Simple Minds
Por João Jesus Caetano | Arquivado em Educação
19 Junho, 2008, 12:41 |
Uma das perguntas na prova de aferição do 6º ano de matemática de 2008 tinha por base um pictograma (ver aqui) com os dados relativos ao instrumento musical que os alunos de uma escola gostariam de aprender. No pictograma, estão representados, indistintamente, rapazes e raparigas. Na prova, é perguntado quantos rapazes gostariam de aprender piano, sabendo que duas raparigas o gostariam de fazer. A resposta é dada obtendo, primeiro, e através do pictograma, o número de alunos (rapazes e raparigas) interessados em aprender piano, e, depois, subtraindo a este o número de raparigas.
Uma das perguntas na prova de aferição do 4º ano de matemática de 2007 tinha por base um pictograma (ver aqui) com os dados relativos às actividades extra-curriculares frequentadas pelos alunos de uma escola. Na prova, é perguntado quantos alunos frequentam Informática. A resposta é dada directamente através da leitura do pictograma.
Para algumas pessoas:
1. As duas perguntas são iguais e a primeira não avalia competências mais complexas do que a segunda;
2. Os exames do 4º ano de 2007 e do 6º ano de 2008 são iguais porque a resposta a uma das muitas perguntas dos exames requeria a leitura de um pictograma;
3. Sendo iguais — as perguntas e os exames — os alunos do 6º ano tiveram boa nota em 2008.
[Porque é que se insiste tanto em falar de “chumbos”, quando estamos perante provas de aferição? Das duas uma: ou há um propósito em desinformar, ou somos, em Portugal, estruturalmente incapazes de discutir sobre Avaliação.]
Comentários
8 Comentários ao artigo “Simple Minds”
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Somos incapazes, por várias razões. Uma delas é porque “defendemos” a ideia de que um sistema educativo tem mais qualidade quanto mais exames aplica e quanto maior é o número de pessoas que exclui. Produzir excelência (ou alunos excelentes) mesmo que deixemos 1/3 para trás na escolaridade obrigatória.
“Temos” um problema com a escolaridade obrigatória e universal. Com a ideia de que todos têm direito aos 9 anos de escolaridade.
E não “conseguimos” perceber que um teste ou uma prova de aferição pretende avaliar se o aluno sabe ou não o que está no currículo e nos programas. Não o que “nós” gostaríamos que estivesse nos programas, nem o que estava nos programas em 1965.
João,
Não te esqueças que mundo está cheio de pedagogos espontâneos e selvagens.
Aqueles que acusam o outro resto do mundo de ter sucumbido ao virus do “eduquês”.
Aqueles que não sabem a diferença entre ‘aferição’ e ‘avaliação’, entre ‘avaliação’ e ‘chumbo’ (como li num qualquer tablóide nesta semana: “PARA 60% [ou qualquer valor próximo, não me recordo], PROVA NÃO DÁ PARA CHUMBAR”: ora, se não dá para chumbar, para que é que se faz a prova, não é?), e entre ‘escolaridade em abstracto’ e ‘escolaridade obrigatória’.
Os resultados destas provas são públicos, e ainda bem, por uma questão de transparência. Isso já temos. O que parece faltar é um público à altura para interpretar e avaliar com mais cuidado os objectivos, os processos e os resultados obtidos. Escolher um destes elementos para emitir uma opinião e esquecer o resto não conta.
O vírus do “achismo” - promovido, entre outros, pelo director do jornal “Público” na condução da sua agenda pessoal e institucional -, é um virus bem mais grave do que o do “eduquês”.
abraço
Hugo
[…] exemplo, voltemos às duas perguntas referidas no post anterior. Sendo parecidas, avaliam competências diferentes. Uma análise mais fina dos resultados irá, por […]
[…] o João Caetano em Simple Minds I e de certa forma também em Simple Minds II refuta a crítica feita pelo Toniblair e sublinha que […]
Caríssimos, só eu é que acho estranho que com o espaço de um ano a mesma prova de aferição passe de 40% de negativos para 20%?
Isto cheira-me muito mais a mudanças conjunturais do que estruturais. Quem lança alguma luz sobre o que se pasou?
Custa-me imenso “comprar” a explicação baseada na bondade do que se fez no último ano face ao que se fez no ante-penúltimo.
E já agora alguém tem uma série cronológica com as % de negas nesta prova de aferição?
Bem hajam.
Rui,
Não são negas. São resultados não satisfatórios.
A questão está em saber o que significa “Não Satisfaz”.
Há duas formas possíveis de o definir, a “Absoluta” (1) e a “Relativa” (2).
(1) “Não Satisfaz” é uma categoria que agrega todos os resultados inferiores a uma nota pré-definida.
(2) “Não Satisfaz” é uma categoria que agrega todos os resultados que se encontram estatisticamente afastados do comportamento global.
Como o ME o fez, não sei. Só um conhecimento da distribuição de notas quantitativas te permitiria esclarecer melhor o que se passou. Mas será isso relevante? Isto é um intrumento de calibração, de melhoramento, do sistema.
O importante é que ainda há muitos alunos “Não Satisfaz”. É isso que nos deveria preocupar.
Eu sou fã da conjugação das perspectivas relativa e absoluta na análise deste tipo de resultados, seja para estudar a pobreza ou os resultados num exame/prova de aferição.
Assim acrescentaria à tua premissa um limiar qualquer, arbitrário mas fixo, permitido pela classificação atribuída a cada prova corrigida. Seria o tal limiar da “nega” caso esta prova fosse de avaliação.
Com a distribuição quantitativa em cada ano E com a contagem dos abaixo de limiar teríamos melhores condições para analisar o que se passa.
Admitir que o limiar seja definido pela perspectiva 2 parece-me muito pouco honesto, pois julgo que ninguém está à espera de tal “tecnologia” nos media e não vi referência alguma a essa hipótese.
Se os currículos não se alteraram, as provas devem ter a preocupação de aferir de igual modo (em termos de dificuldade e de programa) em todos os anos logo, a simples constatação/comparação da percentagem de frequência em cada patamar, seja o A, o B, o C ou o “não satisfaz” é relevante e particularmente significativa se registar elevadas variações como é o caso.
O estudo da distribuição dir-nos-ia adicionalmente se há mais alguma aberração em causa além da variação face aos limiares.
Enfim, em ambos os casos a variação dos 40% para os 40% no espaço de um ano é muito estranha.
Já te tinha dito que partilho de algum cepticismo sobre a variação, qualquer que seja a metodologia aplicada. No entanto, sabemos muito pouco sobre o que de facto se passou em termos quantitativos.
Convém, no entanto, não nos deixarmos contaminar pelas doses de desinformação, de que o post do Blasfémias é um exemplo evidente.
Se estas fossem provas de avaliação, partilharia do espírito inquiridor. Como não são, prefiro olhar para outros detalhes. E um deles diz-me que ainda há muitas crianças a obter resultados não satisfatórios.