Jay Cost

Jay Cost e doutorando em Ciencias Politicas na Universidade de Chicago. Nos ultimos meses, tem escrito alguns dos mais interessantes artigos sobre a dinamica demografica das eleicoes primarias norte-americanas, principalmente no campo Democrata. Este artigo — “Reflections on the Democratic Race” — e, na minha opiniao, o mais importante e acutilante de todos. Um excerto:

«I think his [Obama’s] foresight to organize the caucus states has served him doubly well. Not only has it given him a large delegate lead compared to a modest popular vote lead – it has served as protection against political peril. My sense is that with Ohio, Pennsylvania, and then Wright – superdelegates would be flocking to Clinton if it were not for his caucus victories».

Exit polls

A CNN, ainda a sofrer do trauma Projeccao-Gore-Vencedor-Florida-2000, recusa-se a declarar vencedores a menos que as diferencas nas projeccoes sejam superiores a dez pontos. Mas as exit polls tem ajudado a antecipar, com alguma precisao, os vencedores e as margens de vitoria. Estas sao as minhas previsoes a partir da analise desses dados:

Roda livre

Ate ao momento, parece certo que Clinton vence em Indiana e perde na Carolina do Norte. A margem da derrota no ultimo sera, muito provavelmente, superior a margem da vitoria no primeiro. As demografias-tipo nos dois Estados sao muito diferentes e, neste momento, ja so o argumento da elegibilidade podera manter vivas as apiracoes de Hillary. Falta saber se os 230 superdelegados ainda indecisos o consideram mais importante do que outros argumentos. Sobre isto, um post mais detalhado amanha.

Obama liberal ou conservador?

O Nuno Gouveia tem feito um acompanhamento notavel das eleicoes norte-americanas. Foi atraves do seu blogue e dos comentarios a alguns dos posts ai escritos que tive conhecimento da mais recente polemica da campanha.

Num discurso em San Francisco vedado a comunicacao social e perante multi-milionarios norte-americanos, Barack Obama tera afirmado, referindo-se a dificuldade da sua campanha em fazer chegar a mensagem politica a classe operaria da Pennsylvania:

«You go into these small towns in Pennsylvania and, like a lot of small towns in the Midwest, the jobs have been gone now for 25 years and nothing’s replaced them. […] And they fell through the Clinton administration and the Bush administration, and each successive administration has said that somehow these communities are gonna regenerate, and they have not. […] And it’s not surprising then they get bitter, they cling to guns or religion or antipathy to people who aren’t like them or anti-immigrant sentiment or anti-trade sentiment as a way to explain their frustrations».

Muitos interpretam estas palavras como um sinal claro que Barack Obama e um liberal. Afinal, a dificuldade que este diz sentir e aquela que o partido Democrata tem varias vezes enfrentado: embora o discurso politico dos Democratas – e a sua pratica (mais sobre isto aqui e aqui) – seja no sentido de promover o bem estar e a seguranca economica da classe media, esta e mais solidaria com a plataforma politica do partido Republicano. Um exemplo pessoal, meramente ilustrativo: em 2004, os pais de um colega meu diziam-me que embora nao se sentissem confortaveis com muitas das politicas da administracao Bush nao poderiam votar num partido que defende o aborto.

Voltando as palavras de Obama. Dois apontamentos. Primeiro, e de estranhar a ausencia de referencias a Ronald Reagan – ou melhor, ela esta la, mas disfarcada («for 25 years»). Afinal, a “revolucao Republicana” foi iniciada por Reagan e o panorma politico actual ainda e um seu reflexo. Mais: as politicas economicas dos anos 80 tiveram um impacto negativo na classe media que so foi mimimizado pela singularidade dos anos 90. Em segundo lugar, Barack Obama nao e um liberal, longe disso (o discurso foi feito perante liberais multi-milionarios de San Francisco, que sao uma especie de eleitores muito peculiares). Ao longo da sua carreira enquanto Senador em Washington, Obama teve um registo de voto dos mais conservadores entre os Democratas. Parece contra-intuitivo, de facto, tantas foram as vezes que ouvimos dizer “Obama e liberal”, mas leia-se este texto e atente-se na tabela ai apresentada.

