Terá mesmo chegado ao fim? (2)

Será muito difícil a Hillary Clinton garantir a nomeação, mesmo que vença por muito na Virgínia Ocidental e no Kentucky. É o próprio Jay Cost quem o diz no artigo que refiro no post anterior. Mas as primárias não chegaram ao fim. E Clinton, menos ainda.

Primeiro, seria um disparate ignorar os eleitores nos quatro estados que faltam. Afinal, e desde sempre, a maior crítica às primárias tem sido o facto de o nomeado ser escolhido pelos estados que votam até à Super Tuesday, altura pela qual tudo costuma ficar resolvido. Pela primeira vez, existe a possibilidade de os eleitores dos 50 estados participarem activamente na escolha. E este património de motivação das bases é algo que será fundamental em Novembro.

Segundo, e no seguimento do ponto anterior, Florida e Michigan acabarão por ter os seus delegados representados na convenção, com maior ou menor peso. São dois estados muito importantes em Novembro para ficarem de fora agora.

Terceiro, Clinton poderá vir a ter na Virgínia Ocidental e no Kentucky duas das três melhores perfomances eleitorais em todo o processo. Ninguém, no seu juízo completo, abandonaria a corrida dias antes de vitórias dessa dimensão.

Quarto, é impossível ignorar o facto de Clinton, mesmo ficando em segundo, ir ser representada na convenção por quase metade dos delegados e ter reunido 48% dos votos populares.

Quinto, as bases Democratas estão de tal forma demograficamente divididas que é necessário garantir que o processo de nomeação não põe em risco a unidade do partido para Novembro.

Dito isto, Hillary Clinton ainda terá um peso muito grande no processo de nomeação dos candidatos Democratas. No limite, poderá mesmo vir a ser escolhida para a vice-presidência. Vice-presidência essa que Dick Cheney já demonstrou poder ser mais poderosa do que é historicamente reconhecido.

Terá mesmo chegado ao fim?

Primeiro, o disclaimer:

«As those who know me in personal life can attest, I am a contrarian. For better or worse, when I see everybody looking right, the first thought in my head is, “What’s over there on the left?” So, the following might just be a product of my contrarian instincts, but I have to say that I just can’t get to where most everybody is on this race».

Depois, o reasoning:

«West Virginia is 95% white, and one of the poorest states in the nation. Demographically, Pennsylvania’s twelfth congressional district is a decent proxy of it. Clinton won Pennsylvania’s twelfth by 46 points. A recent Rasmussen survey put her up 29 points in the Mountaineer State, with 17% undecided. Another poll had her up 40 points, with Obama under 25%.

Kentucky is not as poor or as white as West Virginia, but it is nearly so. Demographically, Kentucky falls somewhere between Ohio’s sixth congressional district, which went for Clinton by 45 points, and the seventeenth, which went for her by 28 points. A recent Survey USA poll of the Bluegrass State had her up 34 points - with a staggering 72 point lead in the east, where Obama was winning less than 20% of the vote. Rasmussen recently had her up 25 points with 13% undecided».

Finalmente, a conclusão:

«Minimally, I will predict that West Virginia will be either her best or her second best finish, behind only Arkansas. Kentucky should come in right behind the two. This alone should be enough to induce some caution. I think it is too hasty to declare her finished just days before two of her three best states».

Por Jay Cost, obviamente.

Now what?

Os resultados das primárias democratas de ontem reforçam a tese que a campanha eleitoral tem tido muito pouca relevância para a dinâmica demográfica do processo. A atitude mais agressiva de Hillary ou o resurgimento do reverendo Wright acabam por ter, efectivamente, impacto residual na escolha dos eleitores. Desde 5 de Fevereiro — dia da Super Tuesday — que Hillary Clinton ganha junto das mulheres, dos brancos operários e dos hispânicos, enquanto Obama capta os votos dos afro-americanos, dos jovens e dos brancos qualificados e abastados. Tivesse o partido democrata capacidade de coligar estas demografias e John McCain arriscar-se-ia a perder nos 50 estados em Novembro.

