Abril

Sepóóóting!

Aquela segunda parte, com cinco golos do Sporting em 25 minutos, incluindo dois do Yannick — mais precisamente um golo e um golo-desvio — e um outro do Derlei que não jogava há sete meses, está probabilisticamente ao mesmo nível da formação de buracos-negros com efeitos catastróficos no LHC. Mas são eventos deste tipo que ajudam um tipo a argumentar perante o filho que o Sporting é o melhor clube do mundo.

Expresso: Yuri Kozyrev

Yuri Kozyrev e fotojornalista, essencialmente focado em cenarios de conflitos armados. Nos ultimos 20 anos, fez a cobertura da maior parte dos conflitos na ex-Uniao Sovietica. Actualmente, vive no Iraque, onde trabalha para a revista TIME. Na edicao de amanha do Expresso, pode-se ler uma entrevista onde para «alem do seu trabalho enquanto jornalista no Iraque, se discute o lugar das grandes reportagens fotograficas nos dias de hoje».

[Escrito no contexto de uma colaboracao com o Expresso, que me permiti comentar antecipadamente alguns dos temas da edicao em papel do jornal]

As palavras são importantes

Num artigo inicialmente publicado no Diario de Noticias e republicado no 5 dias, Fernada Cancio escreve um paragrafo que em muitos paises ja nao faz sentido. Em Portugal, e urgente reescreve-lo:

«Ter consciencia disso e tentar expurgar a linguagem, a fala, deste tipo de referencias discriminatorias [chamar “preto” a Tiago, um miudo de 10 anos] e a essencia daquilo a que se deu, nos EUA, o nome de “politicamente correcto”. A expressao nasceu da nocao de que a linguagem nao e neutra – e, evidentemente, politica. E um campo de batalha no qual o que se diz nao so faz diferenca para os outros como para o proprio: reprimir palavras, nocoes e referencia discriminatorias cria uma outra forma de ver e pensar o mundo. Esta reeducacao voluntaria, este esforco de nao agressao, foram ridicularizados e atacados pela direita americana e depois pelas varias direitas, comparados a uma ditadura e agregados a linguagem totalitaria referida por Orwell na obra 1984 – a “novilingua”. Numa espantosa inversao de papeis, quem usa linguagem discriminatoria e ofensiva surge como necessitado de proteccao e apresenta-se o politicamente correcto como um atentado a liberdade de expressao e pensamento».

Nao foi preciso muito tempo para me (re)lembrar como a linguagem corrente, em Portugal, e profundamente discriminatoria. Um almoco numa cervejaria, poucas semanas depois de regressar, foi suficiente: Um empregado pede a outro que limpe o chao junto a uma das mesas. Pouco agradado com o pedido, o segundo responde, em voz alta, que “nao e preto” e que os “pretos estao la dentro”, apontando para a cozinha, onde tres cozinheiras negras preparam a comida. Os outros empregados riem, alguns dos clientes riem, as cozinheiras baixam a cabeca – em sitios destes, alias, raramente as levantam – e a vida continua.

Lonely chicks

Segundo a CNN, Thomas Kohnstamm, autor que contribuiu para 12 dos guias de viagem da Lonely Planet, disse a imprensa australiana: «They [Lonely Planet] didn’t pay me enough to go to Colombia. I wrote the book in San Francisco. I got the information from a chick I was dating who was an intern in the Colombian consulate».

Variações de Monty Hall, buracos-negros e aplicações para o iPhone

Follow-up sobre dois posts anteriores.

Tres novos problemas relacionados com o problema original de Monty Hall que referi aqui e dezenas de comentarios de leitores do New York Times, uns mais incredulos com a solucao proposta do que outros.

Sobre a “ameaca” dos buracos-negros gerados no LHC, um artigo muito interesante sobre o que e o risco, como o calculamos e que mecanismos temos ao nosso dispor para validar os resultados. Independentemente do ruido que a providencia cautelar para encerrar o LHC veio introduzir, este e sempre um tema apaixonante.

Obama liberal ou conservador?

O Nuno Gouveia tem feito um acompanhamento notavel das eleicoes norte-americanas. Foi atraves do seu blogue e dos comentarios a alguns dos posts ai escritos que tive conhecimento da mais recente polemica da campanha.

Num discurso em San Francisco vedado a comunicacao social e perante multi-milionarios norte-americanos, Barack Obama tera afirmado, referindo-se a dificuldade da sua campanha em fazer chegar a mensagem politica a classe operaria da Pennsylvania:

«You go into these small towns in Pennsylvania and, like a lot of small towns in the Midwest, the jobs have been gone now for 25 years and nothing’s replaced them. […] And they fell through the Clinton administration and the Bush administration, and each successive administration has said that somehow these communities are gonna regenerate, and they have not. […] And it’s not surprising then they get bitter, they cling to guns or religion or antipathy to people who aren’t like them or anti-immigrant sentiment or anti-trade sentiment as a way to explain their frustrations».