Expresso: Crise no PSD

Dos temas que o Expresso abordara na edicao em papel de Sabado, realco o destaque dado a actual crise do PSD:

«O ex-ministro da Justica de Santana Lopes, Jose Pedro Aguiar Branco, quer directas ate final do ano para derrubar Menezes da presidencia do PSD. Com menos de um ano de lideranca e a pouco mais de um ano das legislativas o Expresso interroga-se sobre a legitimidade de Luis Filipe Menezes enquanto lider do PSD – se continua intacta ou nao – e sobre a necessidade ou legitimidade de este ser substituido pelos seus criticos. Para onde vai o principal partido da oposicao se nao consegue livrar-se de sucessivas crises internas? Como pode funcionar a democracia se os partidos dos chamado “arco do Poder” nao conseguem afirmar-se? Os problemas internos sao reflexo de insuficiencias proprias ou provocados pela estrategia do PS?»

O problema sobre a legitimidade de Luis Filipe Menezes enquanto lider do PSD nao deve ser colocado. Ela existe e deve respeitada. O mesmo nao se podera dizer sobre a sua credibilidade enquanto tal [leitura importante: nota mental sobre publicacao de posts]. Mas o problema do PSD e bem mais profundo do que a falta de credibilidade do seu lider, e nem sequer e um exclusivo seu.

A forma como os partidos politicos portugueses estao organizados potencia o tipo de crise que o PSD atravessa actualmente. O problema reside, em grande parte, na ausencia de grupos de estudo e reflexao que funcionem autonoma e independentemente das estruturas dirigentes. Grupos que produzam informacao, que estimulem o debate politico, que inovem e promovam a renovacao. E a ausencia destas estruturas que permite que o PSD de hoje seja muito diferente do PSD de Marques Mendes, que, por sua vez, ja o era do de Durao Barroso.

O resultado deste vazio de discussao interna, de compromisso com uma matriz politica sustentada na reflexao, e que novos lideres significa, por regra, novos partidos, nao novas formas de gerir o mesmo partido. O CDS de Portas nao e o mesmo partido de Ribeiro e Castro e o mesmo se pode dizer quando se compara o PS de Jose Socrates ao de Ferro Rodrigues.

Dos partidos com representacao parlamentar, so os dois mais a esquerda estao imunes a este tipo de crises, mas nao pelas melhores razoes. O Bloco de Esquerda, porque mantem o mesmo lider desde a sua fundacao e nao ha indicios de renovacao. O PCP, porque se mantem fiel a uma doutrina imutavel.

[Escrito no contexto de uma colaboracao com o Expresso, que me permiti comentar antecipadamente alguns dos temas da edicao em papel do jornal]

Introdução ao Spin

Pergunta-comentario de Mario Crespo a Joaquim Aguiar, ha minutos, na SIC-noticias: «Portanto o Partido Socialista esta em crise, ele proprio».

As três eleições de Novembro nos Estados Unidos

Em Novembro, para alem de escolherem o Presidente, os norte-americanos votarao para eleger 35 dos 100 Senadores e os ocupantes de todos os 435 lugares da Camara dos Representantes.

Nas ultimas eleicoes intercalares, em 2006, os Democratas recuperaram o controlo da Camara dos Representantes, maioritariamente Republicana nos 12 anos anteriores, e o credito foi atribuido a estrategia de Howard Dean, o chairman do partido. Ate ai, era pratica comum fazer-se campanha so em circulos eleitorais com alguma tradicao de vitorias Democratas.

