O gap da dor
Um estudo conduzido por Alan Krueger, professor de economia em Princeton, e Arthur Stone, professor de psiquiatria em Stony Brook, encontrou uma divisão económica para a incidência da dor nos norte-americanos: «People in households making less than $30,000 a year spend almost 20 percent of their time in moderate to severe pain, compared with less than 8 percent for those in households with income above $100,000 a year». Mas não é só a incidência que é reveladora da divisão. As suas causas ilustram a diferença na qualidade de vida: nos mais pobres, a dor resulta, em grande parte, da actividade profissional; nos mais ricos, de práticas desportivas.
As palavras são importantes
Num artigo inicialmente publicado no Diario de Noticias e republicado no 5 dias, Fernada Cancio escreve um paragrafo que em muitos paises ja nao faz sentido. Em Portugal, e urgente reescreve-lo:
«Ter consciencia disso e tentar expurgar a linguagem, a fala, deste tipo de referencias discriminatorias [chamar “preto” a Tiago, um miudo de 10 anos] e a essencia daquilo a que se deu, nos EUA, o nome de “politicamente correcto”. A expressao nasceu da nocao de que a linguagem nao e neutra – e, evidentemente, politica. E um campo de batalha no qual o que se diz nao so faz diferenca para os outros como para o proprio: reprimir palavras, nocoes e referencia discriminatorias cria uma outra forma de ver e pensar o mundo. Esta reeducacao voluntaria, este esforco de nao agressao, foram ridicularizados e atacados pela direita americana e depois pelas varias direitas, comparados a uma ditadura e agregados a linguagem totalitaria referida por Orwell na obra 1984 – a “novilingua”. Numa espantosa inversao de papeis, quem usa linguagem discriminatoria e ofensiva surge como necessitado de proteccao e apresenta-se o politicamente correcto como um atentado a liberdade de expressao e pensamento».
Nao foi preciso muito tempo para me (re)lembrar como a linguagem corrente, em Portugal, e profundamente discriminatoria. Um almoco numa cervejaria, poucas semanas depois de regressar, foi suficiente: Um empregado pede a outro que limpe o chao junto a uma das mesas. Pouco agradado com o pedido, o segundo responde, em voz alta, que “nao e preto” e que os “pretos estao la dentro”, apontando para a cozinha, onde tres cozinheiras negras preparam a comida. Os outros empregados riem, alguns dos clientes riem, as cozinheiras baixam a cabeca – em sitios destes, alias, raramente as levantam – e a vida continua.
Infografismos
No jornal do costume, o porque da sua infografia ser extraordinaria [bold meu]: «Mr. Duenes manages the graphics department, a group of 30 journalists who research and create the diagrams, maps and charts for the newspaper and the Web site. He started at The Times in 1999 as the graphics editor for science. In 2001, he became the deputy graphics director, and in 2004, he became the graphics director».
Brincar aos soldadinhos

Ontem, foi noticiado que o principe Harry estaria no Afeganistao em servico militar ha pouco mais de dois meses. Hoje, o comando militar ingles mandou-o para casa. Acabou o recreio.
Jornalismo técnico
Um jornal tem jornalistas, revisores, editores e directores. E, no entanto, permitem que se escrevam coisas como o paragrafo seguinte, retirado de uma noticia do DN de hoje. Depois, facam aquela cara de espantados e escrevam editoriais sobre o excesso de ruido nas discussoes publicas. O maradona e que nao e parvo: so le jornais estrangeiros.
«As caracteristicas da ponte ja levantaram duvidas. Cancio Martins fixou um vao (distancia entre o leito do rio e o tabuleiro da ponte) de 690 metros na cala norte. Antonio Reis, que o substituiu no projecto, ja afirmou publicamente (RTP) que o vao baixou para 540 metros, uma reducao que varios responsaveis ligados ao estudo da CIP consideram que pode colocar definitivamente em causa a passagem e a operacao de manobras dos grandes navios, bem como a operacao a montante. Carlos Fernandes diz que o projecto preve uma altura desde a agua a parte inferior de 47 metros, enquanto a APL preve 43 metros e os armadores fixam a altura em 50 metros».
Para acompanhar o almoço de domingo
Filipe Moura, no 5 dias, sobre uma lei que permite aos consumidores recusar o pagamento de aperitivos nao expressamente pedidos nos restaurantes:
«Parece afinal que ha uma lei (que ninguem conhece) que visa proteger os consumidores dos pequenos vigaristas, e que nunca e aplicada. Para os nossos grandes liberais, claro, so a “liberdade individual”, esse valor supremo, dos pequenos vigaristas, e que deve ser protegida e salvaguardada. O direito do consumidor a nao ser vigarizado e responsabilidade dele proprio. E sempre assim – liberdade para o empresario, responsabilidade para os outros. Mesmo que a liberdade do empresario seja fazer vigarice. Gostaria de ver se algum liberal portugues defende isto no estrangeiro, ou se algum liberal estrangeiro gostou de ser vigarizado em Portugal».
Peer pressure
Sexta-feira e dia de carnaval na creche e aos pais foi pedido que mascarassem os filhos. Que nao e “obrigatorio”, mas que todos as outras criancas da classe vao. Criancas essas que nem dois anos tem.
Visões Úteis (post intimista)
Fico muito orgulhoso por um grupo muito especial de amigos ter construido um projecto como o Visoes Uteis. As duas paginas que o suplemento P2 do Publico de hoje dedica ao documentario “A Caminho do Resto do Mundo” sobre a cidade do Porto para la da circunvalacao vem reforcar esse sentimento.
Eu nao assisti, como nao assisti, alias, a maior parte das producoes ao longo dos ultimos sete anos, mas a ideia de desenvolver uma peca de teatro – teatro in itinere, para ser mais preciso – tendo como cenario o interior de um taxi que circula pelos bairros mais esquecidos da cidade do Porto parece muito interessante. Parece-me a mim, e parece ao suplemento Y do Publico que considerou o “Resto do Mundo” a quinta melhor producao teatral de 2007 vista em Portugal. E essa producao que serve agora de suporte, juntamente com imagens captadas por rapazes e raparigas desses bairros, ao documentario que vai ser apresentado no proximo Festival de Teatro de Expressao Iberica.
A Ana, ao Carlos, a Catarina, ao Pedro, e a todos os que com eles tem colaborado ao longo dos ultimos 13 anos, um abraco muito especial.
Uma questão de contexto
Aquilo que a Susana denuncia aqui e muito grave. E certo que o que a TMN esta a fazer tem implicacoes maiores porque envolve cobrancas disfarcadas. Mas o telemarketing a hora do jantar, o distribuidor de publicidade que carrega a campainha para que lhe abram a porta do predio, os jornais gratuitos que nos entram pela janela do carro ou os papelinhos do canalizador no para-brisas, ilustram bem esta relacao abusiva, invasiva, que temos com o espaco dos outros. Tivessemos tido a preocupacao de regulamentar a distribuicao de publicidade nao solicitada em espacos privados e, certamente, a TMN nao estaria perante um contexto favoravel para desenvolver este tipo de accoes comerciais.
O Zé faz falta!
A EMEL rebocou um carro de matricula alema. O dono, a trabalhar em Portugal, acha pouco os 90 euros que vai pagar: “uf!, pensei que fosse mais de 200 euros”, comentou. A EMEL, que e uma empresa municipal, deveria indexar o valor das multas ao PIB per capita das matriculas. Foi isso que o PSR fez ao preco das cervejas num acampamento internacional de jovens revolucionarios, ha alguns anos, na Lousa. Andas distraido, o Ze?