Disenfranchised

Disenfranchised é o que se diz nos Estados Unidos sobre quem está afastado do processo eleitoral. Rigorosamente, significa aqueles a quem foi negado o direito de voto. No passado, seriam as mulheres, os negros, e a negação era formal. Actualmente, significa, maioritariamente, os pobres. Não porque lhes seja negada a escolha, mas porque estão de tal forma desarticulados com a discussão política que a sua participação é, efectivamente, desencorajada. As eleições serem a uma terça-feira, sem feriado, contribui para que os menos favorecidos - trabalhadores precários e sem mobilidade - não votem. A reforma do sistema eleitoral norte-americano deveria passar por aqui. Mas se estão disenfranchised, quem é que os ouve?

Bad news

Os primeiros exercícios sobre as eleições de Novembro não são muito favoráveis aos democratas. No cenário em que John McCain é o candidato dos republicanos, Clinton ou Obama não são capazes de vencer o colégio eleitoral. São exercícios prematuros, é certo, mas não deixam de chamar a atenção para o facto de que uma candidatura republicana com um discurso que gravita em torno da segurança e manifestamente defunta em políticas económicas ainda é competitiva.

Cenário 1: Clinton 251, McCain 287;
Cenário 2: Obama 242, McCain 289, Indecisos 7.
[Fonte: electoral-vote.com]

Barack

O debate de há dois dias entre os três principais candidatos democratas confirmou que Barack Obama sente muitas dificuldades em defender a sua plataforma política, tentando preencher esse vazio com o apelo à unidade, com a afirmação da sua independência relativa a Washington e com o recurso a piadas, tudo isso blended por um charme típico de quem viveu em Cambridge. Nesse sentido, Barack Obama é a versão sofisticada do candidato George W. Bush de 2000.

Roller coaster

Acho que o Rui Branco já o escreveu no seu excelente blogue Economia e Finanças, mas à luz do que se tem passado nas últimas horas, nunca é demais referi-lo: não seria de bom tom os media esperarem pelo fecho dos mercados accionistas antes de comentarem sobre as suas subidas ou descidas?

Hard-core

É uma comparação recorrente e ouvi-a este fim de semana, mais uma vez, num almoço de família. Dizem, alguns católicos, que alguns de nós, ocidentais, aceitamos melhor a intolerência do discurso religioso muçulmano do que a do católico. O exemplo recente põe lado a lado a crítica pública de alguns académicos da universidade La Sapienza a um discurso proferido nos anos 90 pelo então Cardeal Ratzinger - e que motivou a não comparência deste na universidade - e a aparente suavidade e coordialidade com que o presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, foi recebido, em Setembro último, nos Estados Unidos. Mas terá mesmo sido assim?

Não parece possível, mas Mahmoud Ahmadinejad estava lá. Aparece, encolhido, nos últimos segundos desta gravação* do discurso de recepção feito por Lee Bollinger, presidente da Columbia University, que o tinha convidado como orador. Uma coisa parece funcionar a seu favor, na comparação com Ratzinguer: aceitou o convite e compareceu, sabendo que não estava em território neutro. [* via ShizNoGud]

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Transparência

O Hugo questiona a transparência do sistema eleitoral norte-americano. Há dois elementos do processo que estão, de facto, longe de ser transparentes para a generalidade dos eleitores. E muito menos para quem, como nós, observa de longe.

O primeiro, é o recenseamento eleitoral. Ao contrário de Portugal, nos Estados Unidos o recenseamento não é obrigatório. As entidades que o supervisionam são estaduais e as regras são diferentes entre os cinquenta estados. Por exemplo, na California é possível registar-se como eleitor até 15 dias antes de uma eleição. Na Virgínia, são precisos 29 dias. Há Estados onde o recenseamento pode ser feito por correspondência e outros onde é possível fazê-lo junto das bancadas de campanha partidária numa qualquer feira de rua, bastando preencher um formulário, mostrar a carta de condução e assinar um compromisso de honra em como se preenche todos os requisitos para poder votar. Em 2000, na Florida, muitos condenados por crimes menos graves foram excluídos do recenseamento embora a lei eleitoral estadual só não o permitisse a condenados por crimes graves. A maior parte eram afro-americanos e teriam votado em Al Gore.

O segundo processo menos claro é o mecanismo de votação. Em 2000, o que aconteceu na Florida motivou muitos governos estaduais a reverem os seus processos de votação, muito deles mecânicos. Poderíamos ser levados a pensar que a introdução de sofisticadíssimas máquinas de voto electrónico ajudariam a resolver problemas como os verificados na Florida. Não ajudam. E pior do que isso, mais difícil vai ser detectar problemas e falhas. O voto electrónico é uma das maiores ameças actuais ao exercício de voto. O que se passou na Florida em 2000 pode parecer ridículo aos olhos de muitos, mas um registo de voto em papel é verificável por qualquer pessoa. Um computador, por outro lado, é uma caixa negra para a generalidade das pessoas. O voto electrónico é muito menos transparente do que o voto em papel.

