Enigma

No «Avante!» de hoje, Domingos Mealha escreve um longo artigo sobre a marcha dos professores. Comeca assim: «A multidao que no sabado, feita rio em dia de chuva forte, desceu a Avenida da Liberdade (…)».

Nao encontro consenso sobre o significado da expressao «feita rio em dia de chuva forte», pelo que deixo algumas alternativas:

1) E um piscar de olhos subtil ao Manuel Alegre;

2) Houve uma desatencao do revisor do «Avante!», que tera misturado um texto sobre as inundacoes em Setubal com o da manifestacao dos professores;

3) E uma metafora: «feita rio (100 mil manifestantes) em dia de chuva forte (50 mil esperados)»;

4) E um exagero, na medida em que o ceu esteve semi-nublado, mas confere-lhe uma dimensao dramatica so ao nivel dos classicos;

5) Acompanhado a guitarra pelo Barata Moura, da uma lindissima cantiga de embalar.

[Este e mais um dos muitos textos anti-ME que nao apresenta nenhuma alternativa as reformas propostas.]

March Madness

Foi ontem anunciado o esquema de jogos para o torneio universitario de basketball, nos Estados Unidos. Noutro pais do mundo, isto nao seria noticia. Nos Estados Unidos, e o inicio do March Madness: as tres semanas mais loucas do desporto norte-americano.

Sao 64 equipas universitarias, divididas por quatro zonas. No fim, na primeira semana de Abril, sobrarao quatro para disputar a Final Four, em San Antonio, no Texas, de onde saira o campeao. A partida, ha quatro cabecas de serie: University of North Carolina (UNC), Kansas, Memphis e University of Califonia at Los Angeles (UCLA). Muito provavelmente, uma ou mais ficarao pelo caminho antes da fase final do torneio. Adivinhar os vencedores dos jogos e o passatempo nacional ate quinta-feira, dia do primeiro jogo — ate la, nao havera norte-americano que nao esteja a preencher um bracket. No meu, UNC vence o torneio, e o seu rival Dook e eliminado na segunda ronda.

Preco de um bilhete para a final: $400, no minimo.

Arthur C. Clarke

Morreu um pedaco da imaginacao. Para alem dos satelites geoestacionarios, do “2001: Odisseia no Espaco” e de dezenas de livros de ficcao cientifica, Arthur C. Clarke foi o responsavel por uma serie para televisao que a RTP transmitiu num periodo da sua historia em que nao havia espaco para astrologos nas folhas de pagamentos.

America

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Pode estar a viver uma das suas maiores crises financeiras, de luto por uma guerra que e um equivoco e de costas para a doutrina politica de um dos menos populares presidentes da sua historia, mas quando aqui se chega continua a sentir-se aquela Serenidade que nao sente em mais lado nenhum do mundo com densidade populacional nao desprezavel.

Colégio Eleitoral

Segundo o sitio electoral-vote.com, estes sao os actuais cenarios para o colegio eleitoral:

Obama 228 – McCain 301 – Empate 9 (mapa aqui)

Clinton 246 – McCain 248 – Empate 44 (mapa aqui)

Basta olhar para os dois mapas para perceber que o resultado das eleicoes de Novembro vai ser determinado pelo que acontecer nos mesmos 10 ou 15 Estados de sempre. So a Carolina do Sul – caso Obama seja o nomeado Democrata – e que nao esta habituada a este estatuto de swing state.

Stop!

Grand Central Terminal, Nova Iorque:
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Trafalgar Square, Londres:
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[Via VideosAver]

Buracos-negros, dragões e tribunais

Um auto-denominado investigador em “teoria do tempo” espanhol e um especialista norte-americano em seguranca radiologica interpuseram uma providencia cautelar para evitar o inicio da actividade do Large Hadron Collider (LHC), no CERN, prevista para Agosto. Segundo o pedido feito num tribunal do Havai, os cientistas e as varias comissoes que estudaram a seguranca do laboratorio ignoraram o risco que hipoteticos buracos-negros resultantes da colisao de protoes a energias muito elevadas representam para o nosso planeta, nomeadamente a Terra ser sugada por um desses. Em declaracoes ao New York Times, Nima Arkani-Hamed, do Institude for Advanced Study de Princeton, lembrou ainda que “[There is some minuscule probability] the Large Hadron Collider might make dragons that might eat us up“.

