Sonho americano

[Q]:- «Where did you grow up?»

[A]:- «Mexicali. My father had a small gas station. The family’s stability vanished when there was a devaluation of the Mexican peso in the 1980s. My father lost the gas station, and we had no money for food. For a while, I sold hot dogs on the corner to help.

As the economic crisis deepened, there seemed no possibility for any future in Mexico. I had big dreams and I wanted more education. So in 1987, when I was 19, I went up to the border between Mexicali and the United States and hopped the fence.

Some years later, I was sitting at a lunch table with colleagues at Harvard Medical School. Someone asked how I’d come to Harvard. “I hopped the fence,” I said. Everyone laughed. They thought I was joking

Alfredo Quiñones-Hinojosa, neurocirurgião na Johns Hopkins School of Medicine e outrora emigrante ilegal nos Estados Unidos, em entrevista ao New York Times.

Relativismo funcional

Nas últimas semanas, figuras públicas e jornais, primeiro, e bloggers, depois, comentaram activamente três factos distintos. Primeiro, foi Cavaco Silva a falar sobre a relação distante dos jovens portugueses com a política. Depois, foi a vez do Diário Económico dar a conhecer o aumento (”exponencial” é o termo mais em voga) do preço da comida. Há poucos dias, foi o Diário de Notícias a anunciar na primeria página que a comunidade de emigrantes portugueses na Europa tinha crescido 50% entre 2000 e 2006. Expecto raras excepções, a bio- e a blogo-esfera comentaram estes factos assumindo-os como descriptivos fiáveis da realidade.

Mas a realidade é diferente e, aparentemente, de nada valeu a tentativa de alguns em denunciar a forma enviesada como esses factos estavam a ser relatados ou interpretados (aqui, aqui e aqui, respectivamente). Actualmente, e pelo que me é permitido constatar, a maioria das pessoas acredita nas versões originalmente difundidas. Ou seja, quer se goste ou não, o relativismo é, pelo menos, funcional (*).

(*) Assumindo, obviamente, que os erros dos assessores de Cavaco Silva e dos editores do Diário Económico e do Diário de Notícias foram involuntários.

Terá mesmo chegado ao fim? (2)

Será muito difícil a Hillary Clinton garantir a nomeação, mesmo que vença por muito na Virgínia Ocidental e no Kentucky. É o próprio Jay Cost quem o diz no artigo que refiro no post anterior. Mas as primárias não chegaram ao fim. E Clinton, menos ainda.

Primeiro, seria um disparate ignorar os eleitores nos quatro estados que faltam. Afinal, e desde sempre, a maior crítica às primárias tem sido o facto de o nomeado ser escolhido pelos estados que votam até à Super Tuesday, altura pela qual tudo costuma ficar resolvido. Pela primeira vez, existe a possibilidade de os eleitores dos 50 estados participarem activamente na escolha. E este património de motivação das bases é algo que será fundamental em Novembro.

Segundo, e no seguimento do ponto anterior, Florida e Michigan acabarão por ter os seus delegados representados na convenção, com maior ou menor peso. São dois estados muito importantes em Novembro para ficarem de fora agora.

Terceiro, Clinton poderá vir a ter na Virgínia Ocidental e no Kentucky duas das três melhores perfomances eleitorais em todo o processo. Ninguém, no seu juízo completo, abandonaria a corrida dias antes de vitórias dessa dimensão.

Quarto, é impossível ignorar o facto de Clinton, mesmo ficando em segundo, ir ser representada na convenção por quase metade dos delegados e ter reunido 48% dos votos populares.

Quinto, as bases Democratas estão de tal forma demograficamente divididas que é necessário garantir que o processo de nomeação não põe em risco a unidade do partido para Novembro.

Dito isto, Hillary Clinton ainda terá um peso muito grande no processo de nomeação dos candidatos Democratas. No limite, poderá mesmo vir a ser escolhida para a vice-presidência. Vice-presidência essa que Dick Cheney já demonstrou poder ser mais poderosa do que é historicamente reconhecido.

