Blogosfera e biosfera

Hoje de manhã, o Expresso online pediu-me para escrever sobre a decisão recente de um tribunal em suspender o acesso a um blogue português. Podem ler o texto aqui.

Road Trip

«7 Day trip from Los Angeles to New York City compressed into 4 minutes», via VideosAver.

Expresso: política no feminino

Na edicao de amanha, e sobre a eleicao de Manuela Ferreira Leite como Presidente do PSD, o Expresso questiona: «as mulheres fazem politica de maneira diferente dos homens?».

A pergunta conduz-me para o que se passou nas primarias norte-americanas. Muito se falou no juizo dos eleitores sobre o facto de Barack Obama ser afro-americano. Mas nunca ninguem questionou se, sendo afro-americano, iria fazer politica de forma diferente dos caucasianos. Ja sobre Hillary Clinton, as coisas nao foram assim: sendo mulher, esperava-se que fizesse politica de outra forma. Por exemplo, numa ocasiao de campanha chorou, o que foi comentado como sinal de fraqueza, coisa que nenhum homem revelaria.

Ora, mesmo que Manuela Ferreira Leite faca politica de forma diferente de Luis Filipe Menezes, nao e certamente por ser mulher. E os dois, mesmo sendo diferentes, farao politica de forma mais parecida entre si do que com a forma de o fazer de Avelino Ferreira Torres, um alpha-male pouco sofisticado.

Este tipo de prejudice que a pergunta do Expresso transporta — e que esteve presente nas primarias norte-americanas — e absurdo.

[Escrito no contexto de uma colaboracao com o Expresso, que me permite comentar antecipadamente alguns dos temas da edicao em papel do jornal]

Literacia científica em Portugal (3)

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[As figuras aqui apresentadas sao da minha responsabilidade e representam dados estatisticos do PISA 2006 gentilmente cedidos pelo sociologo Hugo Mendes.]

Nos posts anteriores, ilustrei que Portugal e o pais onde a diferenca na literacia cientifica entre os estudantes que frequentam o “ano modal” (10? ano) e os que se encontram noutros patamares e a mais acentuada dos 32 paises analisados.

Mas ha algo ainda mais singular: 20% dos estudantes portugueses com 15 anos de idade frequentam o 7? ou 8? ano de escolaridade, isto e, estao atrasados tres e dois anos no percurso educativo relativamante a maioria dos seus pares. Nenhum outro pais tem tantos estudantes tao atrasados.

O impacto desta “retencao” nos resultados da literacia cientifica esta representado na figura em cima (clicar para abrir numa nova janela). Portugal destaca-se de todos os outros porque e, ao mesmo tempo, aquele com a percentagem mais elevada de alunos muito atrasados no percurso educativo, e aquele onde a diferenca no indice de literacia cientifica entre os que frequentam o “ano modal” e os outros e a mais acentuada.

Ou seja, e repetindo o que tenho afirmado nos ultimos dias: O sistema de ensino portugues produz muito bons alunos e muito maus alunos, nao respondendo eficazmente as necessidades dos ultimos.

Num pais onde se tem debatido exaustivamente as problematicas da desigualdade, e de estranhar que a maioria das pessoas se deixe encantar pelo discurso do “facilitismo” e se esqueca que o nosso sistema de ensino, ao ser excessivamente selectivo, esta a induzir desigualdades no acesso ao conhecimento que se manifestarao, mais cedo ou mais tarde, de todas as outras formas possiveis.

Leituras complementares: Literacia cientifica em Portugal (1); Literacia cientifica em Portugal (2); Literacia cientifica em Portugal (4); Literacia cientifica em Portugal (5)

Literacia científica em Portugal (2)

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[As figuras aqui apresentadas sao da minha responsabilidade e representam dados estatisticos do PISA 2006 gentilmente cedidos pelo sociologo Hugo Mendes.]

Segundo o PISA 2006, Portugal ocupa a 29? posicao no ranking de literacia cientifica de alunos com 15 anos, ranking esse liderado pela Finlandia com 563 pontos. Com melhores indices de literacia que Portugal (474), estao, entre outros, a Estonia (531), a Eslovenia (519), a Hungria (504), a Polonia (498), a Letonia (490) e a Lituania (488). Este nao e, certamente, um cenario simpatico para Portugal.

Mas sera possivel identificar algum indicador que ajude a explicar este resultado?

Como ja escrevi, este indice mede a literacia cientifica de alunos com 15 anos. E este e o primeiro dado importante: alunos com 15 anos, independentemente do ano de escolaridade que frequentam. Em Portugal, a maioria destes alunos frequenta o 10? ano de escolaridade, mas ha muitos que frequentam o 9?, o 8? ou o 7? ano; ha ainda um numero muito residual que frequenta o 11? ano.

Para cada um dos paises do estudo, o patamar onde a maior parte dos alunos esta e chamado “ano modal”.

Na figura em cima (clicar para abrir numa nova janela), esta representada a diferenca entre o “indice global de literacia” e o “indice modal de literacia” de cada pais, em funcao da percentagem de alunos que frequenta o “ano modal”. Por “indice modal de literacia” entende-se o resultado obtido pelos alunos com 15 anos que frequentam o “ano modal”.

Em muitos paises, a esmagadora maioria dos estudantes frequenta o “ano modal”. Quer isso dizer que a diferenca entre o “indice global de literacia” e o “indice modal de literacia” e praticamente nulo — isso e representado pelo aglomerado de pontos no topo da imagem.

