Blog review

O renascido Canhoto vai recuperando, aos poucos, contribuições dos colaboradores: Paulo Pedroso questiona o critério editorial do Público que conduziu à capa da edição de hoje e encontra uma possível, mas preocupante, resposta.

No Margens de Erro, Pedro Magalhães chama a atenção para os comentários pouco informados que têm surgido sobre os resultados de um estudo que ele e Jesus Sanz Moral promoveram acerca das atitudes e comportamentos políticos dos jovens em Portugal.

John McCain?

Ninguém reparou, porque de facto o interesse está todo do lado Democrata, embora haja quem lhe chame desgaste. Ninguém reparou, dizia eu, mas na passada terça-feira, para além das primárias Democratas na Pensilvânia, houve também primárias Republicanas. No boletim de voto constavam John McCain, mas também Ron Paul e Mike Huckabee. Votaram 807 mil Republicanos, o que é um número surpreendente tendo em conta que o Senador do Arizona já reuniu o número de delegados suficientes para garantir a nomeação. Mas mais surpreendente é que desses 807 mil, 220 mil tiveram a preocupação de ir às urnas votar em Paul ou Huckabee. Contra o escolhido McCain, portanto.

Abril

Expresso: Cientistas em Portugal

A edição de amanhã do Expresso destaca a actividade científica em Portugal e compara-a com a de outros países. Constata o óbvio, que a ciência, por aqui, é na sua maioria feita nas universidades e organismos públicos e vai à procura das empresas portuguesas que mais apostam em ciência e tecnologia. Um tema interessante, que motiva um breve comentário sobre o enorme potencial que gerámos na última década, que aqui deixo.

Há muitos anos que a fórmula para o sucesso é a mesma: promover a inovação e o desenvolvimento científico e tecnológico de Portugal. Algumas coisas têm sido bem feitas, outras nem por isso.

O número de bolsas de doutoramento atribuídas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia cresceu quase 50% em 12 anos, sinal evidente que se apostou muito na formação qualificada de recursos humanos. Mas esse investimento não foi acompanhado por políticas necessárias para o aproveitamento do potencial que gerou.

As universidades resistem às transformações e o Estatuto da Carreira Docente Universitária continua sem ser revisto, alimentado o inbreeding — uma das características das universidades portuguesas que mais minam a actividade científica de qualidade. As tentativas de dinamizar a ciência através, por exemplo, da criação dos Laboratórios Associados, ou do Programa Ciência 2007, pecam pela falta de sustentação. No primeiro caso, depois de uma explosão na criação de laboratórios, as regras de financimanto deterioraram-se e o futuro deste modelo é incerto. No segundo, contratar centenas de novos cientistas é uma ideia excelente, mas não se percebe porque não fazê-lo de forma sustentada e intervalada. De repente, abriu-se uma janela de oportunidade que se fechou logo a seguir. Quem na altura (primeiro semestre de 2007) estivesse ainda numa fase importante da sua formação, tem agora que aguardar por outro programa semelhante que não se sabe se acontecerá este ano, para o ano, ou nunca mais.

Fora das universidades e laboratórios públicos, a actividade científica ainda é reduzida. Aqui, é a transformação do tecido económico português que alimenta a aposta das empresas na inovação e contratação de recursos humanos qualificados, que por sua vez promovem essa transformação: as indústrias farmacêutica, vinícola, biomédica e de aplicações informáticas estão na vanguarda da inovação em Portugal, mas a esmagadora maioria das empresas resiste à ideia que um doutorado é uma mais-valia.

Durante os últimos sete ou oito anos, a Portuguese American Postgraduate Society (PAPS) tem vindo a promover, nos EUA, fóruns de discussão sobre Ciência, Tecnologia e Inovação. Um dos diagnósticos começa a ganhar cada vez mais relevância: mais do que a falta de investimento, é a forma pouco sustentada como o investimento é promovido que dificulta o aproveitamento do enorme potencial de recursos humanos qualificados que Portugal gerou na última década.

[Este post surge no seguimento de um pedido de colaboração por parte do semanário Expresso, que me permitirá, juntamente com outros bloggers portugueses, divulgar e comentar antecipadamente alguns dos temas da próxima edição do jornal.]

