Jesse Helms e a felicidade (2)

Jesse Helms, senador da Carolina do Norte durante 30 anos, referia-se à University of North Carolina (UNC) — a mais antiga e uma das mais prestigiadas universidades públicas dos Estados Unidos — como a «University of Negroes and Communists».

O ataque aos espaços académicos é uma característica das franjas mais conservadoras e retrógradas da sociedade. No caso particular de Jesse Helms, os vários campuses da universidade estadual, principalmente a sua flagship em Chapel Hill, eram vistos como espaços onde a liberdade académica contrariava a ignorância, ignorância essa que sustentava a difusão das ideias profundamente discriminatórias que defendeu ao longo da vida.

Jesse Helms lidava mal com a emancipação das mulheres, com a liberdade de orientação sexual, com a afirmação dos afro-americanos e com a educação das massas. Que durante 30 anos tenha sido apoiado por metade dos eleitores da Carolina do Norte, compreende-se pela estrutura demográfica do estado. Mas que Helms se tenha tornado uma referência política para alguns em Portugal, já é um mistério para mim.

Leitura complementar: Jesse Helms e a felicidade

4 de Julho

Em dia de celebração patriótica, deixo aqui um resumo das actuais previsões de Andrew S. Tanenbaum [electoral-vote] para as três eleições de Novembro:

Presidenciais: Obama 320; McCain 218
Senado (só 1/3 a eleger): Democratas 55; Republicanos 45
Câmara dos Representantes: Democratas 239; Republicanos 196

Entretanto, acrescentei na coluna do lado direito um icon com esta informação que será actualizada diariamente.

Expresso: o estado da Nação

A menos de uma semana do debate sobre o estado da Nação, a edição de amanhã do Expresso analisa as principais áreas da governação socialista nos últimos três anos. E sob a ameaça da crise económica internacional, lá se vai afirmando que 2009 será pior que 2008.

Mas há um exercício mais complexo, e obrigatório, neste tipo de análises: terá a governação de Sócrates permitido a redução do impacto da crise internacional na economia e no bem estar das famílias portuguesas, relativamente àquilo que seria hoje a realidade se o PSD de Santana Lopes estivesse no governo?

A resposta é importante, porque a escolha nas eleiçõs de 2005 não era entre um número infinito de universos possíveis.

[Escrito no contexto de uma colaboração com o Expresso, que me permite comentar antecipadamente alguns dos temas da edição em papel do jornal]

Expresso: política no feminino

Na edicao de amanha, e sobre a eleicao de Manuela Ferreira Leite como Presidente do PSD, o Expresso questiona: «as mulheres fazem politica de maneira diferente dos homens?».

A pergunta conduz-me para o que se passou nas primarias norte-americanas. Muito se falou no juizo dos eleitores sobre o facto de Barack Obama ser afro-americano. Mas nunca ninguem questionou se, sendo afro-americano, iria fazer politica de forma diferente dos caucasianos. Ja sobre Hillary Clinton, as coisas nao foram assim: sendo mulher, esperava-se que fizesse politica de outra forma. Por exemplo, numa ocasiao de campanha chorou, o que foi comentado como sinal de fraqueza, coisa que nenhum homem revelaria.

Ora, mesmo que Manuela Ferreira Leite faca politica de forma diferente de Luis Filipe Menezes, nao e certamente por ser mulher. E os dois, mesmo sendo diferentes, farao politica de forma mais parecida entre si do que com a forma de o fazer de Avelino Ferreira Torres, um alpha-male pouco sofisticado.

Este tipo de prejudice que a pergunta do Expresso transporta — e que esteve presente nas primarias norte-americanas — e absurdo.

[Escrito no contexto de uma colaboracao com o Expresso, que me permite comentar antecipadamente alguns dos temas da edicao em papel do jornal]

Sumário das primárias Democratas

Votos em John Kerry, nas presidenciais de 2004 contra Bush: 59 milhoes.

Numeros de eleitores nas primarias Democratas de 2008: 36 milhoes.

Blue United States

Houve quem alertasse para a possibilidade de um partido Democrata dividido pelo prolongar da campanha. Nada mais errado. Os discursos de hoje de Clinton(*) e Obama, este ultimo perante 20 mil pessoas, ilustram, de forma evidente, o compromisso que ambos assumiram ha muito em garantir que o proximo Presidente sera Democrata. Pelo caminho, a campanha percorreu 50 estados mobilizando milhoes de eleitores, muitos deles a participar pela primeira vez em eleicoes primarias. Houve confronto de ideias, alguns momentos mais azedos, mas, principalmente, uma enorme vontade em construir uma nova orientacao politica que resgate os Estados Unidos de um dos periodos mais negros da sua historia.

