2007: ano Al Gore


[Fotografia: autor não identificado]

Em 2007, Al Gore recebeu o prémio Nobel da paz. Em 2007, Al Gore decidiu não se candidatar às primárias do partido democrata. Os Estados Unidos perderam o seu melhor líder político e o mundo ganhou uma referência humanista.

RAP salva PSD

É, talvez, o efeito mais inesperado da entrevista de Miguel Esteves Cardoso a Ricardo Araújo Pereira publicada na revista do Expresso de sábado passado. Na mesma edição, em entrevista publicada no caderno principal, Luís Filipe Menezes elabora sobre o seu desejo em “desmantelar” o Estado em seis meses. Eu sei que ninguém reparou, deslumbrados que estavam com o encontro entre MEC e RAP. Mas está lá, garanto.

Investimento público

A seguir, o excerto de uma conversa de Barack Obama com Warren Buffet, um dos homens mais ricos do mundo. Como aperitivo, refira-se que Warren Buffet doou recentente 85% da sua fortuna, estimada em 44 mil milhões de dólares, à Fundação Bill e Melinda Gates. No que a seguir se reproduz - obrigado, Hugo, por o teres transcrito - fica-se a perceber melhor a sua motivação.

Páginas 191-193 do livro “A Audácia da Esperança”, de Barack Obama:

“Estava sentado no gabinete de Warren Buffet, presidente da Bershire Hathaway e segundo homem mais rico do mundo. Tinha ouvido falar da famosa simplicidade dos gostos de Buffet - que ainda vivia na modesta casa comprada em 1967, e pusera todos os filhos em escolas públicas do Omaha. Mesmo assim, fiquei um pouco supreendido quando avancei para um vulgar edifício de escritórios no Omaha e entrei para o que parecia ser um gabinete de agente de seguros, revestido com imitação de madeira, meia dúzia de pinturas decorativas nas paredes e ninguém à vista. ‘Pode entrar’, ordenara uma voz de mulher, e eu virei a esquina do corredor para dar com o Oráculo de Omaha em pessoa, a rir com a filha, a Susie, e a assistente, a Debbie, com o fato ligeiramente amarrotado e as sobreancelhas farfalhudas espetadas por cima dos óculos.

Buffet convidara-me para vir a Omaha discutir política fiscal. Mais precisamente, queria saber por que motivo continuava Washington a cortar nos impostos no seu escalão estando o país falido.
- Um dia destes estive a fazer umas contas - disse-me, enquanto nos sentávamos no escritório. - Embora nunca tenha recorrido a um refúgio fiscal nem tido um gestor de impostos, depois de contados os impostos sobre os rendimentos que todos pagamos, eu pagarei uma taxa de impostos efectiva mais baixa do que a minha recepcionista. De facto, estou bastante certo de que terei uma taxa mais baixa do que o americano médio. E se o Presidente for com a sua para diante, vou pagar ainda menos.

A reduzida taxa de Buffet era consequência do facto de que, tal como a maior parte dos americanos abastados, quase todos os seus rendimentos virem de dividendos e ganhos de capital, ou seja, rendimentos de investimento, que, desde 2003, são taxados apenas a quinze por cento. O salário da recepcionista, por sua vez, era taxado ao dobro (…). Do ponto de vista de Buffet, a discrepância era incompreensível.
- O mercado livre é o melhor mecanismo jamais concebido para dar aos recursos o uso mais eficiente e mais produtivo - explicou-me. - O Governo não é particularmente bom a fazer o mesmo. Mas o mercado já não é tão bom a distribuir com justiça e ponderação a riqueza produzida.E faz todo o sentido que nós, que mais beneficiamos com o mercado, paguemos uma parte maior.
Alguma dessa riqueza tem de ser reinvestida em educação, para que a próxima geração tenha hipóteses justas, e para manter as nossas infra-estruturas, e garantir algum tipo de rede de segurança para aqueles que perdem com a economia de mercado.

