Um milhão
“Um milhão. Fique atento a este número, 1.000.000. Nos próximos dias ouviremos falar muito dele e vamos lê-lo amiúde“. Aqui.
Uma causa maior do que o resto?

Talvez John Edwards tenha considerado que ao abandonar sem declarar o apoio a nenhum dos outros candidatos, estes tentariam, durante a semana que antecede a Super Tuesday, conquistar energeticamente o espaço que era seu. E que para o fazer teriam que adoptar a plataforma de combate à pobreza como deles. Se assim foi, esta decisão pode fazer mais pela promoção da responsabilidade colectiva no combate à pobreza do que os últimos três anos que Edwards dedicou ao projecto como primeiro director do Center on Poverty, Work and Opportunity da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.
Vista curta
A última vez que comprei um PC com Windows andava a coisa pelo 98. A partir daí, Linux primeiro e agora Mac OS X. Ontem, como bom genro que sou, ofereci-me para comprar e configurar um PC com Windows Vista. Que pesadelo! Ao terceiro reboot, tinha mais de quatro pop-ups a avisar que o novíssimo portátil poderia explodir. Acho que o Bill Gates tem um assunto qualquer mal resolvido com a sogra.
John Edwards
John Edwards vai anunciar, quando forem 18 horas em Lisboa, a desistência da corrida à nomeação democrata. Faltam pouco mais de 24 horas para o debate entre os candidatos democratas e menos de uma semana para a Super Tuesday.
As razões para esta decisão só Edwards e os conselheiros mais próximos conhecem. No entanto, e quaisquer que elas sejam, o impacto vai para além do partido democrata. Pelo que se viu na Carolina do Sul e em New Hampshire, o discurso de Edwards centrado em torno da problemática da pobreza ressuou pouco com aqueles a quem mais se dirigia. De facto, Edwards era o candidato com a plataforma mais esquerdista, mas uma dinâmica mais complexa do que os estrategas desejam, transformou-o no candidato dos centristas.
Ao abandonar a corrida antes da Super Tuesday, o antigo senador da Carolina do Norte deixa muitos desses eleitores orfãos de referência. Do outro lado, McCain assume-se cada vez mais como o candidato moderado. Algumas das primárias do próximo dia 5 são “abertas”, o que significa que os eleitores registados de um partido podem votar nas primárias do seu ou do outro partido.
Se Edwards era, de facto, o candidato que atraia o eleitorado centrista, a sua saída prematura pode provocar, em alguns estados com primárias “abertas”, um desvio para a candidatura de McCain. Ora, as primárias são excelentes palcos de recrutamento eleitoral. Se esta transferência acontecer, o partido democrata vai ter que ser muito criativo em Novembro.
Visões Úteis (post intimista)
Fico muito orgulhoso por um grupo muito especial de amigos ter construído um projecto como o Visões Úteis. As duas páginas que o suplemento P2 do Público de hoje dedica ao documentário “A Caminho do Resto do Mundo” sobre a cidade do Porto para lá da circunvalação vem reforçar esse sentimento.
Eu não assisti, como não assisti, aliás, à maior parte das produções ao longo dos últimos sete anos, mas a ideia de desenvolver uma peça de teatro - teatro in itinere, para ser mais preciso - tendo como cenário o interior de um táxi que circula pelos bairros mais esquecidos da cidade do Porto parece muito interessante. Parece-me a mim, e parece ao suplemento Y do Público que considerou o “Resto do Mundo” a quinta melhor produção teatral de 2007 vista em Portugal. É essa produção que serve agora de suporte, juntamente com imagens captadas por rapazes e raparigas desses bairros, ao documentário que vai ser apresentado no próximo Festival de Teatro de Expressão Ibérica.
À Ana, ao Carlos, à Catarina, ao Pedro, e a todos os que com eles têm colaborado ao longo dos últimos 13 anos, um abraço muito especial.
Peer pressure
Sexta-feira é dia de carnaval na creche e aos pais foi pedido que mascarassem os filhos. Que não é “obrigatório”, mas que todos as outras crianças da classe vão. Crianças essas que nem dois anos têm.
Demografia
Chamaram-me a atenção (obrigado Miguel Alves e Mariana) para um artigo de Jay Cost no Real Clear Politics sobre a importância da demografia nas primárias democratas, algo que já aqui referi em diversas oportunidades. De facto, e embora a demografia norte-americana seja extremamente complexa, ela poderá ser determinante na escolha entre Hillary Clinton e Barack Obama. Os resultados na Carolina do Sul são disso um exemplo.
Há, no entanto, uma chamada de atenção para algo que me parece ser ignorado no artigo. Os processos eleitorais na Carolina do Sul e no New Hampshire, por um lado, e no Iowa e no Nevada, por outro, são de natureza diferentes. Os primeiros são primárias e os segundos caucuses. E isso pode comprometer uma comparação entre os comportamentos demográficos nos primeiros e nos segundos estados.