Hoje, restam 230 superdelegados que ainda não anunciaram a sua intenção de voto. Entre eles, estão Al Gore, John Edwards, Howard Dean, Nanci Pelosi, Donna Brazile e outras figuras nacionais do partido, mas a grande maioria são congressistas, senadores e dirigentes locais. Para os últimos, o dilema tem sido escolher entre a maior elegibilidade de Clinton e a preferência dos seus constituintes. Para os primeiros, o receio de fracturarem o partido tem-nos mantido na expectativa. Por exemplo, Donna Brazile, ontem, na CNN, corrigiu alguém do painel que a classificou de “indecisa” dizendo que era “não declarada”.

Howard Dean já avisou que é desejável que os superdelegados declarem a sua preferência até 3 de Junho, dia das últimas primárias. Mas com a questão de Florida e Michigan ainda em aberto, com os delegados que John Edwards leva à convenção sem orientação de voto, e com superdelegados com receio de partir a loiça (ler aqui), o mais certo é que a decisão seja o resultado de um compromisso de bastidores. Talvez, só talvez, o Dream Ticket ainda seja possível. Afinal, mais do que o partido democrata, é o futuro dos Estados Unidos que está em causa.

Os dilemas dos superdelegados

Seguem-se afirmações de alguns dos 230 superdelegados à convenção do partido democrata ainda não declarados. [Fonte: New York Times]

Margaret Campbell, Party official, Mont.
«It’s been emotional, it’s been frustrating. It has been very frustrating. It is a huge responsibility».

Thomas R. Carper, Senator, Del.
«I frankly don’t care a lot who ends up at the top of the ticket, but I hope at the end of the day they could be convinced to run together».

James E. Clyburn, Representative, S.C.
«I still remain studiously neutral. I think that the historical significance of so-called superdelegates — these are unpledged delegates — is very, very important for us to maintain. We are in place in order to either extend the wishes of the voters or to try to make corrections if they need to be made».

Gilda Cobb-Hunter, Party official, S.C.
«I’m undeclared because I think it’s important for the process to play itself out. I don’t see inserting myself into the process. I’m not interested in being wooed. I’m not important».

Peter A. DeFazio, Representative, Ore.
«This has never come up in my political lifetime. I have no idea how this will play out».

Russ Feingold, Senator, Wis.
«I’m having a hard time deciding between Hillary Clinton and Barack Obama, as are many people. Those are the two I take the most seriously. I go back and forth, to be honest with you. I’m torn on this whole issue of who’s more likely to be progressive and really seek change vs. who’s ready to do the job today. It really is a true dilemma in my mind».

Tom Harkin, Senator, Iowa
«I haven’t made up my mind yet. I’m still neutral in this race, and I intend to remain that way».

Awais Khaleel, Party official, Wis.
«I don ‘t think anybody my age, 23 years old, expects to be this deep in the process right now».

James Roosevelt, Party official, Mass.
«I would urge superdelegates who are undecided to wait and see to get a better gauge of electability of the candidates».

Um novo partido democrata?

Donna Brazile acaba de afirmar, na CNN, que a nova demografia do partido democrata é mais urbana e suburbana e menos blue-collar. Jay Cost, num artigo que aqui citei, escreveu: «the point here is simply that an Obama victory [in November] might look like something we’ve never seen before». Se eu fosse um dos superdelegados indecisos, esta era a questão que eu queria ver esclarecida.

Roda livre

Até ao momento, parece certo que Clinton vence em Indiana e perde na Carolina do Norte. A margem da derrota no último será, muito provavelmente, superior à margem da vitória no primeiro. As demografias-tipo nos dois Estados são muito diferentes e, neste momento, já só o argumento da elegibilidade poderá manter vivas as apirações de Hillary. Falta saber se os 230 superdelegados ainda indecisos o consideram mais importante do que outros argumentos. Sobre isto, um post mais detalhado amanhã.

Exit polls

A CNN, ainda a sofrer do trauma Projecção-Gore-Vencedor-Florida-2000, recusa-se a declarar vencedores a menos que as diferenças nas projecções sejam superiores a dez pontos. Mas as exit polls têm ajudado a antecipar, com alguma precisão, os vencedores e as margens de vitória. Estas são as minhas previsões a partir da análise desses dados:

Indiana: Clinton 52-55%; Obama 45-48%

Carolina do Norte: Obama 55-58%; Clinton 42-45%

Jay Cost

Jay Cost é doutorando em Ciências Políticas na Universidade de Chicago. Nos últimos meses, tem escrito alguns dos mais interessantes artigos sobre a dinâmica demográfica das eleições primárias norte-americanas, principalmente no campo Democrata. Este artigo — “Reflections on the Democratic Race” — é, na minha opinião, o mais importante e acutilante de todos. Um excerto:

«I think his [Obama’s] foresight to organize the caucus states has served him doubly well. Not only has it given him a large delegate lead compared to a modest popular vote lead - it has served as protection against political peril. My sense is that with Ohio, Pennsylvania, and then Wright - superdelegates would be flocking to Clinton if it were not for his caucus victories».