Terá mesmo chegado ao fim?

Primeiro, o disclaimer:

«As those who know me in personal life can attest, I am a contrarian. For better or worse, when I see everybody looking right, the first thought in my head is, “What’s over there on the left?” So, the following might just be a product of my contrarian instincts, but I have to say that I just can’t get to where most everybody is on this race».

Depois, o reasoning:

«West Virginia is 95% white, and one of the poorest states in the nation. Demographically, Pennsylvania’s twelfth congressional district is a decent proxy of it. Clinton won Pennsylvania’s twelfth by 46 points. A recent Rasmussen survey put her up 29 points in the Mountaineer State, with 17% undecided. Another poll had her up 40 points, with Obama under 25%.

Kentucky is not as poor or as white as West Virginia, but it is nearly so. Demographically, Kentucky falls somewhere between Ohio’s sixth congressional district, which went for Clinton by 45 points, and the seventeenth, which went for her by 28 points. A recent Survey USA poll of the Bluegrass State had her up 34 points - with a staggering 72 point lead in the east, where Obama was winning less than 20% of the vote. Rasmussen recently had her up 25 points with 13% undecided».

Finalmente, a conclusão:

«Minimally, I will predict that West Virginia will be either her best or her second best finish, behind only Arkansas. Kentucky should come in right behind the two. This alone should be enough to induce some caution. I think it is too hasty to declare her finished just days before two of her three best states».

Por Jay Cost, obviamente.

Now what?

Os resultados das primárias democratas de ontem reforçam a tese que a campanha eleitoral tem tido muito pouca relevância para a dinâmica demográfica do processo. A atitude mais agressiva de Hillary ou o resurgimento do reverendo Wright acabam por ter, efectivamente, impacto residual na escolha dos eleitores. Desde 5 de Fevereiro — dia da Super Tuesday — que Hillary Clinton ganha junto das mulheres, dos brancos operários e dos hispânicos, enquanto Obama capta os votos dos afro-americanos, dos jovens e dos brancos qualificados e abastados. Tivesse o partido democrata capacidade de coligar estas demografias e John McCain arriscar-se-ia a perder nos 50 estados em Novembro.

Hoje, restam 230 superdelegados que ainda não anunciaram a sua intenção de voto. Entre eles, estão Al Gore, John Edwards, Howard Dean, Nanci Pelosi, Donna Brazile e outras figuras nacionais do partido, mas a grande maioria são congressistas, senadores e dirigentes locais. Para os últimos, o dilema tem sido escolher entre a maior elegibilidade de Clinton e a preferência dos seus constituintes. Para os primeiros, o receio de fracturarem o partido tem-nos mantido na expectativa. Por exemplo, Donna Brazile, ontem, na CNN, corrigiu alguém do painel que a classificou de “indecisa” dizendo que era “não declarada”.

Howard Dean já avisou que é desejável que os superdelegados declarem a sua preferência até 3 de Junho, dia das últimas primárias. Mas com a questão de Florida e Michigan ainda em aberto, com os delegados que John Edwards leva à convenção sem orientação de voto, e com superdelegados com receio de partir a loiça (ler aqui), o mais certo é que a decisão seja o resultado de um compromisso de bastidores. Talvez, só talvez, o Dream Ticket ainda seja possível. Afinal, mais do que o partido democrata, é o futuro dos Estados Unidos que está em causa.

Os dilemas dos superdelegados

Seguem-se afirmações de alguns dos 230 superdelegados à convenção do partido democrata ainda não declarados. [Fonte: New York Times]

Margaret Campbell, Party official, Mont.
«It’s been emotional, it’s been frustrating. It has been very frustrating. It is a huge responsibility».