Muitos interpretam estas palavras como um sinal claro que Barack Obama e um liberal. Afinal, a dificuldade que este diz sentir e aquela que o partido Democrata tem varias vezes enfrentado: embora o discurso politico dos Democratas – e a sua pratica (mais sobre isto aqui e aqui) – seja no sentido de promover o bem estar e a seguranca economica da classe media, esta e mais solidaria com a plataforma politica do partido Republicano. Um exemplo pessoal, meramente ilustrativo: em 2004, os pais de um colega meu diziam-me que embora nao se sentissem confortaveis com muitas das politicas da administracao Bush nao poderiam votar num partido que defende o aborto.

Voltando as palavras de Obama. Dois apontamentos. Primeiro, e de estranhar a ausencia de referencias a Ronald Reagan – ou melhor, ela esta la, mas disfarcada («for 25 years»). Afinal, a “revolucao Republicana” foi iniciada por Reagan e o panorma politico actual ainda e um seu reflexo. Mais: as politicas economicas dos anos 80 tiveram um impacto negativo na classe media que so foi mimimizado pela singularidade dos anos 90. Em segundo lugar, Barack Obama nao e um liberal, longe disso (o discurso foi feito perante liberais multi-milionarios de San Francisco, que sao uma especie de eleitores muito peculiares). Ao longo da sua carreira enquanto Senador em Washington, Obama teve um registo de voto dos mais conservadores entre os Democratas. Parece contra-intuitivo, de facto, tantas foram as vezes que ouvimos dizer “Obama e liberal”, mas leia-se este texto e atente-se na tabela ai apresentada.

Expresso: Crise no PSD

Dos temas que o Expresso abordara na edicao em papel de Sabado, realco o destaque dado a actual crise do PSD:

«O ex-ministro da Justica de Santana Lopes, Jose Pedro Aguiar Branco, quer directas ate final do ano para derrubar Menezes da presidencia do PSD. Com menos de um ano de lideranca e a pouco mais de um ano das legislativas o Expresso interroga-se sobre a legitimidade de Luis Filipe Menezes enquanto lider do PSD – se continua intacta ou nao – e sobre a necessidade ou legitimidade de este ser substituido pelos seus criticos. Para onde vai o principal partido da oposicao se nao consegue livrar-se de sucessivas crises internas? Como pode funcionar a democracia se os partidos dos chamado “arco do Poder” nao conseguem afirmar-se? Os problemas internos sao reflexo de insuficiencias proprias ou provocados pela estrategia do PS?»

O problema sobre a legitimidade de Luis Filipe Menezes enquanto lider do PSD nao deve ser colocado. Ela existe e deve respeitada. O mesmo nao se podera dizer sobre a sua credibilidade enquanto tal [leitura importante: nota mental sobre publicacao de posts]. Mas o problema do PSD e bem mais profundo do que a falta de credibilidade do seu lider, e nem sequer e um exclusivo seu.

A forma como os partidos politicos portugueses estao organizados potencia o tipo de crise que o PSD atravessa actualmente. O problema reside, em grande parte, na ausencia de grupos de estudo e reflexao que funcionem autonoma e independentemente das estruturas dirigentes. Grupos que produzam informacao, que estimulem o debate politico, que inovem e promovam a renovacao. E a ausencia destas estruturas que permite que o PSD de hoje seja muito diferente do PSD de Marques Mendes, que, por sua vez, ja o era do de Durao Barroso.

O resultado deste vazio de discussao interna, de compromisso com uma matriz politica sustentada na reflexao, e que novos lideres significa, por regra, novos partidos, nao novas formas de gerir o mesmo partido. O CDS de Portas nao e o mesmo partido de Ribeiro e Castro e o mesmo se pode dizer quando se compara o PS de Jose Socrates ao de Ferro Rodrigues.

Dos partidos com representacao parlamentar, so os dois mais a esquerda estao imunes a este tipo de crises, mas nao pelas melhores razoes. O Bloco de Esquerda, porque mantem o mesmo lider desde a sua fundacao e nao ha indicios de renovacao. O PCP, porque se mantem fiel a uma doutrina imutavel.

[Escrito no contexto de uma colaboracao com o Expresso, que me permiti comentar antecipadamente alguns dos temas da edicao em papel do jornal]

Nota mental sobre publicação de posts

Ler sempre as noticias antes de carregar em “publicar”. [O post anterior foi escrito ja Luis Filipe Menezes se tinha demitido da presidencia do PSD]

Reality TV

[The Onion]

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