Em qualquer caso, vale a pena ler o artigo. Se olharmos para o que aconteceu no New Hampshire e na Carolina do Sul, e para a última tabela que Jay Cost elaborou, podemos antecipar más notícias para Barack Obama. Mas atenção, o antigo senador do Illinois está a trazer novos eleitores para o processo e a demografia do partido democrata não é a mesma do resto do país (a que a tabela no artigo se refere). Por exemplo, na Carolina do Sul, 30% dos habitantes são afro-americanos e, no entanto, estes acabaram por representar 53% dos eleitores nas primárias de sábado.
Bye-bye, Mr. President

[Não se pense que o presidente dos EUA foi apanhado num momento de maior rudeza. Os texanos cumprimentam-se assim, em referência aos longhorns.]
Logo à noite, George W. Bush vai fazer o último disurso sobre o “estado da união” perante o Congresso. Já muito se escreveu e disse sobre a mais desastrosa presidência na história dos Estados Unidos. Mesmo assim, vale a pena ler este artigo do New York Times sobre aquilo que esta administração poderia ter feito, caso se tivesse mantido fiel às ideias difundidas no primeiro discurso de há sete anos.
Há fotografias que ficam muito bem aqui

A minha primeira ida ao Alvalade XXI poderia ter corrido melhor. Bastava o Sporting ter jogado bem e a Mariana referido que teria sido boa ideia levar headphones. É certo que o estádio é bonito e o cartão de leão, os écrans gigantes, as cheerleaders e as chuteiras do Miguel Veloso lhe dão um toque moderno-kitsch, que é o que se pretende. Mas nem no peão da superior sul do estádio do Vitória de Setúbal, em plena crise social e económica dos anos 80, se ouviam coisas assim.
Os novos eleitores
O Hugo escreve aqui sobre a importância do swing voter - o eleitor que vota no partido democrata ou republicano em função do candidato com que mais se identifica. Se é verdade que estes eleitores são fundamentais, principalmente nos swing states - estados como Ohio, Flórida ou Missouri que elegem grande-eleitores republicanos ou democratas consoante as circunstâncias -, há um elemento novo que ontem se mostrou mais importante que nunca.
Barack Obama está a trazer para a campanha novos eleitores. A maior parte deles afro-americanos pobres, ou jovens caucasianos das classes média e média-alta (ver aqui, por exemplo, numa boa análise das exit polls). Pessoas que, tradicionalmente, e por razões muito distintas, têm uma participação reduzida nas eleições norte-americanas. Este dado é importante, porque as primárias têm a capacidade de mobilizar as bases para as eleições de Novembro. Se há novos eleitores no processo, é fundamental garantir que eles irão às urnas daqui a dez meses. O problema é que se Hillary Clinton utilizar, nos próximos dias, uma estratégia muito agressiva contra Obama, como a que utilizou na Carolina do Sul, poderá estar a promover anticorpos nesta nova faixa de eleitores. Se ela for a candidata nomeada, esses anticorpos vão originar a debandada e o universo de eleitores passa a ser o mesmo de sempre. É um equilíbrio que, estou certo, o núcleo duro de Clinton está a estudar.
South Carolina: spin
Barack Obama vai discursar em breve. Com o dobro dos votos de Hillary Clinton, será uma tarefa fácil. Mas há um spin que terá sempre maior atrito: as demografias, nos EUA, são muito mais importantes do que os comentadores querem fazer crer.
South Carolina: exit polls
A CNN projecta a vitória de Barack Obama e antecipa uma disputa pelo segundo lugar. Segundo as exit polls, 82% dos eleitores afro-americanos votaram em Obama: 82% dos homens e 82% das mulheres. Não há a menor dúvida que a questão étnica determinou o resultado das primárias de hoje. E isso não são muito boas notícias para Obama. A demografia da Carolina do Sul é muito diferente da do resto do país.
South Carolina: bolsa política
Na bolsa de expectativas da CNN, a vitória de Obama por entre cinco e dez pontos percentuais é o resultado com cotação mais elevada e o que mais se tem valorizado nas últimas 24 horas.
South Carolina: Y’all (II)
No seguimento de algumas das questões que abordei no post anterior, ler o Nuno Gouveia, que tem estado a acompanhar, no âmbito de uma dissertação de mestrado, as eleições presidenciais norte-americanas no blogue Eleições Americanas de 2008.
South Carolina: Y’all
As primárias democratas de hoje são muito importantes por várias razões: a Carolina do Sul é o estado mais etnicamente polarizado dos Estados Unidos, é o primeiro estado do sul a votar e o último antes da Super Tuesday (Flórida, na próxima terça-feira, não conta porque o DNC não considera válidas as pretensões do partido democrata local em antecipar as eleições).