O “actualmente”

Sobre o conflito entre uma aluna e a sua professora numa escola do Porto, ja sabemos — e estavamos a espera — que os defensores do “antigamente” consideram as imagens ilustrativas da degradacao do espaco escolar. Obviamente, estes conflitos nao sao exclusivos do “actualmente” e so uma variante de Alzheimer pode explicar o fenomeno de esquecimento colectivo a que estamos a assistir. (Abstenho-me de descrever, por serem exemplos extremos, os conflitos tipicos nas salas de aula de uma escola de Setubal que frequentei, mas o Joao Pinto e Castro e o Miguel Abrantes lembram outros mais comuns.)

Talvez fosse interessante discutir o que aconteceu depois. A professora, certamente incomodada, nao comunicou o sucedido a Escola. Segundo o Expresso, o conselho directivo desta veio a saber atraves da DREN, que por sua vez teve conhecimento atraves de um email. Ora, as escolas deviam ter — e nao sei se esta em particular tem — estruturas competentes e de confianca a que os docentes possam recorrer com a maior das discricoes quando sujeitos a situacoes desta natureza. Os ambientes escolares nunca serao isentos de conflitos — nem o eram “antigamente” — e e a forma como estes sao resolvidos que ajuda a distinguir as boas das mas escolas. Quanto menos localizada for a sua resolucao, menos confianca sera depositada no sistema e outros conflitos serao potenciados.

Spare change?

[Clicar na figura para ampliar]

A Historia diz-nos que Martin Luther King lutou arduamente pelos direitos civis, luta essa que motivou a aprovacao pelo Congresso norte-americano do “Civil Rights Act” de 1964. Quatro anos depois, foi assassinado. O que e raramente referido, e a memoria colectiva nao reteve, e o que MLK fez entre 1965 e 1968.

Pouco meses antes de assassinado em Memphis, King e a Southern Christian Leadership Conference organizaram a Poor People’s Campaign que teve o seu momento mais visivel numa marcha em Washington, D.C.. Durante a campanha, foi exigida mais justica economica para as comunidades pobres dos Estados Unidos. MLK sabia que as recentes leis anti-discriminacao significavam muito pouco para aqueles que nada tinham. O objectivo primeiro da campanha era a aprovacao pelo Congresso da “Poor People’s Bill of Rights”, o que nunca veio a acontecer.

No final dos anos 60, a pobreza nos Estados Unidos atingia muitos afro-americanos, mas tambem as comunidades rurais caucasianas dos Apalaches (Georgia, Carolinas, Virginias), as comunidades emergentes de hispanicos ao longo dos estados-fronteira (Sul da California, Arizona, Novo Mexico, Texas) e a maioria dos indio-americanos.

Ha alguns dias, Barack Obama fez um discurso sobre a “racial divide”. Muitos viram neste discurso uma personificacao de MLK, louvando a coragem do acto. De repente, estavamos em 1965 e era como se nada tivesse acontecido nos Estados Unidos nos ultimos 40 anos. Obama e um orador estupendo: e cativante, apelativo, energetico. E o tema da “racial divide” e apaixonante. Mas e o tema errado para o actual contexto. E por isso, nao posso deixar de ver neste discurso uma justificacao sofisticada para a sua associacao ao Reverendo Wright.

Do que Obama podia ter falado de forma mais clara e da “economical divide”. Daquilo que motivou MLK nos ultimos tres anos de vida, Robert Kennedy nas primarias Democratas de 1968 e John Edwards nos ultimos dois anos. A discriminacao economica e uma realidade nos EUA. Atinge principalmente afro-americanos, hispanicos e indio-americanos, mas tambem asiaticos e caucasianos. Reduzir os conflitos sociais nos EUA as diferencas etnicas e ficar um passo aquem do necessario. Como em 1968.

Inversão do tempo

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