Eduquês (ou um bom exemplo de discursos ideologicamente densos sobre educação)

Publicado por João a 15 de Maio de 2008 
Arquivado em Educação

Escreve Henrique Raposo, no Expresso [negritos meus]: «se a escola ensinasse realmente as crianças, toda a gente perceberia que os ‘meninos’, afinal, não são todos iguais; há uns mais inteligentes, e há aqueles que merecem chumbar

Comentários

3 Comentários ao artigo “Eduquês (ou um bom exemplo de discursos ideologicamente densos sobre educação)”

  1. João Pinto e Castro a 15 de Maio de 2008 22:09

    Mesmo assim, consegue-se perceber que há uns meninos mais estúpidos.

  2. João Jesus Caetano a 16 de Maio de 2008 9:50

    Não é preciso ensinar rigorosamente nada para perceber que há meninos mais e menos espertos.

    Só que para o Henrique Raposo, o único sistema de ensino eficaz (ele chama-lhe “ensinar realmente”) é aquele que produz uma seleção divina e marcada entre bons e maus alunos.

    Mas como é que estes apologistas do rigor definem, em termos terráqueos, “merecer chumbar”? Que sistema de aferição não divina é que eles têm ao seu dispôr? Com base em que critérios? E em que indicadores? Porque é que o deles é melhor que o de outros?

  3. Hugo Mendes a 16 de Maio de 2008 15:02

    Fazia bem ao Henrique Raposo ler um boadinho mais. Não precisa ir muito longe, pode mesmo ficar pelos relatórios facilmente digeríveis - para quem se dá ao trabalho, naturalmente - da OCDE.
    Por exemplo, este: Field, S., M.Kuczera, e B.Pont (2007), “No More Failures. Ten Steps to Equity in Education, Paris: OECD, onde se escreve, entre outras coisas, que «[h]igh rates of year repetition in some countries need to be reduced by changing incentives for schools and encouraging alternative approaches» (2007:107).

    O sumário executivo do relatório pode ser encontrado aqui: http://www.oecd.org/dataoecd/21/45/39989494.pdf

    Isto do “facilistismo” deve ser mesmo uma conspiração mundial.

    Será que o Henrique Raposo já se colocou a questao: para que serve a retenção?

    Se ele se colocar esta pergunta, talvez possa ser direccionado para centenas de estudos que mostram que a retençao é, do ponto de vista pedagógico, enquanto instrumento de recuperação dos alunos fracos, amplamente ineficaz. É por isso que países que felizmente não têm pessoas como o Henrique Raposo à frente dos Ministérios da Educação praticamente aboliram a retenção. É o caso da Finlândia - que é apenas o país que vem em primeiro lugar no relatorio do PISA 2006. Das três, uma: ou isto é um acaso; ou os finlandeses sao uns ‘pequenos génios’; ou a retenção enquanto instrumento pedagógico ineficaz foi substituido neste e noutros paises da Europa do Norte por outros mecanismos pedagógicos mais eficazes, que implicam mais e continuado trabalho por parte de professores e alunos. Por muito que deixe algumas pessoas espantadas, é mesmo possivel às crianças aprender sem ser sob a ameaça da perda de ano. É preciso é o sistema educativos e as práticas pedagógicas estarem organizadas para tal. Naturalmente, quando a retenção é um instrumento de uso fácil, conveniente e apelativo para alcasse docente, esses instrumentos pedagógicos alternativos serão sub-empregues e estarão sub-desenvolvidos. É o que se passa em Portugal.

    Claro que, se o Henrique Raposo soubesse disto, não podia fazer o número do costume de ataque ao “eduquês” que é tao primário numa certa direita portuguesa. Noblesse oblige.

    abraço
    Hugo

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