Provas de aferição
Descobri uma forma de aferir a qualidade dos “actual” e “antigo” sistemas de ensino. Em vez de uma, projectam-se duas pontes Chelas-Barreiro, lado a lado. Da primeira, ficam encarregues os engenheiros formados pelo sistema massificado e “facilitista”, e da segunda, os engenheiros formados pelo sistema “rigoroso” e “exigente” do passado.
Blogosfera e biosfera
Hoje de manhã, o Expresso online pediu-me para escrever sobre a decisão recente de um tribunal em suspender o acesso a um blogue português. Podem ler o texto aqui.
Expresso: política no feminino
Na edicao de amanha, e sobre a eleicao de Manuela Ferreira Leite como Presidente do PSD, o Expresso questiona: «as mulheres fazem politica de maneira diferente dos homens?».
A pergunta conduz-me para o que se passou nas primarias norte-americanas. Muito se falou no juizo dos eleitores sobre o facto de Barack Obama ser afro-americano. Mas nunca ninguem questionou se, sendo afro-americano, iria fazer politica de forma diferente dos caucasianos. Ja sobre Hillary Clinton, as coisas nao foram assim: sendo mulher, esperava-se que fizesse politica de outra forma. Por exemplo, numa ocasiao de campanha chorou, o que foi comentado como sinal de fraqueza, coisa que nenhum homem revelaria.
Ora, mesmo que Manuela Ferreira Leite faca politica de forma diferente de Luis Filipe Menezes, nao e certamente por ser mulher. E os dois, mesmo sendo diferentes, farao politica de forma mais parecida entre si do que com a forma de o fazer de Avelino Ferreira Torres, um alpha-male pouco sofisticado.
Este tipo de prejudice que a pergunta do Expresso transporta — e que esteve presente nas primarias norte-americanas — e absurdo.
[Escrito no contexto de uma colaboracao com o Expresso, que me permite comentar antecipadamente alguns dos temas da edicao em papel do jornal]
Back to the Future
Em 1996, por altura do seu centenario, a revista do New York Times pediu a Paul Krugman – e a outros – para se imaginar a viver em 2096 e escrever um artigo sobre o passado. O resultado foi este. Segue-se um excerto:
«Most important of all, the long-ago prophets of the information age seemed to have forgotten basic economics. When something becomes abundant, it also becomes cheap. A world awash in information is one in which information has very little market value. In general, when the economy becomes extremely good at doing something, that activity becomes less, rather than more, important. Late-20th-century America was supremely efficient at growing food; that was why it had hardly any farmers. Late-21st-century America is supremely efficient at processing routine information; that is why traditional white-collar workers have virtually disappeared.»
Um X importante
Pensamento do meio-dia e o novo blogue do Hugo Mendes (Veu da Ignorancia II) e do Renato Carmo (Peao). A imagem em cima foi de la retirada e ilustra bem um elemento ignorado pelo discurso de ocasiao sobre desigualdades: a despesa publica em proteccao social (linha azul, escala da esquerda) e fundamental no combate a pobreza (linha rosa, escala da direita).
O Planeta Relativo

Momento em que o Mundo conheceu mais alguns dos seus habitantes e estes o Mundo [via Google News].
Sprawl
O Luis Rainha acha que e possivel um futuro sem combustiveis fosseis. E que esse futuro se prepara, entre outras coisas, com «atrair mais gente para os centros das cidades; [e] impedir o alastramento destas». Eu nao sei, porque o Luis nao o diz, em que cidades e que ele esta a pensar. Provavelmente, anda a ler autores norte-americanos (nos dias que correm, e muito dificil ler outros em tempo util e com o minimo de qualidade, eu sei). Mas o problema e que ha especifidades da realidade norte-americana que sao isso mesmo: especifidades.
Na maior parte das cidades da Europa Ocidental, e em Lisboa, em particular, e manifestamente impossivel trazer mais pessoas para o centro (deveriamos ser rigorosos e definir “centro”, mas adiante). Uma das diferencas mais evidentes entre as cidades norte-americanas e as europeias, e a dispersao espacial da populacao que e muito superior nas primeiras. Ora, quando nos E.U.A. se fala em reduzir o urban sprawl, e comum tomar os modelos europeus de ocupacao territorial e de mobilidade como bons exemplos: nao so vivemos e trabalhamos mais perto uns dos outros, como as redes de transportes publicos sao mais abrangentes.
