de maneira diferente dos homens?».

A pergunta conduz-me para o que se passou nas primarias norte-americanas. Muito se falou no juizo dos eleitores sobre o facto de Barack Obama ser afro-americano. Mas nunca ninguem questionou se, sendo afro-americano, iria fazer politica de forma diferente dos caucasianos. Ja sobre Hillary Clinton, as coisas nao foram assim: sendo mulher, esperava-se que fizesse politica de outra forma. Por exemplo, numa ocasiao de campanha chorou, o que foi comentado como sinal de fraqueza, coisa que nenhum homem revelaria.

Ora, mesmo que Manuela Ferreira Leite faca politica de forma diferente de Luis Filipe Menezes, nao e certamente por ser mulher. E os dois, mesmo sendo diferentes, farao politica de forma mais parecida entre si do que com a forma de o fazer de Avelino Ferreira Torres, um alpha-male pouco sofisticado.

Este tipo de prejudice que a pergunta do Expresso transporta — e que esteve presente nas primarias norte-americanas — e absurdo.

[Escrito no contexto de uma colaboracao com o Expresso, que me permite comentar antecipadamente alguns dos temas da edicao em papel do jornal]

Literacia científica em Portugal (3)

Posted on June 25, 2008 
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[As figuras aqui apresentadas sao da minha responsabilidade e representam dados estatisticos do PISA 2006 gentilmente cedidos pelo sociologo Hugo Mendes.]

Nos posts anteriores, ilustrei que Portugal e o pais onde a diferenca na literacia cientifica entre os estudantes que frequentam o “ano modal” (10? ano) e os que se encontram noutros patamares e a mais acentuada dos 32 paises analisados.

Mas ha algo ainda mais singular: 20% dos estudantes portugueses com 15 anos de idade frequentam o 7? ou 8? ano de escolaridade, isto e, estao atrasados tres e dois anos no percurso educativo relativamante a maioria dos seus pares. Nenhum outro pais tem tantos estudantes tao atrasados.

O impacto desta “retencao” nos resultados da literacia cientifica esta representado na figura em cima (clicar para abrir numa nova janela). Portugal destaca-se de todos os outros porque e, ao mesmo tempo, aquele com a percentagem mais elevada de alunos muito atrasados no percurso educativo, e aquele onde a diferenca no indice de literacia cientifica entre os que frequentam o “ano modal” e os outros e a mais acentuada.

Ou seja, e repetindo o que tenho afirmado nos ultimos dias: O sistema de ensino portugues produz muito bons alunos e muito maus alunos, nao respondendo eficazmente as necessidades dos ultimos.

Num pais onde se tem debatido exaustivamente as problematicas da desigualdade, e de estranhar que a maioria das pessoas se deixe encantar pelo discurso do “facilitismo” e se esqueca que o nosso sistema de ensino, ao ser excessivamente selectivo, esta a induzir desigualdades no acesso ao conhecimento que se manifestarao, mais cedo ou mais tarde, de todas as outras formas possiveis.

Leituras complementares: Literacia cientifica em Portugal (1); Literacia cientifica em Portugal (2); Literacia cientifica em Portugal (4); Literacia cientifica em Portugal (5)

Literacia científica em Portugal (2)

Posted on June 25, 2008 
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[As figuras aqui apresentadas sao da minha responsabilidade e representam dados estatisticos do PISA 2006 gentilmente cedidos pelo sociologo Hugo Mendes.]

Segundo o PISA 2006, Portugal ocupa a 29? posicao no ranking de literacia cientifica de alunos com 15 anos, ranking esse liderado pela Finlandia com 563 pontos. Com melhores indices de literacia que Portugal (474), estao, entre outros, a Estonia (531), a Eslovenia (519), a Hungria (504), a Polonia (498), a Letonia (490) e a Lituania (488). Este nao e, certamente, um cenario simpatico para Portugal.

Mas sera possivel identificar algum indicador que ajude a explicar este resultado?

Como ja escrevi, este indice mede a literacia cientifica de alunos com 15 anos. E este e o primeiro dado importante: alunos com 15 anos, independentemente do ano de escolaridade que frequentam. Em Portugal, a maioria destes alunos frequenta o 10? ano de escolaridade, mas ha muitos que frequentam o 9?, o 8? ou o 7? ano; ha ainda um numero muito residual que frequenta o 11? ano.

Para cada um dos paises do estudo, o patamar onde a maior parte dos alunos esta e chamado “ano modal”.

Na figura em cima (clicar para abrir numa nova janela), esta representada a diferenca entre o “indice global de literacia” e o “indice modal de literacia” de cada pais, em funcao da percentagem de alunos que frequenta o “ano modal”. Por “indice modal de literacia” entende-se o resultado obtido pelos alunos com 15 anos que frequentam o “ano modal”.

Em muitos paises, a esmagadora maioria dos estudantes frequenta o “ano modal”. Quer isso dizer que a diferenca entre o “indice global de literacia” e o “indice modal de literacia” e praticamente nulo — isso e representado pelo aglomerado de pontos no topo da imagem.

Depois, ha paises em que cerca de 50% dos estudantes estao no “ano modal”. Mas entre estes, ha os que tem uma diferenca negativa entre os indices, caso do Luxemburgo (-27), e os que tem uma diferenca positiva, caso de Portugal (+54).

No caso do Luxemburgo, e dos outros com diferencas negativas, uma parte consideravel dos alunos que nao frequentam o “ano modal” frequentam patamares mais avancados, dai que o indice modal seja inferior ao global. No caso de Portugal, e precisamente o oposto: a quase totalidade dos alunos que nao estao no “ano modal” frequentam patamares mais atrasados e os seus resultados, obviamente piores, tem um impacto negativo no indice global.

Este e o primeiro indicador que em Portugal existe uma enorme diferenca entre bons e maus alunos. De facto, nao ha outro pais onde a diferenca seja superior. Mas e possivel refinar ainda mais esta analise (ver post seguinte).

Leituras complementares: Literacia cientifica em Portugal (1); Literacia cientifica em Portugal (3); Literacia cientifica em Portugal (4); Literacia cientifica em Portugal (5)

Literacia científica em Portugal (1)

Posted on June 25, 2008 
Filed Under Educação | 1 Comment

E recorrente: quando se fala sobre Ensino, fala-se sobre experiencias pessoais, sobre os niveis de exigencia do passado, sobre o “facilitismo” do sistema. Isto nao e novo. O que a discussao recente acrescentou e o ataque as estatisticas.

Pela estrutura de discussoes anteriores, este ataque nao se estranha. Afinal, as estatisticas confrontam a realidade com aquilo que durante varios anos achavamos que a realidade era. Tentem imaginar as sinapses em confronto: nao e certamente um cenario bonito. Felizmente, nenhuma das pessoas que minimiza a importancia das estatisticas e Ministra ou Ministro da Educacao.

E o que nos podem dizer as estatisticas? Motivado pelos comentarios ao meu post anterior, pedi ao sociologo Hugo Mendes alguns dados do PISA 2006 sobre literacia cientifica, que amavelmente me cedeu.

Nos dois posts que se seguem, vou tentar ilustrar uma tese que defendi anteriormente: O sistema de ensino portugues produz alunos que estao ao nivel dos melhores do mundo (ver comentario aqui); o problema persistente — e impar — e a incapacidade do sistema em responder as necessidades dos menos capazes.

Leituras complementares: Literacia cientifica em Portugal (2); Literacia cientifica em Portugal (3); Literacia cientifica em Portugal (4); Literacia cientifica em Portugal (5)

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