Simple Minds (2)

Por João Jesus Caetano | Arquivado em Educação 
19 Junho, 2008, 14:03 |

Ainda sobre os comentários de bloggers e jornalistas aos resultados das provas de aferição do 4º e 6º anos, recentemente divulgados.

O uso sistemático da palavra “chumbo” para descrever os resultados não satisfatórios resume bem a forma adulterada como a discussão está a ser conduzida.

Aferição e avaliação são coisas distintas.  A primeira, serve essencialmente para os agentes responsáveis pela arquitectura pedagógica do sistema aferirem o conhecimento dos alunos e monitorizarem a sua progressão. E é disso que estes exames tratam.

Por exemplo, voltemos às duas perguntas referidas no post anterior. Sendo parecidas, avaliam competências diferentes. Uma análise mais fina dos resultados irá, por certo, permitir perceber se o alunos (que não são os mesmos, atenção) foram capazes de, em dois anos escolares, adquirir competências para responder a uma pergunta com um grau de complexidade superior, mas com base na mesma estrutura de informação (pictograma).

É bom que as pessoas também percebam o seguinte: os resultados dos exames de aferição estão agregados por níveis qualitativos - sublinhe-se qualitativos - de conhecimento. Objectivamente, nós, o público, sabemos pouco sobre a distribuição dos resultados quantitativos.  E nem precisamos de saber.

Aferição não é avaliação.

Comentários

9 Comentários ao artigo “Simple Minds (2)”

  1. Adufe 4.0 | Os problemas com a matemática desapareceram? - actualizado a 19 de Junho de 2008 15:42

    […] o João Caetano em Simple Minds I e de certa forma também em Simple Minds II refuta a crítica feita pelo Toniblair e sublinha que é preciso observar a semântica entre […]

  2. Tonibler a 19 de Junho de 2008 23:36

    João,

    Não é apenas uma questão gráfica, não me venhas com essa de que o boneco é igual então conclui-se que as perguntas são iguais, porque não foi isso que fiz.
    De facto, as duas perguntas não avaliam competências substancialmente diferentes. Como acontece também com a pergunta da classificação dos triângulos, que também existia na prova do 4º em 2007, não existia no 6º em 2007, mas existe no 6º em 2008. Podem envolver cálculos ligeiramente diferentes, mas as competências são as mesmas.
    Eu aceitaria todas as desculpas de que estamos perante uma aferição, se a ministra não tivesse “aferido” do enorme sucesso do seu plano pelos resultados das provas.
    Eu aceitaria todas as desculpas de que estamos perante uma aferição, se o meu filho não estivesse envolvido e não me tivesse entrado pela casa dentro a dizer que teve dois A’s e eu sem saber se isso é bom ou é mau. Mas, na cabeça dele, é excelente e, se calhar, enganado por um bando de vigaristas cuja vida é enganar miúdos de 10 anos e pagos por mim.
    Eu aceitaria todas as desculpas de que estamos perante uma aferição se o ministério não tivesse concluído que existiu uma singularidade cósmica que fez com que um agregado de umas centenas de milhares de pessoas reduzisse para metade as notas negativas num intervalo de um ano. Se encontrarem outro caso na história em que tal tenha acontecido, em qualquer domínio, por qualquer razão não catastrófica, eu admito que estes resultados não são, em si mesmo, a demonstração de uma fraude. Estatisticamente esta melhoria deve ter a mesma probabilidade de ocorrência de eu ganhar o euromilhões (que nunca joguei…)

  3. Tonibler a 19 de Junho de 2008 23:40

    Para quem não teve filhos envolvidos na fraude, se calhar não entende o que é ter que dar os parabéns a um miúdo, para quem aquela prova é uma prova (esta-se nas tintas se é avaliação ou aferição, sabe que é importante), que está naturalmente eufórico, sem saber se realmente ele sabe ou foi enganado. Por isso, peço desculpa se fui brusco.

  4. Hugo Mendes a 20 de Junho de 2008 2:50

    Caro Tonibler,

    Sem me querer intrometer nas suas funções parentais: não era melhor explicar ao seu filho a diferença entre a ‘aferição’ e a ‘avaliação’ (com 10 anos já acho que perceberá) - dado que elas cumprem objectivos diferentes em qualquer sistema de ensino moderno em que esta distinção existe: e ela existe basicamente em todos os sistemas modernos - em vez de se estar a queixar de ter sido ‘obrigado’ a ter-lhe dado parabéns? :)
    O significado fundamental dos resultados fica para quem concebe as provas, que funcionam como instrumentos de monitorização das aprendizagens dos alunos ao longo do seu percurso escolar. Não servem para classificar definitivamente nem excluir ninguém.
    O facto de a curva ter passado a ser “normal” no teste de matemática deste ano deve ser analisado com calma, e as suas conclusões retiradas com calma também, sem demagogias. Imagino que se os resultados fossem os mesmos do ano passado, nao era ‘fraude’ que se falaria, mas da miséria - mais uma vez confirmada! - do nosso ensino e dos nossos alunos. O que deixaria muitos satisfeitos, imagino.
    Felizmente, as conclusões destas provas serão retiradas por quem percebe e trabalha diariamente no assunto, à margem desta polémica, que é bastante espúrea.