Depois, ha paises em que cerca de 50% dos estudantes estao no “ano modal”. Mas entre estes, ha os que tem uma diferenca negativa entre os indices, caso do Luxemburgo (-27), e os que tem uma diferenca positiva, caso de Portugal (+54).

No caso do Luxemburgo, e dos outros com diferencas negativas, uma parte consideravel dos alunos que nao frequentam o “ano modal” frequentam patamares mais avancados, dai que o indice modal seja inferior ao global. No caso de Portugal, e precisamente o oposto: a quase totalidade dos alunos que nao estao no “ano modal” frequentam patamares mais atrasados e os seus resultados, obviamente piores, tem um impacto negativo no indice global.

Este e o primeiro indicador que em Portugal existe uma enorme diferenca entre bons e maus alunos. De facto, nao ha outro pais onde a diferenca seja superior. Mas e possivel refinar ainda mais esta analise (ver post seguinte).

Leituras complementares: Literacia cientifica em Portugal (1); Literacia cientifica em Portugal (3); Literacia cientifica em Portugal (4); Literacia cientifica em Portugal (5)

Literacia científica em Portugal (1)

E recorrente: quando se fala sobre Ensino, fala-se sobre experiencias pessoais, sobre os niveis de exigencia do passado, sobre o “facilitismo” do sistema. Isto nao e novo. O que a discussao recente acrescentou e o ataque as estatisticas.

Pela estrutura de discussoes anteriores, este ataque nao se estranha. Afinal, as estatisticas confrontam a realidade com aquilo que durante varios anos achavamos que a realidade era. Tentem imaginar as sinapses em confronto: nao e certamente um cenario bonito. Felizmente, nenhuma das pessoas que minimiza a importancia das estatisticas e Ministra ou Ministro da Educacao.

E o que nos podem dizer as estatisticas? Motivado pelos comentarios ao meu post anterior, pedi ao sociologo Hugo Mendes alguns dados do PISA 2006 sobre literacia cientifica, que amavelmente me cedeu.

Nos dois posts que se seguem, vou tentar ilustrar uma tese que defendi anteriormente: O sistema de ensino portugues produz alunos que estao ao nivel dos melhores do mundo (ver comentario aqui); o problema persistente — e impar — e a incapacidade do sistema em responder as necessidades dos menos capazes.

Leituras complementares: Literacia cientifica em Portugal (2); Literacia cientifica em Portugal (3); Literacia cientifica em Portugal (4); Literacia cientifica em Portugal (5)

euLER (2)

Vale a pena ler este post do Hugo Mendes com atencao. Nenhuma discussao sobre ensino publico podera ignorar este dado fundamental: quando comparado com outros paises, o nosso sistema produz bons alunos; o problema reside naqueles que sao maus, cujo insucesso e alimentado por um sistema incapaz de responder as suas necessidades.

O actual discurso do “facilitismo” ignora — propositadamente, ou nao — a realidade. Ignorando a realidade, e irresponsavel.

Um excerto do texto do Hugo:

«O nosso resultado global [PISA - literacia matematica], e verdade, e fraco: 466, comparado com a media estandardizada de 500 para os 57 paises que participaram no estudo. Mas [tenhamos] em conta este dado: o PISA e aplicado a estudantes de 15 anos independentemente do ano de escolaridade que frequentam. Portugal e o unico pais da Europa com tantos alunos inscritos em tao diferentes anos de escolaridade, ou seja, com tantos alunos em atraso, resultado das sucessivas retencoes de que foram alvo.

Os alunos que, com 15 anos, estao no ano de escolaridade ‘certo’ (ano modal) – que em Portugal e o 10.? ano – tem, afinal, um bom (para nao me exceder nos adjectivos) resultado: 520. Este resultado seria impossivel se o ensino da matematica estivesse a ser assaltado por um qualquer ‘nivelamento por baixo’. Assim, o real problema e a diferenca entre o aluno medio do ano modal e o aluno medio: comparado com outros [paises], Portugal tem uma percentagem excessiva de alunos fracos ou muito fracos, para os quais o sistema nao encontra resposta.

[O problema de Portugal] nao e ausencia de alunos de boa qualidade. Nem e sequer o facto do nosso sistema nao ser selectivo. E, antes, muito selectivo — no sentido em que separa os alunos, deixando uma grande fatia deles para tras.»

Back to the Future

Em 1996, por altura do seu centenario, a revista do New York Times pediu a Paul Krugman – e a outros – para se imaginar a viver em 2096 e escrever um artigo sobre o passado. O resultado foi este. Segue-se um excerto:

«Most important of all, the long-ago prophets of the information age seemed to have forgotten basic economics. When something becomes abundant, it also becomes cheap. A world awash in information is one in which information has very little market value. In general, when the economy becomes extremely good at doing something, that activity becomes less, rather than more, important. Late-20th-century America was supremely efficient at growing food; that was why it had hardly any farmers. Late-21st-century America is supremely efficient at processing routine information; that is why traditional white-collar workers have virtually disappeared.»

Um X importante

X

Pensamento do meio-dia e o novo blogue do Hugo Mendes (Veu da Ignorancia II) e do Renato Carmo (Peao). A imagem em cima foi de la retirada e ilustra bem um elemento ignorado pelo discurso de ocasiao sobre desigualdades: a despesa publica em proteccao social (linha azul, escala da esquerda) e fundamental no combate a pobreza (linha rosa, escala da direita).

Sumário das primárias Democratas

Votos em John Kerry, nas presidenciais de 2004 contra Bush: 59 milhoes.

Numeros de eleitores nas primarias Democratas de 2008: 36 milhoes.

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