Nevada: what happens in Vegas stays in Vegas

Nada a dizer sobre os caucuses de hoje. Por respeito ao ditado (e ao Edwards).

Shahryar Mazgani

Shahryar Mazgani é um músico estupendo. Vale a pena ouvir a entrevista de ontem, na TSF, conduzida pelo Carlos Vaz Marques. Pela música, pela sua voz extraordinária, e pelas histórias de um rapaz que aos cinco anos fugiu com os pais de Teerão e se refugiou em Setúbal.

Política Wiki

Motivado pela recente edição em Portugal do livro de Don Tapscott e Anthony D. Williams, “Wikinomics: A Nova Economia das Multidões Inteligentes”, voltei a um artigo de Douglas Rushkoff a que cheguei pela primeira vez através do Ruben Eiras, do blogue Casa da Liberdade. “Open Source Democracy” (formato PDF) ilustra e discute como a internet está a transformar a acção política. Tal como o LINUX, que é um sistema operativo desenvolvido pela comunidade de utilizadores, Douglas Rushkoff defende que estamos perante a renascença da participação política dos cidadãos, a qual conduzirá, inevitavelmente, a uma maior horizontalidade das decisões que definem o bem estar das populações.

Poderíamos ser levados a pensar que a discussão recente sobre o novo aeroporto de Lisboa se aproxima desta forma de democracia, mas nada mais errado. Um dos fundamentos que a sustenta, é, em linguagem computacional, o da completa abertura do código aos utilizadores. E um dos seus pressupostos, o das multidões serem inteligentes. Ora, nem os códigos estavam abertos - grupos de interesse, anónimos, financiaram um estudo técnico - nem as multidões são inteligentes - de outra forma, teriam denunciado os estudos sobre o impacto das aves na segurança dos aviões, estudos esses que duraram apenas três meses, ou contestado a relevância dada ao impacto financeiro das decisões, que embora de muitos milhões, representa só uma diferença de 5%.

South Carolina: um mastro pouco religioso

Mike Huckabee, antigo pastor evangelista e candidato republicano à nomeação para as presidenciais, ontem, na Carolina do Sul, segundo a CNN: “You don’t like people from outside the state telling you what to do with your flag. (…) In fact, if somebody came to Arkansas and told us what to do with our flag, we’d tell them where to put the pole“.

Há precisamente oito anos, na mesma Carolina, e depois de John McCain ter ganho as primárias de New Hampshire contra o favorito George W. Bush, a campanha eleitoral no campo republicano atingiu níveis extremos de negativismo.

Ora, na Carolina do Sul, um terço dos eleitores registados como republicanos são conservadores religiosos e as campanhas fazem esforços tremendos para os agradar. Mas, pelo que se vê, não é com histórias da bíblia que se deixam seduzir.

Duas argolas de metal

Argolas é o blogue da Catarina Martins. A Catarina é actriz, produtora, defensora dos espaços públicos de exibição artística e uma querida amiga de há muitos anos, quando o teatro nos uniu em torno de um projecto que ela, o Pedro, a Ana e o Carlos têm mantido com enorme carinho: o Visões Úteis.

Byblos

Ontem fui à Byblos. Já muito se escreveu sobre a nova livraria, a maior parte das vezes para afirmar um certo descontentamento. Justificável, ou não, é-me indiferente. É certo que há muitos livros para a mesa do centro da sala, muitos livros do Miguel Sousa Tavares e muitos mais do José Rodrigues dos Santos. Há mais livros sobre astrologia do que astronomia mas o contrário não seria de esperar: afinal, o destino desenhado pela Maya é mais apelativo do que as condições físicas que permitem a Maya existir. O excessivo número de seguranças fez-me recear pela vida quando abri a mochila. E já que falamos sobre isso, tenho sentido uma certa repulsa social por quem anda de mochila às costas, que é o meu caso. Voltando à Byblos: porque é que a secção de livros para crianças é no piso térreo, na sua zona menos visível, junto a uma porta de saída? Por regra, esta secção fica sempre longe das portas, em zonas de grande amplitude visual. Neste tipo de livrarias, é bom poder estar com um olho na última edição de capa rígida em formato A2 sobre aviões da primeira guerra e com o outro olho nos putos. Mesmo assim, gostei de lá ir. É ampla, com boa luz e agradável. E fica ao pé da Apple store, que, tal como a Byblos, segue o modelo anglo-saxónico mas é feita em Portugal, e sobre isso não há nada a fazer.

Isto não é um OVNI

MacBook Air, o mais recente portátil da Apple.

Onion News Network

Estes tipos são tão bons que não admira que um blogger muuuito famoso os tenha levado a sério há alguns anos. [Via ShyzNoGud]

Tentativa descarada de contornar a realidade

Felizmente para este tipo, e para mim, o próximo jogo é com o Lagoa. Em casa.

Alcochete

Algumas questões avulsas sobre o processo de decisão da localização do novo aeroporto de Lisboa:

1. Tendo o estudo da CIP sido financiado por entidades desconhecidas do público em geral, porque razão é que o Presidente da República lhe deu crédito?