Na lista das cidades mais densas do mundo, a primeira norte-americana, Los Angeles, aparece em nonagesimo lugar. A frente de L.A., estao quase todas as capitais da Asia, da America do Sul, da Europa Ocidental e de Africa. Portanto, e mais uma vez, quando se le que o sprawl e um problema com elevados custos energeticos, tem que se ter em conta que a sua dimensao, nos E.U.A., e muitissimo superior a dos outros paises.
Relativismo funcional
Nas ultimas semanas, figuras publicas e jornais, primeiro, e bloggers, depois, comentaram activamente tres factos distintos. Primeiro, foi Cavaco Silva a falar sobre a relacao distante dos jovens portugueses com a politica. Depois, foi a vez do Diario Economico dar a conhecer o aumento (”exponencial” e o termo mais em voga) do preco da comida. Ha poucos dias, foi o Diario de Noticias a anunciar na primeria pagina que a comunidade de emigrantes portugueses na Europa tinha crescido 50% entre 2000 e 2006. Expecto raras excepcoes, a bio- e a blogo-esfera comentaram estes factos assumindo-os como descriptivos fiaveis da realidade.
Mas a realidade e diferente e, aparentemente, de nada valeu a tentativa de alguns em denunciar a forma enviesada como esses factos estavam a ser relatados ou interpretados (aqui, aqui e aqui, respectivamente). Actualmente, e pelo que me e permitido constatar, a maioria das pessoas acredita nas versoes originalmente difundidas. Ou seja, quer se goste ou nao, o relativismo e, pelo menos, funcional (*).
(*) Assumindo, obviamente, que os erros dos assessores de Cavaco Silva e dos editores do Diario Economico e do Diario de Noticias foram involuntarios.
Geração espontânea de emigrantes portugueses no Reino Unido
Segundo a edicao de hoje do Diario de Noticias, o numero de emigrantes portugueses na Europa subiu 50% entre 2000 e 2006. Se em 2000 havia 419 mil portugueses a viver em paises europeus, os 640 mil de 2006 indiciam, certamente, um exodo so explicado pela “crise”. Mas ha um problema. O crescimento de 50% citado pelo Diario de Noticias e espurio e resulta, em grande parte, da falta de dados sobre o numero de portugueses no Reino Unido em 2000.
Segundo uma tabela publicada na pagina 2 do DN, nao havia emigrantes portugueses na nova patria de Cristiano Ronaldo em 2000 e 2001, para logo de seguida, em 2002, passar a haver 94 mil. E aquilo a que se chama “geracao espontanea de portugueses”.
Uma analise mais cuidada, contudo, permite estimar em 75-80 mil o numero de portugueses no Reino Unido no ano de 2000 (assumindo um crescimento constante de 8-9 mil/ano). Assim, o numero de emigrantes portugueses na Europa tera aumentado de 500 mil em 2000 para 640 mil em 2006, ou seja, tera crescido 28% e nao os “catastroficos” 50%.
Ainda sobre a geração espontânea de portugueses
No BlogueBrother de hoje, e sobre o meu post anterior, o Expresso considera que defino o exodo de portugueses como sinonimo da crise. Escrevio-o num registo ironico que pretendia evidenciar o facto de neste artigo do Diario de Noticias se atribuir, ai sim, o “exodo” a “crise”, embora, de facto, o “exodo” seja inferior ao noticiado.
O Expresso refere tambem – e foi esse o objectivo principal do post – o meu cepticismo quanto ao titulo de primeira pagina do Diario de Noticias, onde se afirma que houve um aumento de 50% de emigrantes portugueses na Europa entre 2000 e 2006. Escrevi que esse numero e calculado ignorando o facto de nao haver dados sobre a emigracao portuguesa no Reino Unido no ano de 2000, o que significa que a grandeza do aumento noticiado pelo DN e pura e simplesmente um numero ficcionado pelos seus editores.
[Se algum leitor souber onde encontrar um press release sobre o relatorio da OCDE - ja que este so sera publicado em Junho - agradecia que mo enviasse. Tenho a sensacao que os numeros apresentados pelo DN representam nao so os emigrantes portugueses, mas tambem os seus descendentes, o que torna toda esta analise do DN sobre fluxos migratorios ainda mais absurda.]