As três eleições de Novembro nos Estados Unidos

Em Novembro, para além de escolherem o Presidente, os norte-americanos votarão para eleger 35 dos 100 Senadores e os ocupantes de todos os 435 lugares da Câmara dos Representantes.

Nas últimas eleições intercalares, em 2006, os Democratas recuperaram o controlo da Câmara dos Representantes, maioritariamente Republicana nos 12 anos anteriores, e o crédito foi atribuído à estratégia de Howard Dean, o chairman do partido. Até aí, era prática comum fazer-se campanha só em círculos eleitorais com alguma tradição de vitórias Democratas.

Howard Dean, certamente motivado pelo que lhe tinha sido dado a conhecer durante a sua campanha para as primárias de 2004, campanha essa sustentada pelas bases, decidiu alargar o apoio do partido a todo o território nacional, tendo sido na altura acusado de dispersar recursos. O resultado, esse, não poderia ter sido melhor, e os críticos calaram-se. Foram ganhos 31 lugares, alguns deles em círculos nunca imaginados, e a Câmara dos Representantes voltou a ter maioria Democrata.

A vitória nas primárias de ontem de Hillary Clinton pela margem psicológica dos dez pontos percentuais alimentará, pelo menos por mais algumas semanas, a disputa eleitoral. Muitos consideram esta indecisão prejudicial aos Democratas porque permite ao GOP focar recursos num único candidato, ao mesmo tempo que Clinton e Obama se desgastam. Mas esta análise falha em dois pontos essenciais e ignora um terceiro:

Primeiro, as primárias Democratas continuam a trazer às urnas um número recorde de eleitores. Ontem, na Pensilvânia, voltou a acontecer. Em Novembro, será muito difícil vencer se as bases não estiverem comprometidas com a campanha. Se a decisão já estivesse tomada, muitos destes eleitores que têm participado no processo pós-SuperTuesday não estariam tão motivados.

Em segundo lugar, à medida que a campanha Democrata prossegue, a plataforma política para Novembro, independentemente de quem for o candidato escolhido, vai sendo moldada pela dinâmica eleitoral, respondendo melhor às preocupações de todos os norte-americanos, e não só daqueles que votaram em Iowa ou New Hampshire. As vantagens de uma plataforma mais abragente são óbvias.

Por último, os que consideram esta indecisão negativa para os Democratas, esquecem-se do impacto que uma campanha intensa nos Estados pós-SuperTuesday terá nas outras duas eleições de Novembro: para o Senado e, principalmente, para a Câmara dos Representantes.

Pensilvânia: colégio eleitoral

Uma vitória de Hillary Clinton por mais de dez pontos percentuais nas primárias Democratas de hoje alimentará por mais algum tempo a ideia que ela é a mais elegível dos dois candidatos. As últimas sondagens dão-lhe uma margem de seis pontos, mas a volatilidade é máxima.

Desde que aqui publiquei uma projecção de resultados do colégio eleitoral para os cenários Clinton vs. McCain e Obama vs. McCain, tem havido flutuações consideráveis. O elemento comum, e expectável, é que o resultado final, mais uma vez, depende fortemente dos resultados em pouco mais do que dez dos Estados. Basicamente, todas as vitórias de Obama no Sul, com excepção da Carolina do Sul, representarão pouco nas eleições de Novembro. Ohio, Florida, Missouri, Minnesota, Wisconsin, Washington, Oregon, Nevada, Colorado, Novo México, Carolinas (?) e Novo Hampshire são os actuais battleground states. Mas ainda faltam sete meses.

As projecções para o colégio eleitoral, segundo o sítio electoral-vote.com, são as seguintes:
Obama 269 - McCain 254 - Empate 15 (mapa aqui)
Clinton 289 - McCain 239 - Empate 10 (mapa aqui)

Dia da Terra

[Imagem captada pela Mars Rover Spirit]

Introdução ao Spin

Pergunta-comentário de Mário Crespo a Joaquim Aguiar, há minutos, na SIC-notícias: «Portanto o Partido Socialista está em crise, ele próprio».

