O “actualmente”

Sobre o conflito entre uma aluna e a sua professora numa escola do Porto, já sabemos — e estávamos à espera — que os defensores do “antigamente” consideram as imagens ilustrativas da degradação do espaço escolar. Obviamente, estes conflitos não são exclusivos do “actualmente” e só uma variante de Alzheimer pode explicar o fenómeno de esquecimento colectivo a que estamos a assistir. (Abstenho-me de descrever, por serem exemplos extremos, os conflitos típicos nas salas de aula de uma escola de Setúbal que frequentei, mas o João Pinto e Castro e o Miguel Abrantes lembram outros mais comuns.)

Talvez fosse interessante discutir o que aconteceu depois. A professora, certamente incomodada, não comunicou o sucedido à Escola. Segundo o Expresso, o conselho directivo desta veio a saber através da DREN, que por sua vez teve conhecimento através de um email. Ora, as escolas deviam ter — e não sei se esta em particular tem — estruturas competentes e de confiança a que os docentes possam recorrer com a maior das discrições quando sujeitos a situações desta natureza. Os ambientes escolares nunca serão isentos de conflitos — nem o eram “antigamente” — e é a forma como estes são resolvidos que ajuda a distinguir as boas das más escolas. Quanto menos localizada for a sua resolução, menos confiança será depositada no sistema e outros conflitos serão potenciados.

Enigma

No «Avante!» de hoje, Domingos Mealha escreve um longo artigo sobre a marcha dos professores. Começa assim: «A multidão que no sábado, feita rio em dia de chuva forte, desceu a Avenida da Liberdade (…)».

Não encontro consenso sobre o significado da expressão «feita rio em dia de chuva forte», pelo que deixo algumas alternativas:

1) É um piscar de olhos subtil ao Manuel Alegre;

2) Houve uma desatenção do revisor do «Avante!», que terá misturado um texto sobre as inundações em Setúbal com o da manifestação dos professores;

3) É uma metáfora: «feita rio (100 mil manifestantes) em dia de chuva forte (50 mil esperados)»;

4) É um exagero, na medida em que o céu esteve semi-nublado, mas confere-lhe uma dimensão dramática só ao nível dos clássicos;

5) Acompanhado à guitarra pelo Barata Moura, dá uma lindíssima cantiga de embalar.

[Este é mais um dos muitos textos anti-ME que não apresenta nenhuma alternativa às reformas propostas.]

Streamlining Math (às vezes designado por facilitismo)

Do NYTimes, sobre a necessidade de rever os curricula de matemática do ensino básico, nos Estados Unidos, para que estes se aproximem das top-performing nations:

«The panel said that math curriculums from preschool to eighth grade should be streamlined to focus on key skills. […] Closely tracking an influential 2006 report by the National Council of Teachers of Mathematics, the panel said that the math curriculum should include fewer topics, and then spend enough time on each of them to make it is learned in depth and need not be revisited in later grades. This is how top-performing nations approach the curriculum».

Streptococcus pyogenes

Quatro notas rápidas, que a febre não me permite muito mais:

1) Este post do João Pinto e Castro é brilhante.

2) Este post do Paulo Pinto Mascarenhas é absolutamente ridículo e fala por si. Alguma direita mais tradicional ainda tem muita dificuldade em lidar com alguns assuntos.

3) A PSP estimou em 80 mil o número de manifestantes de sábado. Os sindicatos dizem que foram 100 mil. Nestas alturas, as discrepâncias são expectáveis e naturais. O que já não é muito natural é o líder do maior partido da oposição, com ambição de poder, referir, no seu discurso, o número avançado pelos sindicatos em vez do número avançado pela PSP. Será isto o anunciado desmantelamento do Estado? [Actualização: A PSP acabou por admitir a presença de 100 mil manifestantes, corrigindo as suas estimativas iniciais, segundo esta notícia da Lusa. O meu comentário deixa, obviamente, de fazer sentido.]

4) A frase de ordem dos professores é: “Assim não se pode ser Professor”. Posso estar enganado — esta febre não me permite muito mais do que isto –, mas tenho a sensação que “Professor” se escreve “professor”.

A direita partidária é bipolar

Por um lado, defendem o rigor, chamam facilitismo às revisões curriculares, e acusam o Ministério de massificar o ensino público. Por outro, colocam-se ao lado dos sindicatos num ataque desmesurado ao principal instrumento de garantia de qualidade no ensino público.

Que outro mecanismo temos à nossa disposição para medir a eficiência na transmissão dos conteúdos, para além da avaliação da capacidade pedagógica de quem os transmite? A avaliação não existe para atacar a dignidade dos professores, como muita vezes se ouviu hoje. Está lá, isso sim, para os ajudar a ser melhores profissionais.

Pensei que a direita partidária portuguesa fosse apologista da excelência.

Afinal, quem tem andado a tapar os ouvidos?

O Expresso do passado Sábado deu o mote, ao publicar, na primeira página, um “fluxograma” do processo de avaliação dos professores, sabendo, no entanto, que esse não era da responsabilidade do Ministério da Educação. Quinta-feira, foi a vez da Visão produzir uma capa maldosa, como só o novo jornalismo português consegue ser. Mas além de maldosa, é profundamente injusta. Perante o actual ambiente de contestação, a ministra tem-se desdobrado em entrevistas, esclarecendo, sempre de forma muito clara, as dúvidas sobre o processo de avaliação. A Grande Entrevista de ontem, na RTP1, foi mais um dos exemplos recentes. Se há alguém que insiste em manter os ouvidos tapados, esses são os professores e, muito principalmente, os agentes sindicais que se dizem representá-los.