Ainda sobre a geração espontânea de portugueses

No BlogueBrother de hoje, e sobre o meu post anterior, o Expresso considera que defino o êxodo de portugueses como sinónimo da crise. Escrevio-o num registo irónico que pretendia evidenciar o facto de neste artigo do Diário de Notícias se atribuir, aí sim, o “êxodo” à “crise”, embora, de facto, o “êxodo” seja inferior ao noticiado.

O Expresso refere também - e foi esse o objectivo principal do post - o meu cepticismo quanto ao título de primeira página do Diário de Notícias, onde se afirma que houve um aumento de 50% de emigrantes portugueses na Europa entre 2000 e 2006. Escrevi que esse número é calculado ignorando o facto de não haver dados sobre a emigração portuguesa no Reino Unido no ano de 2000, o que significa que a grandeza do aumento noticiado pelo DN é pura e simplesmente um número ficcionado pelos seus editores.

[Se algum leitor souber onde encontrar um press release sobre o relatório da OCDE - já que este só será publicado em Junho - agradecia que mo enviasse. Tenho a sensação que os números apresentados pelo DN representam não só os emigrantes portugueses, mas também os seus descendentes, o que torna toda esta análise do DN sobre fluxos migratórios ainda mais absurda.]

Geração espontânea de emigrantes portugueses no Reino Unido

Segundo a edição de hoje do Diário de Notícias, o número de emigrantes portugueses na Europa subiu 50% entre 2000 e 2006. Se em 2000 havia 419 mil portugueses a viver em países europeus, os 640 mil de 2006 indiciam, certamente, um êxodo só explicado pela “crise”. Mas há um problema. O crescimento de 50% citado pelo Diário de Notícias é espúrio e resulta, em grande parte, da falta de dados sobre o número de portugueses no Reino Unido em 2000.

Segundo uma tabela publicada na página 2 do DN, não havia emigrantes portugueses na nova pátria de Cristiano Ronaldo em 2000 e 2001, para logo de seguida, em 2002, passar a haver 94 mil. É aquilo a que se chama “geração espontânea de portugueses”.

Uma análise mais cuidada, contudo, permite estimar em 75-80 mil o número de portugueses no Reino Unido no ano de 2000 (assumindo um crescimento constante de 8-9 mil/ano). Assim, o número de emigrantes portugueses na Europa terá aumentado de 500 mil em 2000 para 640 mil em 2006, ou seja, terá crescido 28% e não os “catastróficos” 50%.

O gap da dor

Um estudo conduzido por Alan Krueger, professor de economia em Princeton, e Arthur Stone, professor de psiquiatria em Stony Brook, encontrou uma divisão económica para a incidência da dor nos norte-americanos: «People in households making less than $30,000 a year spend almost 20 percent of their time in moderate to severe pain, compared with less than 8 percent for those in households with income above $100,000 a year». Mas não é só a incidência que é reveladora da divisão. As suas causas ilustram a diferença na qualidade de vida: nos mais pobres, a dor resulta, em grande parte, da actividade profissional; nos mais ricos, de práticas desportivas.

As palavras são importantes

Num artigo inicialmente publicado no Diário de Notícias e republicado no 5 dias, Fernada Câncio escreve um parágrafo que em muitos países já não faz sentido. Em Portugal, é urgente reescrevê-lo:

«Ter consciência disso e tentar expurgar a linguagem, a fala, deste tipo de referências discriminatórias [chamar “preto” a Tiago, um míudo de 10 anos] é a essência daquilo a que se deu, nos EUA, o nome de “politicamente correcto”. A expressão nasceu da noção de que a linguagem não é neutra – é, evidentemente, política. É um campo de batalha no qual o que se diz não só faz diferença para os outros como para o próprio: reprimir palavras, noções e referência discriminatórias cria uma outra forma de ver e pensar o mundo. Esta reeducação voluntária, este esforço de não agressão, foram ridicularizados e atacados pela direita americana e depois pelas várias direitas, comparados a uma ditadura e agregados à linguagem totalitária referida por Orwell na obra 1984 – a “novilíngua”. Numa espantosa inversão de papéis, quem usa linguagem discriminatória e ofensiva surge como necessitado de protecção e apresenta-se o politicamente correcto como um atentado à liberdade de expressão e pensamento».

