Expresso: Cientistas em Portugal
A edição de amanhã do Expresso destaca a actividade científica em Portugal e compara-a com a de outros países. Constata o óbvio, que a ciência, por aqui, é na sua maioria feita nas universidades e organismos públicos e vai à procura das empresas portuguesas que mais apostam em ciência e tecnologia. Um tema interessante, que motiva um breve comentário sobre o enorme potencial que gerámos na última década, que aqui deixo.
Há muitos anos que a fórmula para o sucesso é a mesma: promover a inovação e o desenvolvimento científico e tecnológico de Portugal. Algumas coisas têm sido bem feitas, outras nem por isso.
O número de bolsas de doutoramento atribuídas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia cresceu quase 50% em 12 anos, sinal evidente que se apostou muito na formação qualificada de recursos humanos. Mas esse investimento não foi acompanhado por políticas necessárias para o aproveitamento do potencial que gerou.
As universidades resistem às transformações e o Estatuto da Carreira Docente Universitária continua sem ser revisto, alimentado o inbreeding — uma das características das universidades portuguesas que mais minam a actividade científica de qualidade. As tentativas de dinamizar a ciência através, por exemplo, da criação dos Laboratórios Associados, ou do Programa Ciência 2007, pecam pela falta de sustentação. No primeiro caso, depois de uma explosão na criação de laboratórios, as regras de financimanto deterioraram-se e o futuro deste modelo é incerto. No segundo, contratar centenas de novos cientistas é uma ideia excelente, mas não se percebe porque não fazê-lo de forma sustentada e intervalada. De repente, abriu-se uma janela de oportunidade que se fechou logo a seguir. Quem na altura (primeiro semestre de 2007) estivesse ainda numa fase importante da sua formação, tem agora que aguardar por outro programa semelhante que não se sabe se acontecerá este ano, para o ano, ou nunca mais.
Fora das universidades e laboratórios públicos, a actividade científica ainda é reduzida. Aqui, é a transformação do tecido económico português que alimenta a aposta das empresas na inovação e contratação de recursos humanos qualificados, que por sua vez promovem essa transformação: as indústrias farmacêutica, vinícola, biomédica e de aplicações informáticas estão na vanguarda da inovação em Portugal, mas a esmagadora maioria das empresas resiste à ideia que um doutorado é uma mais-valia.
Durante os últimos sete ou oito anos, a Portuguese American Postgraduate Society (PAPS) tem vindo a promover, nos EUA, fóruns de discussão sobre Ciência, Tecnologia e Inovação. Um dos diagnósticos começa a ganhar cada vez mais relevância: mais do que a falta de investimento, é a forma pouco sustentada como o investimento é promovido que dificulta o aproveitamento do enorme potencial de recursos humanos qualificados que Portugal gerou na última década.
[Este post surge no seguimento de um pedido de colaboração por parte do semanário Expresso, que me permitirá, juntamente com outros bloggers portugueses, divulgar e comentar antecipadamente alguns dos temas da próxima edição do jornal.]
Expresso: Crise no PSD
Dos temas que o Expresso abordará na edição em papel de Sábado, realço o destaque dado à actual crise do PSD:
«O ex-ministro da Justiça de Santana Lopes, José Pedro Aguiar Branco, quer directas até final do ano para derrubar Menezes da presidência do PSD. Com menos de um ano de liderança e a pouco mais de um ano das legislativas o Expresso interroga-se sobre a legitimidade de Luís Filipe Menezes enquanto líder do PSD – se continua intacta ou não – e sobre a necessidade ou legitimidade de este ser substituído pelos seus críticos. Para onde vai o principal partido da oposição se não consegue livrar-se de sucessivas crises internas? Como pode funcionar a democracia se os partidos dos chamado “arco do Poder” não conseguem afirmar-se? Os problemas internos são reflexo de insuficiências próprias ou provocados pela estratégia do PS?»
O problema sobre a legitimidade de Luís Filipe Menezes enquanto líder do PSD não deve ser colocado. Ela existe e deve respeitada. O mesmo não se poderá dizer sobre a sua credibilidade enquanto tal [leitura importante: nota mental sobre publicação de posts]. Mas o problema do PSD é bem mais profundo do que a falta de credibilidade do seu líder, e nem sequer é um exclusivo seu.
A forma como os partidos políticos portugueses estão organizados potencia o tipo de crise que o PSD atravessa actualmente. O problema reside, em grande parte, na ausência de grupos de estudo e reflexão que funcionem autonoma e independentemente das estruturas dirigentes. Grupos que produzam informação, que estimulem o debate político, que inovem e promovam a renovação. É a ausência destas estruturas que permite que o PSD de hoje seja muito diferente do PSD de Marques Mendes, que, por sua vez, já o era do de Durão Barroso.
O resultado deste vazio de discussão interna, de compromisso com uma matriz política sustentada na reflexão, é que novos líderes significa, por regra, novos partidos, não novas formas de gerir o mesmo partido. O CDS de Portas não é o mesmo partido de Ribeiro e Castro e o mesmo se pode dizer quando se compara o PS de José Sócrates ao de Ferro Rodrigues.
Dos partidos com representação parlamentar, só os dois mais à esquerda estão imunes a este tipo de crises, mas não pelas melhores razões. O Bloco de Esquerda, porque mantém o mesmo líder desde a sua fundação e não há indícios de renovação. O PCP, porque se mantém fiel a uma doutrina imutável.
[Este post surge no seguimento de um pedido de colaboração por parte do semanário Expresso, que me permitirá, juntamente com outros bloggers portugueses, divulgar antecipadamente alguns dos temas da próxima edição do jornal.]
Expresso: Yuri Kozyrev

Yuri Kozyrev é fotojornalista, essencialmente focado em cenários de conflitos armados. Nos últimos 20 anos, fez a cobertura da maior parte dos conflitos na ex-União Soviética. Actualmente, vive no Iraque, onde trabalha para a revista TIME. Na edição de amanhã do Expresso, pode-se ler uma entrevista onde para «além do seu trabalho enquanto jornalista no Iraque, se discute o lugar das grandes reportagens fotográficas nos dias de hoje».
[Este post surge no seguimento de um pedido de colaboração por parte do semanário Expresso, que me permitirá, juntamente com outros bloggers portugueses, divulgar antecipadamente alguns dos temas da próxima edição do jornal.]