Passámos mais duas horas a falar sobre globalização, salários dos executivos, agravamento do défice e dívida nacional. Entusiasmou-se em especial com a proposta de Bush para eliminar o imposto sucessório, medida que entendia fomentar uma aristocracia assente na riqueza mais no que no mérito.
- Se nos livrarmos dos impostos sucessórios - explicou -, o que estamos a fazer é a entregar o controlo dos recursos do país a pessoas que não fizeram nada para os merecer. É o mesmo que escolher a equipa para os Jogos Olímpicos de 2020 junto dos filhos dos vencedores dos Jogos de 2000.

Antes de sair, perguntei-lhe quantos dos seus companheiros bilionários tinham a mesma opinião. Riu-se.
- Confesso que não são muitos - respondeu. Eles acham que é o ‘dinheiro deles’ e que merecem ficar com tudo até ao último cêntimo. O que não contam é com todo o investimento público que lhes permite viver como vivem. Eu sou um exemplo. Calhou ter talento para aplicar capital. Mas a minha capacidade para usar esse talento dependente completamente da sociedade em que nasci. Se tivese nascido numa tribo de caçadores, este meu talento de pouco valeria. Não sou grande corredor. Não sou especialmente forte. O mais provável era acabar no papo de algum animal. Mas tive a sorte de nascer num tempo e lugar onde a socidade dá valor aos meus talentos e proporcionou-me uma boa educação para desenvolver esse talento, e montou as leis e o sistema financeiro para me deixar fazer o que adoro fazer - e fazer bom dinheiro com isto. O mínimo que posso fazer é ajudar a pagar tudo isto.”

Goodnight

Apetecia-me escrever umas coisinhas sobre esta patologia de publicar gráficos nos blogues sem referir as fontes. Parece que tanto faz se foram encontrados nas páginas de um organismo oficial de estatística, ou num cantinho íntimo do MySpace.

E isto, feito por quem é exigentíssimo para com uma comunidade inteira de cientistas que recolheu e analisou GB de informação sobre condições climáticas, e que depois, baseados nesse trabalho sólido, verificado por outros, concluiu que existe uma componente antropogénica no aquecimento global.

Pelos vistos, para algumas pessoas, ciência e apresentações de powerpoint é tudo a mesma coisa.

Mas pronto. É natal. Fiquem com “Goodnight Moon” dos Shivaree, encontrado pelo meu amigo Hugo Mendes. Até para a semana.

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Depois do Tiago, o Jacinto

A opção colectivista dos bloggers de direita está a revelar-se suícida. Percebe-se: o colectivismo é organicamente esquerdista.

Pop evangélico

Desde muito cedo a administração Bush fez da abstinência sexual dos adolescentes um “valor” a defender agressivamente. Injectaram 175 milhões de dólares por ano em novas campanhas, substituindo-as às de prevenção e de planeamento familiar, escolheram Britney Spears - quem foi o idiota? - como símbolo da mensagem e esperaram. Literalmente. Agora, e pela primeira vez em 14 anos, o número de adolescentes que deram à luz nos EUA aumentou. E aumentou três por cento sobre uma taxa de incidência que já é das maiores entre os países mais desenvolvidos.

20 imagens e ecos de 2007


[Fotografia: JoãoLuc]

Através do Womenageatrois, chego a 20 imagens e ecos de 2007, um último trabalho do blogue Posto de Escuta que chega ao fim.

O Zé faz falta!

A EMEL rebocou um carro de matrícula alemã. O dono, a trabalhar em Portugal, acha pouco os 90 euros que vai pagar: “uf!, pensei que fosse mais de 200 euros”, comentou. A EMEL, que é uma empresa municipal, deveria indexar o valor das multas ao PIB per capita das matrículas. Foi isso que o PSR fez ao preço das cervejas num acampamento internacional de jovens revolucionários, há alguns anos, na Lousã. Andas distraído, ó ?