Não foi preciso muito tempo para me (re)lembrar como a linguagem corrente, em Portugal, é profundamente discriminatória. Um almoço numa cervejaria, poucas semanas depois de regressar, foi suficiente: Um empregado pede a outro que limpe o chão junto a uma das mesas. Pouco agradado com o pedido, o segundo responde, em voz alta, que “não é preto” e que os “pretos estão lá dentro”, apontando para a cozinha, onde três cozinheiras negras preparam a comida. Os outros empregados riem, alguns dos clientes riem, as cozinheiras baixam a cabeça - em sítios destes, aliás, raramente as levantam - e a vida continua.

NYTimes: Jan Chipchase

Can the Cellphone Help End Global Poverty? : «Chipchase is 38, a rangy native of Britain whose broad forehead and high-slung brows combine to give him the air of someone who is quick to be amazed, which in his line of work is something of an asset. For the last seven years, he has worked for the Finnish cellphone company Nokia as a “human-behavior researcher.” He’s also sometimes referred to as a “user anthropologist.” To an outsider, the job can seem decidedly oblique. His mission, broadly defined, is to peer into the lives of other people, accumulating as much knowledge as possible about human behavior so that he can feed helpful bits of information back to the company — to the squads of designers and technologists and marketing people who may never have set foot in a Vietnamese barbershop but who would appreciate it greatly if that barber someday were to buy a Nokia».

Gang ranking

Quando algo semelhante a isto acontecer em Portugal - sim, porque ao ritmo a que as coisas se passam, sei lá, meu deus, deve estar para breve - é que os jornalistas do Correio da Manhã e do 24 Horas vão salivar.

Comprem um Mac!

O telejornal da RTP1 acaba de mostrar uma simulação ridícula sobre a nova travessia Chelas-Barreiro, hoje anunciada. O vídeo mostra a ponte, qual Godzilla, a avançar sobre as cidades de Lisboa e do Barreiro, nivelando terrenos nas duas margens do Tejo e ignorando construções já existentes, a maior parte prédios residenciais. Obviamente, o vídeo ilustra, mais do que tudo, as profundas debilidades informáticas de quem o produziu.

A América que a Atlântico teima em ignorar

As senhoras e os senhores da Atlântico são peritos em difundir mitos sobre a forma como o Estado e a Sociedade norte-americana estão organizados. O último, refere-se ao financiamento estatal de organizações da sociedade civil. Para Pedro Marques Lopes, nos Estados Unidos, essas organizações vivem sem a ajuda do Estado:

Ou seja, não fosse o bendito Estado e não havia maneira de as pessoas [em Portugal] se organizarem em função dos seus interesses. Os Ingleses e os Americanos sim, são capazes“.

Comecemos por aqui (formato PDF). Este documento, produzido pela Casa Branca, lista, nas suas 85 páginas, oportunidades de financiamento federal para associações de cidadãos. Na página 17 - e já que foi o financiamento às associações de pais a motivar a discussão - escreve-se o seguinte sobre o programa de financiamento do Departamento de Educação às associações de pais:

«The purpose of this program is to support parental assistance and resource centers that provide training, information and support to parents of children through school age […] Nonprofit organizations, including faith-based organizations, are eligible to apply».

Pergunta: Quanto dinheiro alocou o orçamento federal norte-americano para a rubrica em cima, em 2006?

Resposta: 39 milhões e seiscentos mil dólares.

Fizemo-lo por serviço público, mas cobramos à hora

Quem afirmou [fonte]: «Ninguém pagou o estudo [comparativo das opções Chelas-Barreiro e Beato-Montijo]. Fizemo-lo por serviço público. Espero que o Estado me venha a pagar isto, porque estamos a contribuir com valor para uma solução».

1) Prof. Dr. José Manuel Viegas, Presidente do Conselho de Administração da TIS, Consultores em Transportes, Inovação e Sistemas, S.A.;

2) Prof. Dr. José Manuel Viegas, Professor Catedrático de Transportes do Departamento de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico.