Thomas R. Carper, Senator, Del.
«I frankly don’t care a lot who ends up at the top of the ticket, but I hope at the end of the day they could be convinced to run together».

James E. Clyburn, Representative, S.C.
«I still remain studiously neutral. I think that the historical significance of so-called superdelegates — these are unpledged delegates — is very, very important for us to maintain. We are in place in order to either extend the wishes of the voters or to try to make corrections if they need to be made».

Gilda Cobb-Hunter, Party official, S.C.
«I’m undeclared because I think it’s important for the process to play itself out. I don’t see inserting myself into the process. I’m not interested in being wooed. I’m not important».

Peter A. DeFazio, Representative, Ore.
«This has never come up in my political lifetime. I have no idea how this will play out».

Russ Feingold, Senator, Wis.
«I’m having a hard time deciding between Hillary Clinton and Barack Obama, as are many people. Those are the two I take the most seriously. I go back and forth, to be honest with you. I’m torn on this whole issue of who’s more likely to be progressive and really seek change vs. who’s ready to do the job today. It really is a true dilemma in my mind».

Tom Harkin, Senator, Iowa
«I haven’t made up my mind yet. I’m still neutral in this race, and I intend to remain that way».

Awais Khaleel, Party official, Wis.
«I don ‘t think anybody my age, 23 years old, expects to be this deep in the process right now».

James Roosevelt, Party official, Mass.
«I would urge superdelegates who are undecided to wait and see to get a better gauge of electability of the candidates».

Um novo partido democrata?

Donna Brazile acaba de afirmar, na CNN, que a nova demografia do partido democrata é mais urbana e suburbana e menos blue-collar. Jay Cost, num artigo que aqui citei, escreveu: «the point here is simply that an Obama victory [in November] might look like something we’ve never seen before». Se eu fosse um dos superdelegados indecisos, esta era a questão que eu queria ver esclarecida.

Roda livre

Até ao momento, parece certo que Clinton vence em Indiana e perde na Carolina do Norte. A margem da derrota no último será, muito provavelmente, superior à margem da vitória no primeiro. As demografias-tipo nos dois Estados são muito diferentes e, neste momento, já só o argumento da elegibilidade poderá manter vivas as apirações de Hillary. Falta saber se os 230 superdelegados ainda indecisos o consideram mais importante do que outros argumentos. Sobre isto, um post mais detalhado amanhã.

Exit polls

A CNN, ainda a sofrer do trauma Projecção-Gore-Vencedor-Florida-2000, recusa-se a declarar vencedores a menos que as diferenças nas projecções sejam superiores a dez pontos. Mas as exit polls têm ajudado a antecipar, com alguma precisão, os vencedores e as margens de vitória. Estas são as minhas previsões a partir da análise desses dados:

Indiana: Clinton 52-55%; Obama 45-48%

Carolina do Norte: Obama 55-58%; Clinton 42-45%

Jay Cost

Jay Cost é doutorando em Ciências Políticas na Universidade de Chicago. Nos últimos meses, tem escrito alguns dos mais interessantes artigos sobre a dinâmica demográfica das eleições primárias norte-americanas, principalmente no campo Democrata. Este artigo — “Reflections on the Democratic Race” — é, na minha opinião, o mais importante e acutilante de todos. Um excerto:

«I think his [Obama’s] foresight to organize the caucus states has served him doubly well. Not only has it given him a large delegate lead compared to a modest popular vote lead - it has served as protection against political peril. My sense is that with Ohio, Pennsylvania, and then Wright - superdelegates would be flocking to Clinton if it were not for his caucus victories».

Carolina do Norte e Indiana

A menos que algo de muito extraordinário aconteça logo à noite, a campanha dos dois candidatos Democratas vai continuar. As sondagens dão uma vantagem média de cinco pontos a Clinton no Indiana e de sete pontos a Obama na Carolina do Norte. Só vitórias convincentes em ambos os Estados darão aos superdelegados argumentos fortes para escolherem um ou outro. Howard Dean já lhes pediu que se comprometam até ao dia da última primária, a 3 de Junho.