Teoria do vazio

De cada vez que a bola chega ao Yannick Djaló, pode acontecer uma de duas coisas:

1. Nada;

2. Nada, com desvio e golo.

Desde que o Derlei se lesionou no início da época, que o Paulo Bento está convencido que a segunda hipótese é mais provável que a primeira.

Este país não é para crianças

Foi difícil comprar bilhetes para um dos Concertos para a Família dos Dias da Música em Belém, no CCB. Na sexta-feira, a novíssima bilheteira online funcionava aos soluços, o número de telefone das informações não estava atribuído (vim depois a saber que em vez de 212… é 213…, embora ninguém tenha corrigido o erro durante os três dias que durou o programa). Acabei por ir a Belém: somos três, dois adultos e uma criança de 22 meses. O quê!?, uma criança de 22 meses paga bilhete? Sim, toda a gente paga, dizem-me. Adiante.

Domingo, 30 minutos antes da hora marcada para o concerto, ficamos a saber que afinal crianças até aos oito anos não pagam e devolvem-nos os três euros. Menos mal. O problema, agora, é transportar um carrinho de bebé para a sala Almada Negreiros. Há algumas rampas, mas por razões misteriosas nem todas as escadas as têm. O teletransporte ainda não é uma realidade e carregá-los é connosco (há competências que se adquirem excusivamente com a paternidade). Está quase.

Ops!, “não são permitidos carrinhos de bebé nesta sala, é favor voltar para trás (escadas-sem-rampa) e deixá-lo no bengaleiro”. No way, minha senhora; as famílias, sabe, fazem-se transportar com estes objectos, portanto, se não se importa, o carrinho fica aqui mesmo (ao meu lado, a um outro pai é dito que sim, que são permitidos carrinhos de bebé na sala - as arbitrariedades do costume).

Finalmente, estamos na sala. É-nos pedido para irmos para as últimas filas. Somos uma família, este é um dos vários Concertos para a Família que constam no programa, mas as filas da frente são para quem não tem crianças. Cinco minutos depois do trio nova-iorquino de jazz ter iniciado a performance, não há criança que resista ao fascínio pelo contrabaixo e a frente de palco é okupada. Ouvem atentamente, até que uma ou outra chama pela mãe ou pede uma bolacha. Shiu, shiu!, ouve-se vindo da secção dos pseudo-puristas. Sai a primeira da sala, sai a segunda, é um incómodo ser criança.

Reality TV

[The Onion]

Nota mental sobre publicação de posts

Ler sempre as notícias antes de carregar em “publicar”. [O post anterior foi escrito já Luís Filipe Menezes se tinha demitido da presidência do PSD]

Expresso: Crise no PSD

Dos temas que o Expresso abordará na edição em papel de Sábado, realço o destaque dado à actual crise do PSD:

«O ex-ministro da Justiça de Santana Lopes, José Pedro Aguiar Branco, quer directas até final do ano para derrubar Menezes da presidência do PSD. Com menos de um ano de liderança e a pouco mais de um ano das legislativas o Expresso interroga-se sobre a legitimidade de Luís Filipe Menezes enquanto líder do PSD – se continua intacta ou não – e sobre a necessidade ou legitimidade de este ser substituído pelos seus críticos. Para onde vai o principal partido da oposição se não consegue livrar-se de sucessivas crises internas? Como pode funcionar a democracia se os partidos dos chamado “arco do Poder” não conseguem afirmar-se? Os problemas internos são reflexo de insuficiências próprias ou provocados pela estratégia do PS?»

O problema sobre a legitimidade de Luís Filipe Menezes enquanto líder do PSD não deve ser colocado. Ela existe e deve respeitada. O mesmo não se poderá dizer sobre a sua credibilidade enquanto tal [leitura importante: nota mental sobre publicação de posts]. Mas o problema do PSD é bem mais profundo do que a falta de credibilidade do seu líder, e nem sequer é um exclusivo seu.