«A maneuver we practice very often»

Oliver A., piloto da Lufthansa que no sábado, em Hamburgo, foi responsável pela manobra do Airbus A320 que a seguir se mostra: «The landing was challenging because of the wind. As we were about to touch down, a gust of wind pressed the left wing towards the ground. We pulled up immediately. A maneuver we practice in training very often».

Dificultismo

O Alexandre Homem Cristo acha que não se deve retirar conteúdos difíceis dos programas das disciplinas. É irrelevante que os professores não sejam capazes de os transmitir, ou que os alunos não estejam preparados para os assimilar. Se é difícil, deve constar nos programas. Ponto. Digo-vos uma coisa: nunca mais leio um texto onde apareça escrito “antigamente”.

Jornalismo técnico

Um jornal tem jornalistas, revisores, editores e directores. E, no entanto, permitem que se escrevam coisas como o parágrafo seguinte, retirado de uma notícia do DN de hoje. Depois, façam aquela cara de espantados e escrevam editoriais sobre o excesso de ruído nas discussões públicas. O maradona é que não é parvo: só lê jornais estrangeiros.

«As características da ponte já levantaram dúvidas. Câncio Martins fixou um vão (distância entre o leito do rio e o tabuleiro da ponte) de 690 metros na cala norte. António Reis, que o substituiu no projecto, já afirmou publicamente (RTP) que o vão baixou para 540 metros, uma redução que vários responsáveis ligados ao estudo da CIP consideram que pode colocar definitivamente em causa a passagem e a operação de manobras dos grandes navios, bem como a operação a montante. Carlos Fernandes diz que o projecto prevê uma altura desde a água à parte inferior de 47 metros, enquanto a APL prevê 43 metros e os armadores fixam a altura em 50 metros».

Brincar aos soldadinhos

Ontem, foi noticiado que o príncipe Harry estaria no Afeganistão em serviço militar há pouco mais de dois meses. Hoje, o comando militar inglês mandou-o para casa. Acabou o recreio.

Infografismos

No jornal do costume, o porquê da sua infografia ser extraordinária [bold meu]: «Mr. Duenes manages the graphics department, a group of 30 journalists who research and create the diagrams, maps and charts for the newspaper and the Web site. He started at The Times in 1999 as the graphics editor for science. In 2001, he became the deputy graphics director, and in 2004, he became the graphics director».

Para acompanhar o almoço de domingo

Filipe Moura, no 5 dias, sobre uma lei que permite aos consumidores recusar o pagamento de aperitivos não expressamente pedidos nos restaurantes:

«Parece afinal que há uma lei (que ninguém conhece) que visa proteger os consumidores dos pequenos vigaristas, e que nunca é aplicada. Para os nossos grandes liberais, claro, só a “liberdade individual”, esse valor supremo, dos pequenos vigaristas, é que deve ser protegida e salvaguardada. O direito do consumidor a não ser vigarizado é responsabilidade dele próprio. É sempre assim – liberdade para o empresário, responsabilidade para os outros. Mesmo que a liberdade do empresário seja fazer vigarice. Gostaria de ver se algum liberal português defende isto no estrangeiro, ou se algum liberal estrangeiro gostou de ser vigarizado em Portugal».

One Laptop per Child

Hoje estive a explorar um destes: é simplesmente fantástico. O projecto One Laptop per Child mostra como um grupo de pessoas fortemente dedicadas, motivadas e competentes pode promover coisas extraordinárias.

Creches

Foi recentemente anunciada a decisão de construir 75 novas creches nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto com o objectivo de aproximar a sua taxa de cobertura deste tipo de equipamentos sociais (56%) à média nacional (77%).

Como pai que colocou recentemente o filho de 20 meses numa creche, sinto a obrigação de me substituir aos drs. Santana Lopes e Paulo Portas, que ontem, no debate Parlamentar dedicado ao tema, tiveram prestações lamentáveis. Esta medida agora anunciada deve ser acompanhada por outras que ajudem a promover a qualidade e a segurança do tempo passado pelas crianças nestes espaços. Cabe ao governo garantir isso mesmo.