O dilema das primárias (III)

Poderíamos ser levados a pensar que a excessiva importância de alguns estados no processo de escolha dos candidatos conduziria a uma reforma do sistema. De facto, 2008 será o último ano do actual modelo das primárias, o que é um sinal positivo. Mas a alternativa tem detalhes surpreendentes. Proposto pela National Association of Secretaries of State, o novo modelo consiste em agrupar os estados em quatro zonas geográficas, sendo cíclica a ordem pela qual votam. As quatro regiões, não. As seis. Isto, porque Iowa e New Hampshire, devido à “tradição em promover a participação política”, continuariam a votar em primeiro e segundo lugar. Há argumentos do caraças, não há?

O dilema das primárias (II)

Quatro semanas após os caucuses do Iowa, só sete estados terão votado nas primárias democratas e nove nas republicanas. Depois, num único dia, o processo desenrola-se em 19 estados no caso republicano, e em 22 no caso democrata. Entre eles, Nova Iorque e Califórnia, os dois mais populosos. Conhecida como “super terça-feira”, 5 de Fevereiro de 2008 será o dia em que tudo deverá ficar definido. Os mais de 20 estados que faltam bem podem queixar-se: nenhum candidato os foi, nem irá, visitar.

O dilema das primárias (I)

Na noite do próximo dia 3, os habitantes do Iowa iniciam o processo de escolha dos candidatos às eleições presidenciais norte-americanas. Nessa altura do ano, a temperatura na capital deste estado do midwest é tipicamente inferior a 10 graus negativos e são poucos os que votam. Devido à sua reduzida população, Iowa elege poucos delegados às convenções democrata e republicana. Mesmo assim, estima-se que, em 2004, o impacto do processo na economia do estado foi superior a 50 milhões de dólares. Nos últimos três anos, John Edwards visitou Iowa 45 vezes, Obama 37 e Hillary 32. Do outro lado, a entourage de Romney esteve lá 40 vezes, Huckabee 25 e McCain 20. Tudo, porque ao ser o primeiro estado a eleger delegados, Iowa ajuda a solidificar ou reduzir as expectativas dos candidatos.

E agora, João Miranda e André Azevedo Alves?

Paula Dobriansky, líder da delegação norte-americana à conferência de Bali sobre alterações climáticas, de acordo com o New York Times: “We’ve listened very closely to many of our colleagues here during these two weeks, but especially to what has been said in this hall today. We will go forward and join consensus“.

Só 13% vivem em democracia

Através do Ruben Eiras, do blogue Casa da Liberdade, cheguei ao relatório da unidade de informação da revista “The Economist” sobre os índices de democracia no mundo (aqui, em formato PDF). São 11 páginas de informação muito interessante passível de promover discussões apaixonadas. Há dados surpreendentes (Portugal à frente do Reino Unido e da França) e outros reveladores: só 13% da população mundial vive em regimes considerados democráticos; os restantes vivem em quasi-democracias (38%), regimes híbridos (11%) e regimes autoritários (38%).

Uma questão de contexto

Aquilo que a Susana denuncia aqui é muito grave. É certo que o que a TMN está a fazer tem implicações maiores porque envolve cobranças disfarçadas. Mas o telemarketing à hora do jantar, o distribuidor de publicidade que carrega à campaínha para que lhe abram a porta do prédio, os jornais gratuitos que nos entram pela janela do carro ou os papelinhos do canalizador no pára-brisas, ilustram bem esta relação abusiva, invasiva, que temos com o espaço dos outros. Tivéssemos tido a preocupação de regulamentar a distribuição de publicidade não solicitada em espaços privados e, certamente, a TMN não estaria perante um contexto favorável para desenvolver este tipo de acções comerciais.

A universidade portuguesa

Um professor catedrático está ali no corredor a pedir à aluna de doutoramento que o ensine a inserir contactos no telemóvel novo.