Carolina do Norte e Indiana

A menos que algo de muito extraordinário aconteça logo à noite, a campanha dos dois candidatos Democratas vai continuar. As sondagens dão uma vantagem média de cinco pontos a Clinton no Indiana e de sete pontos a Obama na Carolina do Norte. Só vitórias convincentes em ambos os Estados darão aos superdelegados argumentos fortes para escolherem um ou outro. Howard Dean já lhes pediu que se comprometam até ao dia da última primária, a 3 de Junho.

Com resultados eleitorais que mais parecem empates, será a forma como a campanha é conduzida a justificar as decisões dos superdelegados. O negativismo nos últimos dias de Clinton e o regresso do Reverendo Wright são exemplos do que pode determinar as escolhas. Mas há quem apele aos superdelegados para tomarem mais atenção à elegibilidade dos candidatos. Segundo o sítio electoral-vote.com, esta seria a configuração do colégio eleitoral se as eleições fossem hoje:

Obama 264 - McCain 263 - Empate 11 (mapa aqui, evolução por Estado aqui)
Clinton 291 - McCain 236 - Empate 11 (mapa aqui, evolução por Estado aqui)

O gap da dor

Um estudo conduzido por Alan Krueger, professor de economia em Princeton, e Arthur Stone, professor de psiquiatria em Stony Brook, encontrou uma divisão económica para a incidência da dor nos norte-americanos: «People in households making less than $30,000 a year spend almost 20 percent of their time in moderate to severe pain, compared with less than 8 percent for those in households with income above $100,000 a year». Mas não é só a incidência que é reveladora da divisão. As suas causas ilustram a diferença na qualidade de vida: nos mais pobres, a dor resulta, em grande parte, da actividade profissional; nos mais ricos, de práticas desportivas.

John McCain?

Ninguém reparou, porque de facto o interesse está todo do lado Democrata, embora haja quem lhe chame desgaste. Ninguém reparou, dizia eu, mas na passada terça-feira, para além das primárias Democratas na Pensilvânia, houve também primárias Republicanas. No boletim de voto constavam John McCain, mas também Ron Paul e Mike Huckabee. Votaram 807 mil Republicanos, o que é um número surpreendente tendo em conta que o Senador do Arizona já reuniu o número de delegados suficientes para garantir a nomeação. Mas mais surpreendente é que desses 807 mil, 220 mil tiveram a preocupação de ir às urnas votar em Paul ou Huckabee. Contra o escolhido McCain, portanto.

As três eleições de Novembro nos Estados Unidos

Em Novembro, para além de escolherem o Presidente, os norte-americanos votarão para eleger 35 dos 100 Senadores e os ocupantes de todos os 435 lugares da Câmara dos Representantes.

Nas últimas eleições intercalares, em 2006, os Democratas recuperaram o controlo da Câmara dos Representantes, maioritariamente Republicana nos 12 anos anteriores, e o crédito foi atribuído à estratégia de Howard Dean, o chairman do partido. Até aí, era prática comum fazer-se campanha só em círculos eleitorais com alguma tradição de vitórias Democratas.

Howard Dean, certamente motivado pelo que lhe tinha sido dado a conhecer durante a sua campanha para as primárias de 2004, campanha essa sustentada pelas bases, decidiu alargar o apoio do partido a todo o território nacional, tendo sido na altura acusado de dispersar recursos. O resultado, esse, não poderia ter sido melhor, e os críticos calaram-se. Foram ganhos 31 lugares, alguns deles em círculos nunca imaginados, e a Câmara dos Representantes voltou a ter maioria Democrata.