30% da população da Carolina do Sul é afro-americana e todos, sem excepção, são apoiantes do partido democrata. Se existe algum factor étnico no voto em Barack Obama, é hoje que ele será mais visível. Isto é o mesmo que dizer que muito dificilmente Obama terá um melhor resultado eleitoral noutros estados. As exit polls vão ajudar a clarificar este assunto hoje melhor do que nunca.
Ao ser o primeiro estado do sul a votar, o nível de participação eleitoral pode ajudar a determinar o potencial de motivação das bases que o novo partido democrata, liderado por Howard Dean, poderá promover em Novembro. Howard Dean, ao contrário dos seus antecessores, tem defendido a ideia que os democratas devem lutar por vencer todos os actos eleitorais, em todos os círculos eleitorais. Em 2006, essa estratégia permitiu aos democratas conquistaram lugares na câmara de representantes, lugares esses respeitantes a círculos anteriormente considerados impossíveis de conquistar. Qualquer que seja o candidato democrata em Novembro, terá que se lançar em campanha num sul historicamente hostil.
Ao serem as últimas primárias antes da Super Tuesday, as eleições de hoje irão, certamente, ajudar a solidificar ou destruir expectativas de vitória. O spin e os discursos de logo à noite irão ser fundamentais no arranque de uma já histórica campanha eleitoral.
Support the revolution, love the community
[Trailer do documentário MacHEADS, via VideosAver]
Transplante de medula
O que é verdadeiramente fantástico naquilo que o João Pinto e Castro refere aqui - que o presidente da reserva federal norte-americana não sabia o que se tinha passado no banco francês Société Générale quando decidiu baixar as taxas de juro em 0,75 pontos percentuais - o que é fantástico, dizia eu, é que a acção de um único indivíduo, sentado à frente de um terminal de computador, em Paris, num contexto de enorme nervosísmo dos mercados financeiros pode condicionar a política monetária de um país como os Estados Unidos. Como é que um sistema sobrevive quando se mostra assim tão vulnerável?
Hipoteticamente falando
O partido social democrata contratou a empresa de comunicação Cunha Vaz & Associados para dar uns retoques (valentes) na sua imagem. Desde o início que alguns detalhes da associação entre a empresa e o PSD têm sido comentados nos blogues e na comunicação social. Das duas, uma:
A Cunha Vaz & Associados é péssima e não consegue promover no seu cliente a discrição recomendada neste tipo de ligações. Hipoteticamante falando, repito, hipoteticamente falando, qual seria o meu interesse em vestir uma camisa para promover a minha imagem de tipo decente e, ao mesmo tempo, dizer que tinha sido a minha mãe a comprá-la?;
Ou então, a Cunha Vaz & Associados é muito boa a promover a sua imagem e está, pura e simplesmente, a borrifar-se para o seu cliente, o PSD. No mundo dos negócios, há poucas coisas melhores do que publicidade gratuita.
NY Times: Clinton e McCain
O conselho editorial do New York Times declarou o seu apoio às candidaturas de Hillary Clinton e de John McCain. A pouco mais de uma semana da Super Tuesday, com primárias em cerca de 20 estados, incluindo Nova Iorque e Califórnia, o anúncio de apoio a Clinton por parte do jornal preferido dos liberais (=liberals) - não confundir com liberáááis (=libertarians), com acentuação na última sílaba para enfantizar a pronúncia portuguesa - é um momento relevante da campanha. No campo republicano, o apoio a McCain é menos determinante até porque o New York Times é confiscado nos postos fronteiriços dos “red states” - basta ler o primeiro parágrafo do editorial sobre os candidatos republicanos (ver mais em baixo) para perceber porquê.
Sobre Hillary Clinton:
“When we endorsed Mrs. Clinton in 2006, we were certain she would continue to be a great senator, but since her higher ambitions were evident, we wondered if she could present herself as a leader to the nation.
Her ideas, her comeback in New Hampshire and strong showing in Nevada, her new openness to explaining herself and not just her programs, and her abiding, powerful intellect show she is fully capable of doing just that. She is the best choice for the Democratic Party as it tries to regain the White House.”
Sobre John McCain:
“We have strong disagreements with all the Republicans running for president. The leading candidates have no plan for getting American troops out of Iraq. They are too wedded to discredited economic theories and unwilling even now to break with the legacy of President Bush. We disagree with them strongly on what makes a good Supreme Court justice.
Still, there is a choice to be made, and it is an easy one. Senator John McCain of Arizona is the only Republican who promises to end the George Bush style of governing from and on behalf of a small, angry fringe. With a record of working across the aisle to develop sound bipartisan legislation, he would offer a choice to a broader range of Americans than the rest of the Republican field.”
Convenções
Um artigo interessante de Andrew Tanenbaum, no estilo que lhe é habitual, sobre os cenários que poderão emergir durante as convenções dos partidos democrata (Denver, Colorado, 25 a 28 de Agosto) e republicano (Twin Cities, Minnesota, 1 a 4 de Setembro).


