Geração espontânea de emigrantes portugueses no Reino Unido

Segundo a edição de hoje do Diário de Notícias, o número de emigrantes portugueses na Europa subiu 50% entre 2000 e 2006. Se em 2000 havia 419 mil portugueses a viver em países europeus, os 640 mil de 2006 indiciam, certamente, um êxodo só explicado pela “crise”. Mas há um problema. O crescimento de 50% citado pelo Diário de Notícias é espúrio e resulta, em grande parte, da falta de dados sobre o número de portugueses no Reino Unido em 2000.

Segundo uma tabela publicada na página 2 do DN, não havia emigrantes portugueses na nova pátria de Cristiano Ronaldo em 2000 e 2001, para logo de seguida, em 2002, passar a haver 94 mil. É aquilo a que se chama “geração espontânea de portugueses”.

Uma análise mais cuidada, contudo, permite estimar em 75-80 mil o número de portugueses no Reino Unido no ano de 2000 (assumindo um crescimento constante de 8-9 mil/ano). Assim, o número de emigrantes portugueses na Europa terá aumentado de 500 mil em 2000 para 640 mil em 2006, ou seja, terá crescido 28% e não os “catastróficos” 50%.

Abril

Este país não é para crianças

Foi difícil comprar bilhetes para um dos Concertos para a Família dos Dias da Música em Belém, no CCB. Na sexta-feira, a novíssima bilheteira online funcionava aos soluços, o número de telefone das informações não estava atribuído (vim depois a saber que em vez de 212… é 213…, embora ninguém tenha corrigido o erro durante os três dias que durou o programa). Acabei por ir a Belém: somos três, dois adultos e uma criança de 22 meses. O quê!?, uma criança de 22 meses paga bilhete? Sim, toda a gente paga, dizem-me. Adiante.

Domingo, 30 minutos antes da hora marcada para o concerto, ficamos a saber que afinal crianças até aos oito anos não pagam e devolvem-nos os três euros. Menos mal. O problema, agora, é transportar um carrinho de bebé para a sala Almada Negreiros. Há algumas rampas, mas por razões misteriosas nem todas as escadas as têm. O teletransporte ainda não é uma realidade e carregá-los é connosco (há competências que se adquirem excusivamente com a paternidade). Está quase.

Ops!, “não são permitidos carrinhos de bebé nesta sala, é favor voltar para trás (escadas-sem-rampa) e deixá-lo no bengaleiro”. No way, minha senhora; as famílias, sabe, fazem-se transportar com estes objectos, portanto, se não se importa, o carrinho fica aqui mesmo (ao meu lado, a um outro pai é dito que sim, que são permitidos carrinhos de bebé na sala - as arbitrariedades do costume).

Finalmente, estamos na sala. É-nos pedido para irmos para as últimas filas. Somos uma família, este é um dos vários Concertos para a Família que constam no programa, mas as filas da frente são para quem não tem crianças. Cinco minutos depois do trio nova-iorquino de jazz ter iniciado a performance, não há criança que resista ao fascínio pelo contrabaixo e a frente de palco é okupada. Ouvem atentamente, até que uma ou outra chama pela mãe ou pede uma bolacha. Shiu, shiu!, ouve-se vindo da secção dos pseudo-puristas. Sai a primeira da sala, sai a segunda, é um incómodo ser criança.

Lonely chicks

Segundo a CNN, Thomas Kohnstamm, autor que contribuiu para 12 dos guias de viagem da Lonely Planet, disse à imprensa australiana: «They [Lonely Planet] didn’t pay me enough to go to Colombia. I wrote the book in San Francisco. I got the information from a chick I was dating who was an intern in the Colombian consulate».

Percebo melhor agora a motivação para esta capa.

As palavras são importantes

Num artigo inicialmente publicado no Diário de Notícias e republicado no 5 dias, Fernada Câncio escreve um parágrafo que em muitos países já não faz sentido. Em Portugal, é urgente reescrevê-lo:

«Ter consciência disso e tentar expurgar a linguagem, a fala, deste tipo de referências discriminatórias [chamar “preto” a Tiago, um míudo de 10 anos] é a essência daquilo a que se deu, nos EUA, o nome de “politicamente correcto”. A expressão nasceu da noção de que a linguagem não é neutra – é, evidentemente, política. É um campo de batalha no qual o que se diz não só faz diferença para os outros como para o próprio: reprimir palavras, noções e referência discriminatórias cria uma outra forma de ver e pensar o mundo. Esta reeducação voluntária, este esforço de não agressão, foram ridicularizados e atacados pela direita americana e depois pelas várias direitas, comparados a uma ditadura e agregados à linguagem totalitária referida por Orwell na obra 1984 – a “novilíngua”. Numa espantosa inversão de papéis, quem usa linguagem discriminatória e ofensiva surge como necessitado de protecção e apresenta-se o politicamente correcto como um atentado à liberdade de expressão e pensamento».