A vitória nas primárias de ontem de Hillary Clinton pela margem psicológica dos dez pontos percentuais alimentará, pelo menos por mais algumas semanas, a disputa eleitoral. Muitos consideram esta indecisão prejudicial aos Democratas porque permite ao GOP focar recursos num único candidato, ao mesmo tempo que Clinton e Obama se desgastam. Mas esta análise falha em dois pontos essenciais e ignora um terceiro:

Primeiro, as primárias Democratas continuam a trazer às urnas um número recorde de eleitores. Ontem, na Pensilvânia, voltou a acontecer. Em Novembro, será muito difícil vencer se as bases não estiverem comprometidas com a campanha. Se a decisão já estivesse tomada, muitos destes eleitores que têm participado no processo pós-SuperTuesday não estariam tão motivados.

Em segundo lugar, à medida que a campanha Democrata prossegue, a plataforma política para Novembro, independentemente de quem for o candidato escolhido, vai sendo moldada pela dinâmica eleitoral, respondendo melhor às preocupações de todos os norte-americanos, e não só daqueles que votaram em Iowa ou New Hampshire. As vantagens de uma plataforma mais abragente são óbvias.

Por último, os que consideram esta indecisão negativa para os Democratas, esquecem-se do impacto que uma campanha intensa nos Estados pós-SuperTuesday terá nas outras duas eleições de Novembro: para o Senado e, principalmente, para a Câmara dos Representantes.

Pensilvânia: colégio eleitoral

Uma vitória de Hillary Clinton por mais de dez pontos percentuais nas primárias Democratas de hoje alimentará por mais algum tempo a ideia que ela é a mais elegível dos dois candidatos. As últimas sondagens dão-lhe uma margem de seis pontos, mas a volatilidade é máxima.

Desde que aqui publiquei uma projecção de resultados do colégio eleitoral para os cenários Clinton vs. McCain e Obama vs. McCain, tem havido flutuações consideráveis. O elemento comum, e expectável, é que o resultado final, mais uma vez, depende fortemente dos resultados em pouco mais do que dez dos Estados. Basicamente, todas as vitórias de Obama no Sul, com excepção da Carolina do Sul, representarão pouco nas eleições de Novembro. Ohio, Florida, Missouri, Minnesota, Wisconsin, Washington, Oregon, Nevada, Colorado, Novo México, Carolinas (?) e Novo Hampshire são os actuais battleground states. Mas ainda faltam sete meses.

As projecções para o colégio eleitoral, segundo o sítio electoral-vote.com, são as seguintes:
Obama 269 - McCain 254 - Empate 15 (mapa aqui)
Clinton 289 - McCain 239 - Empate 10 (mapa aqui)

Obama liberal ou conservador?

O Nuno Gouveia tem feito um acompanhamento notável das eleições norte-americanas. Foi através do seu blogue e dos comentários a alguns dos posts aí escritos que tive conhecimento da mais recente polémica da campanha.

Num discurso em San Francisco vedado à comunicação social e perante multi-milionários norte-americanos, Barack Obama terá afirmado, referindo-se à dificuldade da sua campanha em fazer chegar a mensagem política à classe operária da Pennsylvania:

«You go into these small towns in Pennsylvania and, like a lot of small towns in the Midwest, the jobs have been gone now for 25 years and nothing’s replaced them. […] And they fell through the Clinton administration and the Bush administration, and each successive administration has said that somehow these communities are gonna regenerate, and they have not. […] And it’s not surprising then they get bitter, they cling to guns or religion or antipathy to people who aren’t like them or anti-immigrant sentiment or anti-trade sentiment as a way to explain their frustrations».

Muitos interpretam estas palavras como um sinal claro que Barack Obama é um liberal. Afinal, a dificuldade que este diz sentir é aquela que o partido Democrata tem várias vezes enfrentado: embora o discurso político dos Democratas - e a sua prática (mais sobre isto aqui e aqui) - seja no sentido de promover o bem estar e a segurança económica da classe média, esta é mais solidária com a plataforma política do partido Republicano. Um exemplo pessoal, meramente ilustrativo: em 2004, os pais de um colega meu diziam-me que embora não se sentissem confortáveis com muitas das políticas da administração Bush não poderiam votar num partido que defende o aborto.

Voltando às palavras de Obama. Dois apontamentos. Primeiro, é de estranhar a ausência de referências a Ronald Reagan - ou melhor, ela está lá, mas disfarçada («for 25 years»). Afinal, a “revolução Republicana” foi iniciada por Reagan e o panorma político actual ainda é um seu reflexo. Mais: as políticas económicas dos anos 80 tiveram um impacto negativo na classe média que só foi mimimizado pela singularidade dos anos 90. Em segundo lugar, Barack Obama não é um liberal, longe disso (o discurso foi feito perante liberais multi-milionários de San Francisco, que são uma espécie de eleitores muito peculiares). Ao longo da sua carreira enquanto Senador em Washington, Obama teve um registo de voto dos mais conservadores entre os Democratas. Parece contra-intuitivo, de facto, tantas foram as vezes que ouvimos dizer “Obama é liberal”, mas leia-se este texto e atente-se na tabela aí apresentada.