A forma como os partidos políticos portugueses estão organizados potencia o tipo de crise que o PSD atravessa actualmente. O problema reside, em grande parte, na ausência de grupos de estudo e reflexão que funcionem autonoma e independentemente das estruturas dirigentes. Grupos que produzam informação, que estimulem o debate político, que inovem e promovam a renovação. É a ausência destas estruturas que permite que o PSD de hoje seja muito diferente do PSD de Marques Mendes, que, por sua vez, já o era do de Durão Barroso.

O resultado deste vazio de discussão interna, de compromisso com uma matriz política sustentada na reflexão, é que novos líderes significa, por regra, novos partidos, não novas formas de gerir o mesmo partido. O CDS de Portas não é o mesmo partido de Ribeiro e Castro e o mesmo se pode dizer quando se compara o PS de José Sócrates ao de Ferro Rodrigues.

Dos partidos com representação parlamentar, só os dois mais à esquerda estão imunes a este tipo de crises, mas não pelas melhores razões. O Bloco de Esquerda, porque mantém o mesmo líder desde a sua fundação e não há indícios de renovação. O PCP, porque se mantém fiel a uma doutrina imutável.

[Este post surge no seguimento de um pedido de colaboração por parte do semanário Expresso, que me permitirá, juntamente com outros bloggers portugueses, divulgar antecipadamente alguns dos temas da próxima edição do jornal.]

Sepóóóting!

Aquela segunda parte, com cinco golos do Sporting em 25 minutos, incluindo dois do Yannick — mais precisamente um golo e um golo-desvio — e um outro do Derlei que não jogava há sete meses, está probabilisticamente ao mesmo nível da formação de buracos-negros com efeitos catastróficos no LHC. Mas são eventos deste tipo que ajudam um tipo a argumentar perante o filho que o Sporting é o melhor clube do mundo.

Quando os elevadores param

Às 11 horas da noite de uma sexta-feira, em Outubro de 1999, Nicholas White estava a trabalhar num suplemento da Business Week quando fez uma pausa para fumar um cigarro. Ao regressar, entrou no elevador número 30 de uma das torres do Rockefeller Center, em Manhattan. A caminho do 43º andar, o elevador parou. As imagens (condensadas) que a câmara de segurança captou durante as 41 horas seguintes podem ser vistas aqui. [via VideosAver]

Obama liberal ou conservador?

O Nuno Gouveia tem feito um acompanhamento notável das eleições norte-americanas. Foi através do seu blogue e dos comentários a alguns dos posts aí escritos que tive conhecimento da mais recente polémica da campanha.

Num discurso em San Francisco vedado à comunicação social e perante multi-milionários norte-americanos, Barack Obama terá afirmado, referindo-se à dificuldade da sua campanha em fazer chegar a mensagem política à classe operária da Pennsylvania:

«You go into these small towns in Pennsylvania and, like a lot of small towns in the Midwest, the jobs have been gone now for 25 years and nothing’s replaced them. […] And they fell through the Clinton administration and the Bush administration, and each successive administration has said that somehow these communities are gonna regenerate, and they have not. […] And it’s not surprising then they get bitter, they cling to guns or religion or antipathy to people who aren’t like them or anti-immigrant sentiment or anti-trade sentiment as a way to explain their frustrations».

Muitos interpretam estas palavras como um sinal claro que Barack Obama é um liberal. Afinal, a dificuldade que este diz sentir é aquela que o partido Democrata tem várias vezes enfrentado: embora o discurso político dos Democratas - e a sua prática (mais sobre isto aqui e aqui) - seja no sentido de promover o bem estar e a segurança económica da classe média, esta é mais solidária com a plataforma política do partido Republicano. Um exemplo pessoal, meramente ilustrativo: em 2004, os pais de um colega meu diziam-me que embora não se sentissem confortáveis com muitas das políticas da administração Bush não poderiam votar num partido que defende o aborto.