1. É de importância fundamental definir rigorosa e inequivocamente como estes equipamentos são construídos. Na creche do meu filho, que entrou em funcionamento há seis meses, o espaço de recreio, à altura de um primeiro andar, não tinha vedação, o chão era de cimento e havia pilares de madeira assentes em estruturas de aço com parafusos à vista. Passei muitas horas a enviar cartas para aqui e para ali para garantir que estas falhas seriam corrigidas. Para alguns dos meus interlocutores neste processo, não parecia que estivéssemos perante um problema;

2. É obrigatório apostar na formação qualificada dos auxiliares de educação, que são quem efectivamente passa mais tempo com as crianças. A boa vontade e o “jeitinho” podem não ser suficientes para garantir um acompanhamento adequado numa altura tão importante no desenvolvimento das crianças;

3. Em colaboração com o Instituto Ricardo Jorge, fazer um levantamento exaustivo das práticas diárias nestes espaços que podem condicionar a saúde das crianças. Muitas das constipações, gastroentrites, e outros episódios frequentes seriam evitáveis com práticas mais cuidadosas. A formação das pessoas envolvidas no acompanhamento das crianças passaria igualmente por aqui. O impacto destas más práticas na saúde das crianças é evidente e reflecte-se, depois, em horas perdidas de trabalho dos pais e em idas desnecessárias aos centros de saúde;

4. Por último, uma maior proteção laboral aos pais que perante situações de doença dos filhos tenham que os acompanhar. E isto tem também muito a ver com o ponto anterior. Situações laborais precárias levam os pais, muitas vezes, a não poder acompanhar as crianças doentes e a deixá-las na creche, quando era aconselhável que não o fizessem.

Visões Úteis (post intimista)

Fico muito orgulhoso por um grupo muito especial de amigos ter construído um projecto como o Visões Úteis. As duas páginas que o suplemento P2 do Público de hoje dedica ao documentário “A Caminho do Resto do Mundo” sobre a cidade do Porto para lá da circunvalação vem reforçar esse sentimento.

Eu não assisti, como não assisti, aliás, à maior parte das produções ao longo dos últimos sete anos, mas a ideia de desenvolver uma peça de teatro - teatro in itinere, para ser mais preciso - tendo como cenário o interior de um táxi que circula pelos bairros mais esquecidos da cidade do Porto parece muito interessante. Parece-me a mim, e parece ao suplemento Y do Público que considerou o “Resto do Mundo” a quinta melhor produção teatral de 2007 vista em Portugal. É essa produção que serve agora de suporte, juntamente com imagens captadas por rapazes e raparigas desses bairros, ao documentário que vai ser apresentado no próximo Festival de Teatro de Expressão Ibérica.

À Ana, ao Carlos, à Catarina, ao Pedro, e a todos os que com eles têm colaborado ao longo dos últimos 13 anos, um abraço muito especial.

Peer pressure

Sexta-feira é dia de carnaval na creche e aos pais foi pedido que mascarassem os filhos. Que não é “obrigatório”, mas que todos as outras crianças da classe vão. Crianças essas que nem dois anos têm.

Hard-core

É uma comparação recorrente e ouvi-a este fim de semana, mais uma vez, num almoço de família. Dizem, alguns católicos, que alguns de nós, ocidentais, aceitamos melhor a intolerência do discurso religioso muçulmano do que a do católico. O exemplo recente põe lado a lado a crítica pública de alguns académicos da universidade La Sapienza a um discurso proferido nos anos 90 pelo então Cardeal Ratzinger - e que motivou a não comparência deste na universidade - e a aparente suavidade e coordialidade com que o presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, foi recebido, em Setembro último, nos Estados Unidos. Mas terá mesmo sido assim?

Não parece possível, mas Mahmoud Ahmadinejad estava lá. Aparece, encolhido, nos últimos segundos desta gravação* do discurso de recepção feito por Lee Bollinger, presidente da Columbia University, que o tinha convidado como orador. Uma coisa parece funcionar a seu favor, na comparação com Ratzinguer: aceitou o convite e compareceu, sabendo que não estava em território neutro. [* via ShizNoGud]

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