Gang ranking

Quando algo semelhante a isto acontecer em Portugal - sim, porque ao ritmo a que as coisas se passam, sei lá, meu deus, deve estar para breve - é que os jornalistas do Correio da Manhã e do 24 Horas vão salivar.

Anti-americanismo doméstico: dedicado a JPP e JMF

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[A federação norte-americana de baseball tem estado atenta aos vídeos que são colocados no Youtube e garantido que são retirados por “violação dos direitos de autor”. Como não tenho disponibilidade para editar este post com o último link disponível, convido o leitor mais curioso a procurar por “Bush booed” no motor de pesquisa do Youtube se o vídeo em cima tiver sido retirado.]

Colégio Eleitoral

Segundo o sítio electoral-vote.com, estes são os actuais cenários para o colégio eleitoral:

Obama 228 - McCain 301 - Empate 9 (mapa aqui)

Clinton 246 - McCain 248 - Empate 44 (mapa aqui)

Basta olhar para os dois mapas para perceber que o resultado das eleições de Novembro vai ser determinado pelo que acontecer nos mesmos 10 ou 15 Estados de sempre. Só a Carolina do Sul - caso Obama seja o nomeado Democrata - é que não está habituada a este estatuto de swing state.

Inversão do tempo

Spare change?

[Clicar na figura para ampliar]

A História diz-nos que Martin Luther King lutou arduamente pelos direitos civis, luta essa que motivou a aprovação pelo Congresso norte-americano do “Civil Rights Act” de 1964. Quatro anos depois, foi assassinado. O que é raramente referido, e a memória colectiva não reteve, é o que MLK fez entre 1965 e 1968.

Pouco meses antes de assassinado em Memphis, King e a Southern Christian Leadership Conference organizaram a Poor People’s Campaign que teve o seu momento mais visível numa marcha em Washington, D.C.. Durante a campanha, foi exigida mais justiça económica para as comunidades pobres dos Estados Unidos. MLK sabia que as recentes leis anti-discriminação significavam muito pouco para aqueles que nada tinham. O objectivo primeiro da campanha era a aprovação pelo Congresso da “Poor People’s Bill of Rights”, o que nunca veio a acontecer.

No final dos anos 60, a pobreza nos Estados Unidos atingia muitos afro-americanos, mas também as comunidades rurais caucasianas dos Apalaches (Georgia, Carolinas, Virgínias), as comunidades emergentes de hispânicos ao longo dos estados-fronteira (Sul da Califórnia, Arizona, Novo México, Texas) e a maioria dos indío-americanos.

Há alguns dias, Barack Obama fez um discurso sobre a “racial divide”. Muitos viram neste discurso uma personificação de MLK, louvando a coragem do acto. De repente, estávamos em 1965 e era como se nada tivesse acontecido nos Estados Unidos nos últimos 40 anos. Obama é um orador estupendo: é cativante, apelativo, energético. E o tema da “racial divide” é apaixonante. Mas é o tema errado para o actual contexto. E por isso, não posso deixar de ver neste discurso uma justificação sofisticada para a sua associação ao Reverendo Wright.

Do que Obama podia ter falado de forma mais clara é da “economical divide”. Daquilo que motivou MLK nos últimos três anos de vida, Robert Kennedy nas primárias Democratas de 1968 e John Edwards nos últimos dois anos. A discriminação económica é uma realidade nos EUA. Atinge principalmente afro-americanos, hispânicos e indío-americanos, mas também asiáticos e caucasianos. Reduzir os conflitos sociais nos EUA às diferenças étnicas é ficar um passo aquém do necessário. Como em 1968.

America

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Pode estar a viver uma das suas maiores crises financeiras, de luto por uma guerra que é um equívoco e de costas para a doutrina política de um dos menos populares presidentes da sua história, mas quando aqui se chega continua a sentir-se aquela Serenidade que não sente em mais lado nenhum do mundo com densidade populacional não desprezável.

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