Howard Dean, certamente motivado pelo que lhe tinha sido dado a conhecer durante a sua campanha para as primarias de 2004, campanha essa sustentada pelas bases, decidiu alargar o apoio do partido a todo o territorio nacional, tendo sido na altura acusado de dispersar recursos. O resultado, esse, nao poderia ter sido melhor, e os criticos calaram-se. Foram ganhos 31 lugares, alguns deles em circulos nunca imaginados, e a Camara dos Representantes voltou a ter maioria Democrata.

A vitoria nas primarias de ontem de Hillary Clinton pela margem psicologica dos dez pontos percentuais alimentara, pelo menos por mais algumas semanas, a disputa eleitoral. Muitos consideram esta indecisao prejudicial aos Democratas porque permite ao GOP focar recursos num unico candidato, ao mesmo tempo que Clinton e Obama se desgastam. Mas esta analise falha em dois pontos essenciais e ignora um terceiro:

Primeiro, as primarias Democratas continuam a trazer as urnas um numero recorde de eleitores. Ontem, na Pensilvania, voltou a acontecer. Em Novembro, sera muito dificil vencer se as bases nao estiverem comprometidas com a campanha. Se a decisao ja estivesse tomada, muitos destes eleitores que tem participado no processo pos-SuperTuesday nao estariam tao motivados.

Em segundo lugar, a medida que a campanha Democrata prossegue, a plataforma politica para Novembro, independentemente de quem for o candidato escolhido, vai sendo moldada pela dinamica eleitoral, respondendo melhor as preocupacoes de todos os norte-americanos, e nao so daqueles que votaram em Iowa ou New Hampshire. As vantagens de uma plataforma mais abragente sao obvias.

Por ultimo, os que consideram esta indecisao negativa para os Democratas, esquecem-se do impacto que uma campanha intensa nos Estados pos-SuperTuesday tera nas outras duas eleicoes de Novembro: para o Senado e, principalmente, para a Camara dos Representantes.

Pensilvânia: colégio eleitoral

Uma vitoria de Hillary Clinton por mais de dez pontos percentuais nas primarias Democratas de hoje alimentara por mais algum tempo a ideia que ela e a mais elegivel dos dois candidatos. As ultimas sondagens dao-lhe uma margem de seis pontos, mas a volatilidade e maxima.

Desde que aqui publiquei uma projeccao de resultados do colegio eleitoral para os cenarios Clinton vs. McCain e Obama vs. McCain, tem havido flutuacoes consideraveis. O elemento comum, e expectavel, e que o resultado final, mais uma vez, depende fortemente dos resultados em pouco mais do que dez dos Estados. Basicamente, todas as vitorias de Obama no Sul, com excepcao da Carolina do Sul, representarao pouco nas eleicoes de Novembro. Ohio, Florida, Missouri, Minnesota, Wisconsin, Washington, Oregon, Nevada, Colorado, Novo Mexico, Carolinas (?) e Novo Hampshire sao os actuais battleground states. Mas ainda faltam sete meses.

As projeccoes para o colegio eleitoral, segundo o sitio electoral-vote.com, sao as seguintes:

Obama 269 – McCain 254 – Empate 15 (mapa aqui)
Clinton 289 – McCain 239 – Empate 10 (mapa aqui)

John McCain?

Ninguem reparou, porque de facto o interesse esta todo do lado Democrata, embora haja quem lhe chame desgaste. Ninguem reparou, dizia eu, mas na passada terca-feira, para alem das primarias Democratas na Pensilvania, houve tambem primarias Republicanas. No boletim de voto constavam John McCain, mas tambem Ron Paul e Mike Huckabee. Votaram 807 mil Republicanos, o que e um numero surpreendente tendo em conta que o Senador do Arizona ja reuniu o numero de delegados suficientes para garantir a nomeacao. Mas mais surpreendente e que desses 807 mil, 220 mil tiveram a preocupacao de ir as urnas votar em Paul ou Huckabee. Contra o escolhido McCain, portanto.

PSD: Mudar Portugal

← Previous PageNext Page →