E os adultos?

Excerto da entrevista a James P. Evans, professor de genética na University of North Carolina em Chapel Hill, publicada no último suplemento de ciência do New York Times — aos fins de semana, o professor Evans ensina genética aos juízes norte-americanos, integrado no programa Advanced Science and Technology Adjudication:

«[Q.] Why do Judges need to know their genetics?

[A.] Because they are frequently trying cases that hinge on genetics. And many don’t know what DNA is. They may have a rough idea. But they don’t understand the fine points. (…) Many of the judges say that they fear their lack of scientific knowledge could cause them to make mistakes

Nos últimos dias, tem-se debatido muito, aqui e noutros sítios, sobre os índices de literacia científica dos estudantes de 15 anos.

Mas o que podemos nós dizer sobre as actuais gerações de líderes? Em Portugal, qual é o nível de literacia científica dos juízes, dos deputados, dos governantes ou dos jornalistas, por exemplo? Estas são pessoas que, nas suas actividades profissionais, têm que decidir ou comentar sobre assuntos, muitos deles envolvendo conceitos científicos recentemente desenvolvidos. Estarão elas preparadas para lidar com este tipo de informação? Assumem as suas limitações? Pedem ajuda a alguém? A quem?

Literacia científica em Portugal (5)

De facto, esta nota é sobre literacia matemática aferida em 2003. No seu post mais recente, o Hugo ilustra a problemática desta discussão de forma muito clara:

«Comparemos um aluno português com um aluno norueguês no 5.º percentil, com scores médios de 329 e 328, respectivamente. Com este score, o aluno português frequenta com toda a probabilidade o 7.ºano de escolaridade, enquanto o norueguês (…) está no 10.º ano. O aluno português, apesar de ter um score superior ao do seu colega norueguês, corre um risco sério de não chegar ao fim da escolaridade obrigatória, porque já foi retido 3 vezes. O aluno norueguês revela dificuldades de aprendizagem, sim, mas já terminou a escolaridade obrigatória, e está provavelmente inscrito numa via profissionalizante do ensino secundário, que o equipa com uma qualificação importante para o mercado de trabalho. Este é um horizonte muito mais difuso para o português – ainda faltam 5 anos de uma experiência escolar até aqui marcada pelo insucesso constante.

Apetece dizer que, para valores idênticos/semelhantes, o sistema português tem uma preferência para a retenção – enquanto os outros países têm uma preferência para deixar o aluno seguir. Qual é aqui, afinal de contas, o sistema ‘facilitista’?»

Leituras complementares: Literacia científica em Portugal (1); Literacia científica em Portugal (2); Literacia científica em Portugal (3); Literacia científica em Portugal (4)

Literacia científica em Portugal (4)

O Luís Pedro tem razão quando afirma que os indicadores usados nos posts desta série (ver leituras complementares) não servem para aferir a excelência dos estudantes portugueses, quando comparados com outros. A afirmação «o sistema português produz estudantes ao nível dos melhores do mundo» é, portanto, imprecisa. Mas a segunda parte da mesma, «o problema persistente — e ímpar — é a incapacidade do sistema em responder às necessidades dos menos capazes», mantem-se factual. Sobre isto, o Hugo Mendes escreveu dois posts (I e II) onde clarifica a sua interpretação, posts esses que são de leitura obrigatória para quem tem seguido este debate [na falta de tempo, escolha-se o último].

Para que fique também claro, e sobre literacia científica aferida em 2006, Portugal não consegue melhor do que 3% dos estudantes no nível 5 e uma percentagem resídual no nível 6. A Finlândia, a mais bem classificada, tem 17% de estudantes no nível 5 e 4% no nível 6. A média da OCDE é 8% e 1%, respectivamente. [só tive conhecimento destes dados agora, através deste relatório]

Não é demais referir que a problemática da desigualdade entre os estudantes portugueses — sustentada por elevadas taxas de retenção — é real. Além disso, a performance dos estudantes portugueses no “ano modal” é muito diferente da média global (é, aliás, o maior gap na OCDE), pelo que os índices globais de literacia em Portugal escondem realidades que convém serem debatidas.

Leituras complementares: Literacia científica em Portugal (1); Literacia científica em Portugal (2); Literacia científica em Portugal (3); Literacia científica em Portugal (5)

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