Tradição familiar

Ouvi na TSF Luís Filipe Menezes dizer que hoje não está disponível para atacar o governo, porque é um dia importante para o “nosso país”. É nobre. Ainda mais vindo de quem tem disparado em todas as direcções. Mas eu queria lembrar o PSD, e o dr. Menezes em particular, que restam poucos dias para criar algum buzz político. O natal aproxima-se e corremos o risco de ter os portugueses durante o almoço de dia 25 a dar pancadinhas nas costas uns dos outros e a dizer que sim, que Sócrates é o melhor primeiro-ministro que Portugal teve. Ora, a tradição de natal não é assim. Pelo menos na família da minha mulher.

Technorati, technorati,…

[Em actualização] Com a ajuda do Technorati, descobri alguns posts de boas vindas. Obrigado ao Hugo Mendes (Véu da Ignorância II), Rui Branco (Adufe 4.0), Leonel Vicente (Memória Virtual), Sérgio Rebelo (Ponto Sapo) e Nuno Gouveia (Virtualidades e Eleições Americanas de 2008) pelas simpáticas referências.

Revolução espontânea (II)

As sondagens são muito claras sobre o tipo de “revolução espontânea” que está em curso no Partido Republicano: zero de ímpeto revolucionário. Mais do mesmo, portanto.

Por exemplo, aqui fica-se a saber que Mike Huckabee, o candidato anti-aborto e anti-casamento entre homossexuais - um “revolucionário”, está visto - lidera o sentido de voto numa das sondagens analisadas, com 37%. Em segundo lugar, com 17%, Mitt Romney, o “revolucionário” que apoia a pena de morte e técnicas de interrogatório, essas sim, revolucionárias. Fred Thompson, o actor “revolucionário” anti-aborto e pró-armas está em terceiro com 10% das intenções de voto. Rudy Giuliani e o “revolucionário” preferido dos liberais portugueses, Ron Paul, competem pela quarta posição.

Revolução espontânea (I)

Nas últimas eleições presidenciais norte-americanas, em 2004, tentei convencer um colega que afirmava não ir votar, a votar no candidato que eu apoiava. Ele defendia o direito de voto para os 6 mil milhões de habitantes deste planeta, portanto parecia evidente que o conseguiria. Não consegui, e o “meu” candidato perdeu.

Lembrei-me disto, porque a um nível muitíssimo superior de ingeniudade, está este post. Escrito num blogue português de apoio ao candidato republicano Ron Paul, o autor, Carlos Novais (CN), congratula-se com as 120 visitas diárias, interpretando-as como um sinal de adesão à “revolução espontânea” que a candidatura originou. Nem a dupla Howard Dean - Joe Trippi, nos primórdios da internet política, chegaria a este ponto de delírio.

PT-Blogo-Fractalândia

Os últimos meses obrigaram-me a estar longe da blogosfera. Regresso agora com este espaço, numa altura em que se discute e desmonta o autismo de um dos mais famosos bloggers portugueses.

Quando comecei esta aventura, no verão de 2003, um blogger anónimo conhecido como A Formiga de Langton, mas que era, de facto, o investigador Vitorino Ramos, definia a blogosfera portuguesa como a PT-Blogo-Fractalândia: uma rede de ligações activas, em mutação constante, com hubbs e pontos mais isolados. Ao longo das muitas conversas que mantivémos, eu nos EUA, ele em Lisboa, sonhámos criar um mapa da blogosfera portuguesa e seguir a sua evolução; perceber a importância de cada um dos pontos da rede e a dinâmica das suas ligações. Infelizmente, nunca concretizámos esse projecto. Teríamos aprendido muito e teria sido muito útil no contexto actual.

O meu regresso à blogosfera está inserido numa rede editorial de blogues, a TubarãoEsquilo. Quero agradecer ao Paulo Querido e a todos os seus membros, em particular ao Rui Branco, a oportunidade de me associar a este projecto. Quando me perguntaram que tipo de blogue seria este, respondi “generalista”. Honestamente, acho que essa foi uma forma fácil de não me comprometer com nada. Sei que gosto de escrever sobre ciência, educação, política e futebol. E às vezes, sobre o umbigo. O meu, o da minha mulher e o do meu filho.

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