    Hugo

  5. João Jesus Caetano a 20 de Junho de 2008 9:09

    Caro Tonibler,

    «Não é apenas uma questão gráfica, não me venhas com essa de que o boneco é igual então conclui-se que as perguntas são iguais, porque não foi isso que fiz.»

    Eu não escrevi que o Tonibler o fez. O link é para um post do Blasfémias, onde se pergunta, em grande destaque: «Alunos dos 2º ciclo fazem em 2008 prova igual à do 1º ciclo de 2007?»

    Em todo o caso, e ao contrário do que diz, os problemas têm graus de complexidade diferentes. A si parece-lhe que não são necessárias competências novas para responder ao problema de 2008, mas está enganado. Quem estiver interessado, leia o meu post anterior.

    Sobre o resto do seu comentário, o Hugo Mendes já disse aquilo que deveria ser dito.

  6. Tonibler a 20 de Junho de 2008 13:09

    Caro Hugo Mendes,

    Aferição ou avaliação é um objectivo de quem recebe as provas, não é de quem as faz. Para os miúdos, que com 10 anos ainda têm alguma pureza, é igual (e para quem avalia o sistema deveria ser importante que para os miúdos fosse igual). É irrelevante para mim, enquanto pai, aquilo que querem fazer com as provas. Importante é atitude que o meu filho teve perante a prova e perante os resultados que lhe apresentaram, de resto bem podem limpar o cú àquilo.

    O que fazem com a prova, preocupa-me enquanto cidadão e contribuinte que paga o circo. Se os resultados fossem os mesmos do ano passado, ou próximo disso, reflectiam sensivelmente a mesma realidade do ano passado porque não é matematicamente possível que os resultados do ano passado e deste se reportem à mesma sociedade. Logo não foi uma prova de aferição, foi um acto de propaganda pago com o dinheiro dos contribuintes e com a vida das crianças elaborado por quem retira renda de ennganar miúdos de 10 anos.

    Deixe-me acrescentar que face à impossibilidade matemática de os resultados do ano anterior e deste serem sobre a mesma sociedade, que a frase final do seu comentário não faz qualquer sentido.

  7. Tiago Caliço a 25 de Junho de 2008 12:59

    Caro João Caetano,

    Quando apresenta a dicotomia entre aferição e avaliação, fá-lo como na dicotomia ‘assessment’/'evaluation’? Quero dizer, para si aferição é sinónimo para recolha sistemática e teoricamente fundamente de dados sobre um constructo (a competência matemática, tal como ela é entendida nas orientações curriculares)? E avaliação sinónimo para tomada de decisões (aprovação/reprovação, certificação, reorientação das práticas de ensino na sala de aula, p.ex) com base nos resultados da aferição?
    Faço estas perguntas porque, na minha humilde qualidade de mestrando em avaliação de competência comunicativa em Português Língua Não Materna, deparo-me na literatura de língua inglesa com esta dicotomia e ela para mim é cristalina. Infelizmente, em português só há ‘avaliação’ e creio que boa parte da mistificação que há em torno desta discussão se prende com a confusão entre o juízo de facto (assessment/aferição) e o juizo de valor (evaluation/avaliação). E, no limite, por alguns projectarem na aferição/assessment questões de ‘engajamento ideológico’ que no fim de contas só se devem fazer sentir nos racionais que orientam a tomada de decisão. É dizer, a questão do que os testes medem é técnica, sem dúvida. A questão de saber o que se faz com esses resultados (p. ex., como tratar um criança que tem uma classificação de 45%) transcende o que é técnico. É uma questão informada pelos resultados na aferição, mas não se esgota nela.
    Não andará boa parte desta questão dos ‘nivelamentos por cima e por baixo’ a ancilar-se neste equívoco semântico?

    Melhores cumprimentos,

    Tiago Caliço

  8. João Jesus Caetano a 25 de Junho de 2008 20:05

    Caro Tiago,

    «Quando apresenta a dicotomia entre aferição e avaliação, fá-lo como na dicotomia ‘assessment’/’evaluation’?»

    É precisamente isso que entendo por aferição e avaliação.

  9. Tiago Caliço a 25 de Junho de 2008 20:30

    Fico mais descansado, já não sou o único.
    Mas parece-me que o ‘nosso’ entendimento não será generalizado. Lembro-me que as antigas orientações do ME falavam em ‘avaliação aferida’ que basicamente era uma medição do impacto dos programas, ensinos e materiais. Para além disso, na polémica desta semana o problema é a não haver o entendimento de que medir NÃO IMPLICA necessariamente uma determinada linha de acção subsequente. De qualquer forma, nas orientações actuais parece que a dicotomia formativa/sumativa parece ser mais popular, ainda que por vezes contraditória… Instrumentos? Métodos? Objectos? Padrões de ‘performance’? Cadê eles? Semânticas, semânticas…

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