Por outro lado, John McCain, num discurso absolutamente mediocre perante algumas centenas de apoiantes, esforcou-se por sublinhar o seu distanciamento da Administracao Bush. A audiencia, essa, e que nao sabia como reagir. Umas vezes aplaudia, outras assobiava as referencias ao actual Presidente. Houve mesmo momentos em que o seu silencio se perdia nos sorrisos que pautavam o discurso de McCain. Se ha partido dividido, a procura de referencias e orientacoes politicas, esse e o GOP.

(*) James Carville lembrou, na CNN, que as desistencias devem ser preparadas convenientemente. Escrevi que esperava que Clinton assumisse a derrota hoje. Nao o ter feito nao significa que nao o fara nos proximos dias, depois de ouvir os seus conselheiros e de falar com Obama.

Super Tuesday (2)

Tudo aponta para que Hillary Clinton abandonara hoje a corrida para a nomeacao Democrata, dia das ultimas duas primarias e cinco meses depois dos caucuses no Iowa. Para alem de Jay Cost, muitos outros irao passar horas a analisar os resultados e a dinamica de um dos mais interessantes processos eleitorais da historia. Ainda falta a campanha eleitoral onde a plataforma Democrata confrontara a Republicana, mas a dinamica dos ultimos cinco meses ja garantiu um impacto consideravel nas eleicoes de Novembro. Nao so no que a escolha do Presidente diz respeito, mas tambem nas escolhas para a Camara dos Representantes e para 1/3 do Senado.

Nas ultimas semanas, Hillary Clinton obteve tres dos seus melhores resultados eleitorais (West Virginia, Kentucky e Puerto Rico), garantiu que os delegados de Florida e Michigan irao estar representados na Convencao e sublinhou — de forma consciente ou nao — a divisao demografica das bases Democratas. A acrescentar a estes factos, e como aqui ja o tinha escrito, os quase 50% de votos populares e de delegados que apoiam Clinton legitimam um poder que nao podera ser ignorado por Barack Obama. Para desgraca dos Republicanos, o Dream Ticket Obama-Clinton ‘08 e mais provavel do que certamente desejariam.

Hillary Clinton admite derrota [actualizado]

A Associated Press avancou com a informacao que Hillary Clinton ira, hoje a noite, reconhecer que Barack Obama reuniu o numero de delegados suficientes para garantir a nomeacao.

Actualizacao: Na pagina da CNN, escreve-se que a informacao avancada pela AP e incorrecta.

Actualizacao 2: Clinton anunciou, numa conference call com Representantes de Nova Iorque, a sua disponibilidade para ser vice de Obama.

Informação privilegiada

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Press Secretary da Administracao Bush e, provavelmente, a mais desgastante profissao do mundo. Nos ultimos sete anos, houve quatro: Ari Fleisher (2001-2003), Scott McClellan (2003-2006), Tony Snow (2006-2007) e Dana Perino (2007-presente). Foram eles que, diariamente, comunicaram decisoes politicas e responderam, em nome da Administracao, as perguntas dos jornalistas.

Um bom Press Secretary faz gestao de informacao — informacao essa que deve ser o mais completa possivel. E por isso que o livro escrito por Scott McClellan, que sera posto hoje a venda nos Estados Unidos, tem a importancia que lhe esta a ser atribuida. Durante tres anos, este foi o homem que defendeu a Administracao Bush perante a opiniao publica norte-americana em assuntos como a guerra do Iraque, o envolvimento de Dick Cheney e Karl Rove na revelacao da identidade de uma agente da CIA, a gestao da crise humanitaria provocada pelo Katrina, a crise econonima e muitos outros.

Em “What Happened: Inside the Bush White House and Washington’s Culture of Deception”, sao contadas, como o titulo sugere, historias bem diferentes daquelas que foram defendidas por Scott McClellan na sala da imprensa da Casa Branca. Historia estas que sublinham, uma vez mais, a manipulacao extrema de informacao que a Administracao de George W. Bush promoveu nos ultimos sete anos.

Liberal-pessimismo

O Antonio Luis Vicente escreveu, no Codfish Waters, um post interessante sobre as limitacoes praticas do liberalismo.

[A dimensao telegrafica dos meus posts, ultimamente, e justificada por uma menor disponibilidade para aqui escrever. Mas como o futuro esta no twitter, pode ser que com isso eu esteja a adquirir uma nova competencia de tipo 2.0.]

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