Não foi preciso muito tempo para me (re)lembrar como a linguagem corrente, em Portugal, é profundamente discriminatória. Um almoço numa cervejaria, poucas semanas depois de regressar, foi suficiente: Um empregado pede a outro que limpe o chão junto a uma das mesas. Pouco agradado com o pedido, o segundo responde, em voz alta, que “não é preto” e que os “pretos estão lá dentro”, apontando para a cozinha, onde três cozinheiras negras preparam a comida. Os outros empregados riem, alguns dos clientes riem, as cozinheiras baixam a cabeça - em sítios destes, aliás, raramente as levantam - e a vida continua.

Gang ranking

Quando algo semelhante a isto acontecer em Portugal - sim, porque ao ritmo a que as coisas se passam, sei lá, meu deus, deve estar para breve - é que os jornalistas do Correio da Manhã e do 24 Horas vão salivar.

Anti-americanismo doméstico: dedicado a JPP e JMF

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[A federação norte-americana de baseball tem estado atenta aos vídeos que são colocados no Youtube e garantido que são retirados por “violação dos direitos de autor”. Como não tenho disponibilidade para editar este post com o último link disponível, convido o leitor mais curioso a procurar por “Bush booed” no motor de pesquisa do Youtube se o vídeo em cima tiver sido retirado.]

Calçada Portuguesa, literalmente

Ora aqui está uma visão sobre a calçada portuguesa que partilho inteiramente.

PSD: Mudar Portugal

A América que a Atlântico teima em ignorar

As senhoras e os senhores da Atlântico são peritos em difundir mitos sobre a forma como o Estado e a Sociedade norte-americana estão organizados. O último, refere-se ao financiamento estatal de organizações da sociedade civil. Para Pedro Marques Lopes, nos Estados Unidos, essas organizações vivem sem a ajuda do Estado:

Ou seja, não fosse o bendito Estado e não havia maneira de as pessoas [em Portugal] se organizarem em função dos seus interesses. Os Ingleses e os Americanos sim, são capazes“.

Comecemos por aqui (formato PDF). Este documento, produzido pela Casa Branca, lista, nas suas 85 páginas, oportunidades de financiamento federal para associações de cidadãos. Na página 17 - e já que foi o financiamento às associações de pais a motivar a discussão - escreve-se o seguinte sobre o programa de financiamento do Departamento de Educação às associações de pais:

«The purpose of this program is to support parental assistance and resource centers that provide training, information and support to parents of children through school age […] Nonprofit organizations, including faith-based organizations, are eligible to apply».

Pergunta: Quanto dinheiro alocou o orçamento federal norte-americano para a rubrica em cima, em 2006?

Resposta: 39 milhões e seiscentos mil dólares.

O pior de dois mundos: EUA e Portugal

Em resposta a Rudy Giuliani, que alertou para a ameaça ao sistema de saúde norte-americano que uma vitória democrata representaria, Paul Krugman publicou o gráfico em baixo para ilustrar que o sistema de saúde dos Estados Unidos é pior, muito pior, que os de outros países desenvolvidos, sistemas esses menos controlados pelas seguradoras.

A medida “Mortality Amenable to Health Care“, quantifica as mortes de pessoas com menos de 75 anos que poderiam ser evitadas se o sistema de saúde fosse mais rápido e eficiente. Obviamente, e isto Paul Krugman falha em referir, a rapidez e eficiença de um sistema não correlaciona, necessariamente, com o seu tipo de gestão mais ou menos privatizado. Portugal, que vem logo a seguir aos EUA e que tem um sistema quase ortogonal ao deste, é a prova disso mesmo.

[Ellen Nolte, Ph.D. e C. Martin McKee, M.D., D.Sc., London School of Hygiene and Tropical Medicine]