Com resultados eleitorais que mais parecem empates, será a forma como a campanha é conduzida a justificar as decisões dos superdelegados. O negativismo nos últimos dias de Clinton e o regresso do Reverendo Wright são exemplos do que pode determinar as escolhas. Mas há quem apele aos superdelegados para tomarem mais atenção à elegibilidade dos candidatos. Segundo o sítio electoral-vote.com, esta seria a configuração do colégio eleitoral se as eleições fossem hoje:

Obama 264 - McCain 263 - Empate 11 (mapa aqui, evolução por Estado aqui)
Clinton 291 - McCain 236 - Empate 11 (mapa aqui, evolução por Estado aqui)

Ainda sobre a geração espontânea de portugueses

No BlogueBrother de hoje, e sobre o meu post anterior, o Expresso considera que defino o êxodo de portugueses como sinónimo da crise. Escrevio-o num registo irónico que pretendia evidenciar o facto de neste artigo do Diário de Notícias se atribuir, aí sim, o “êxodo” à “crise”, embora, de facto, o “êxodo” seja inferior ao noticiado.

O Expresso refere também - e foi esse o objectivo principal do post - o meu cepticismo quanto ao título de primeira página do Diário de Notícias, onde se afirma que houve um aumento de 50% de emigrantes portugueses na Europa entre 2000 e 2006. Escrevi que esse número é calculado ignorando o facto de não haver dados sobre a emigração portuguesa no Reino Unido no ano de 2000, o que significa que a grandeza do aumento noticiado pelo DN é pura e simplesmente um número ficcionado pelos seus editores.

[Se algum leitor souber onde encontrar um press release sobre o relatório da OCDE - já que este só será publicado em Junho - agradecia que mo enviasse. Tenho a sensação que os números apresentados pelo DN representam não só os emigrantes portugueses, mas também os seus descendentes, o que torna toda esta análise do DN sobre fluxos migratórios ainda mais absurda.]

Geração espontânea de emigrantes portugueses no Reino Unido

Segundo a edição de hoje do Diário de Notícias, o número de emigrantes portugueses na Europa subiu 50% entre 2000 e 2006. Se em 2000 havia 419 mil portugueses a viver em países europeus, os 640 mil de 2006 indiciam, certamente, um êxodo só explicado pela “crise”. Mas há um problema. O crescimento de 50% citado pelo Diário de Notícias é espúrio e resulta, em grande parte, da falta de dados sobre o número de portugueses no Reino Unido em 2000.

Segundo uma tabela publicada na página 2 do DN, não havia emigrantes portugueses na nova pátria de Cristiano Ronaldo em 2000 e 2001, para logo de seguida, em 2002, passar a haver 94 mil. É aquilo a que se chama “geração espontânea de portugueses”.

Uma análise mais cuidada, contudo, permite estimar em 75-80 mil o número de portugueses no Reino Unido no ano de 2000 (assumindo um crescimento constante de 8-9 mil/ano). Assim, o número de emigrantes portugueses na Europa terá aumentado de 500 mil em 2000 para 640 mil em 2006, ou seja, terá crescido 28% e não os “catastróficos” 50%.

O gap da dor

Um estudo conduzido por Alan Krueger, professor de economia em Princeton, e Arthur Stone, professor de psiquiatria em Stony Brook, encontrou uma divisão económica para a incidência da dor nos norte-americanos: «People in households making less than $30,000 a year spend almost 20 percent of their time in moderate to severe pain, compared with less than 8 percent for those in households with income above $100,000 a year». Mas não é só a incidência que é reveladora da divisão. As suas causas ilustram a diferença na qualidade de vida: nos mais pobres, a dor resulta, em grande parte, da actividade profissional; nos mais ricos, de práticas desportivas.