Voltando às palavras de Obama. Dois apontamentos. Primeiro, é de estranhar a ausência de referências a Ronald Reagan - ou melhor, ela está lá, mas disfarçada («for 25 years»). Afinal, a “revolução Republicana” foi iniciada por Reagan e o panorma político actual ainda é um seu reflexo. Mais: as políticas económicas dos anos 80 tiveram um impacto negativo na classe média que só foi mimimizado pela singularidade dos anos 90. Em segundo lugar, Barack Obama não é um liberal, longe disso (o discurso foi feito perante liberais multi-milionários de San Francisco, que são uma espécie de eleitores muito peculiares). Ao longo da sua carreira enquanto Senador em Washington, Obama teve um registo de voto dos mais conservadores entre os Democratas. Parece contra-intuitivo, de facto, tantas foram as vezes que ouvimos dizer “Obama é liberal”, mas leia-se este texto e atente-se na tabela aí apresentada.

Variações de Monty Hall, buracos-negros e aplicações para o iPhone

Follow-up sobre dois posts anteriores.

Três novos problemas relacionados com o problema original de Monty Hall que referi aqui e dezenas de comentários de leitores do New York Times, uns mais incrédulos com a solução proposta do que outros.

Sobre a “ameaça” dos buracos-negros gerados no LHC, um artigo muito interesante sobre o que é o risco, como o calculamos e que mecanismos temos ao nosso dispôr para validar os resultados. Independentemente do ruído que a providência cautelar para encerrar o LHC veio introduzir, este é sempre um tema apaixonante.

Lonely chicks

Segundo a CNN, Thomas Kohnstamm, autor que contribuiu para 12 dos guias de viagem da Lonely Planet, disse à imprensa australiana: «They [Lonely Planet] didn’t pay me enough to go to Colombia. I wrote the book in San Francisco. I got the information from a chick I was dating who was an intern in the Colombian consulate».

Percebo melhor agora a motivação para esta capa.

As palavras são importantes

Num artigo inicialmente publicado no Diário de Notícias e republicado no 5 dias, Fernada Câncio escreve um parágrafo que em muitos países já não faz sentido. Em Portugal, é urgente reescrevê-lo:

«Ter consciência disso e tentar expurgar a linguagem, a fala, deste tipo de referências discriminatórias [chamar “preto” a Tiago, um míudo de 10 anos] é a essência daquilo a que se deu, nos EUA, o nome de “politicamente correcto”. A expressão nasceu da noção de que a linguagem não é neutra – é, evidentemente, política. É um campo de batalha no qual o que se diz não só faz diferença para os outros como para o próprio: reprimir palavras, noções e referência discriminatórias cria uma outra forma de ver e pensar o mundo. Esta reeducação voluntária, este esforço de não agressão, foram ridicularizados e atacados pela direita americana e depois pelas várias direitas, comparados a uma ditadura e agregados à linguagem totalitária referida por Orwell na obra 1984 – a “novilíngua”. Numa espantosa inversão de papéis, quem usa linguagem discriminatória e ofensiva surge como necessitado de protecção e apresenta-se o politicamente correcto como um atentado à liberdade de expressão e pensamento».

Não foi preciso muito tempo para me (re)lembrar como a linguagem corrente, em Portugal, é profundamente discriminatória. Um almoço numa cervejaria, poucas semanas depois de regressar, foi suficiente: Um empregado pede a outro que limpe o chão junto a uma das mesas. Pouco agradado com o pedido, o segundo responde, em voz alta, que “não é preto” e que os “pretos estão lá dentro”, apontando para a cozinha, onde três cozinheiras negras preparam a comida. Os outros empregados riem, alguns dos clientes riem, as cozinheiras baixam a cabeça - em sítios destes, aliás, raramente as levantam - e a vida continua.

Expresso: Yuri Kozyrev

Yuri Kozyrev é fotojornalista, essencialmente focado em cenários de conflitos armados. Nos últimos 20 anos, fez a cobertura da maior parte dos conflitos na ex-União Soviética. Actualmente, vive no Iraque, onde trabalha para a revista TIME. Na edição de amanhã do Expresso, pode-se ler uma entrevista onde para «além do seu trabalho enquanto jornalista no Iraque, se discute o lugar das grandes reportagens fotográficas nos dias de hoje».

[Este post surge no seguimento de um pedido de colaboração por parte do semanário Expresso, que me permitirá, juntamente com outros bloggers portugueses, divulgar antecipadamente alguns dos temas da próxima edição do jornal.]

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