2. O estudo do LNEC é um estudo comparativo entre dois estudos com metodologias diferentes, ou é um estudo independente, com metodologia própria?

3. Independentemente da resposta à pergunta anterior, escreve-se no capítulo 3 do estudo do LNEC (pp. 20-21): “A realização de um Estudo sobre um projecto de importância nacional, num prazo relativamente reduzido para um estudo comparativo onde o diferencial de conhecimento disponível sobre as características das duas localizações em análise é significativo (…)“.

4. Qual é a relação entre alguns centros de investigação de universidades portuguesas e algumas das empresas de consultoria em engenharia? Mais especificamente, e sem esgotar a pergunta inicial: existe overlap de recursos humanos e logísticos entre os dois?

P.S. - Ler, também, estas questões levantadas pelo Miguel Abrantes.
P.S.2 - Ler o João Pinto e Castro.

América polarizada

Um dos efeitos perversos da excessiva polarização política da sociedade norte-americana, polarização essa que surge como resposta à actuação da administração Bush, um dos efeitos, dizia eu, é a uniformização da opinião política de oposição. Actualmente, o discurso que apela à mudança assenta numa plataforma que é essencialmente anti-guerra e pró-recuperação-económica e os programas políticos dos três principais candidatos do partido democrata - ver aqui, num excelente dossier do New York Times, ou olhar para o gráfico gerado por este teste -, são muito semelhantes. As diferenças, quando existem, residem mais na operacionalização do que na definição das políticas internas. A nível externo, tudo do mesmo.

Há inúmeras questões interessantes que resultam daqui, obviamente, e irei abordar algumas delas ao longo das próximas semanas. Mas, para já, aquilo que devemos perceber é que quando nós, europeus, mais preocupados com as políticas externas do que com as internas, mostramos preferência por um candidato democrata, estamos, em boa parte, a fazer uma escolha de carácter. É isso que o Daniel Oliveira faz aqui. E quando o Daniel considera que John Edwards procura um nicho de radicalidade que não corresponde ao seu percurso político, está a esquecer-se, primeiro, que Edwards anda há três anos a construir esta plataforma, segundo, que essa radicalização do discurso sobre matérias internas - economia, educação, emprego - não é mais do que uma evidência do que está em causa nas eleições de Novembro, e, terceiro, que é partilhada por Barack Obama e Hillary Clinton.

Footprint

O novo carro produzido pelo grupo indiano Tata custa apenas dez vezes mais do que essa coisa muito em voga, absolutamente detestável, que faz uso de cápsulas descartáveis chamada Nespresso. Como é que é mesmo? : dois à quinta potência dá 32

Electoral Compass USA

Através do Hugo, cheguei ao Electoral Compass USA, um teste político rápido, inteligente e com um grafismo muito apelativo. Embora tenha obtido um substantive agreement com Edwards (81%) superior a Obama (80%), a posição no plano políticas económicas vs. poltiticas sociais coloca-me mais próximo do último.

Your position in comparison with the candidates.
You have responded to 36 propositions. Based on the responses you provided, you are the closest to Barack Obama and you are the furthest away from Fred Thompson:

Barack Obama
You are 9% economic left
You are 1% more traditional
You have a substantive agreement of 80%
John Edwards
You are 5% economic left
You are 10% more progressive
You have a substantive agreement of 81%
Hillary Clinton
You are as economic right as economic left
You are 15% more progressive
You have a substantive agreement of 74%
Bill Richardson
You are 3% economic left
You are 14% more progressive
You have a substantive agreement of 75%
Ron Paul
You are 53% economic left
You are 31% more progressive
You have a substantive agreement of 48%
Rudy Giuliani
You are 58% economic left
You are 50% more progressive
You have a substantive agreement of 44%
John McCain
You are 50% economic left
You are 64% more progressive
You have a substantive agreement of 42%

Nesta lista, seguem-se três senhores que o pudor me aconselha a não listar.

Fado

Seabra Santos, reitor da Universidade de Coimbra, hoje de manhã, na TSF:

A lei é muito vaga em matéria de informações sobre o que é uma fundação pública de direito privado, de que forma vão ser geridas estas instituições fundacionais e quais são as vantagens e inconvenientes que daí podem decorrer“.

Fascinante. O reitor da Universidade de Coimbra acha que cabe ao governo esclarecer as universidades sobre as “vantagens e os incovenientes” que podem decorrer destas optarem por ser fundações. Dito de outra forma: a Universidade de Coimbra não tem capacidade, nem engenho, para, recorrendo aos seus orgãos constituídos por eminências catedráticas, analisar o risco de uma decisão.

Das 14 universidades públicas, só Aveiro e o Porto não se deixaram embalar por este fatalismo funcional.

Actualização: Segundo a Lusa, o ISCTE é a terceira instituição de ensino superior a avançar com uma proposta para passagem a fundação pública de direito privado.

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